Monday, March 20, 2006

12 poemas inéditos do livro
POR UM BOSQUE TÃO SOMBRIO
de José Viale Moutinho

Por um bosque tão sombrio
António Ferreira

1

o homem, olhando por cima do ombro,
assobiou, mas ninguém lhe respondeu,
quem seria, quem, só o rosto revelava
a surpresa muito própria de quem sabe
o que ali poderia, por fim, acontecer,

mas não escreveu na parede da casa,
só ergueu a mão direita ao coração
e afagou a pele, o mamilo esquerdo,
mas não era dali, retraía-se,
perdia o tempo velho das maçãs,

perseguiam-no, sim: odiava-os,
procurava a porta da saída de cena,
entendia que só lhe restava
a fuga, a fuga insuportável do deserto,

2

nada que eu possa dizer: sabor
dos sabores, pelos campos tenho
o outro lado daquela colina,
a mesma pedra branca acolhedora,

mas nem por palavras, talvez um grito
que pareça sem sentido, inerte,
exangue, desses gritos que morrem
quando não têm para onde ir,

oh, nada que eu possa saber, a voz,
por estranho que pareça, sempre cede
como as sombras pela manhã,
basta o sol assomar que corta as veias,

3

não, nem por gestos leves, apenas
com os movimentos de um gato muito
serafim, um gato que não reconhece
a mão que o afaga, um gato que arranha,

ninguém, sequer os restos mortais de um anjo
debaixo do tapete de borracha, ninguém
às portas do que resta da noite, apenas
o gato olhando fixamente as nuvens,

4

sabes, uma mulher andava pelas ruas
da amargura, rosto esquálido, verde,
tropeçava nas mãos quando as estendia
às portas fechadas, às paredes de pedra
e azulejos, afagava todos os animais
que, perdidos, se acoitavam na casa
abandonada ao fundo da rua,

uma mulher que poderia estar morta e
morta, perseguida, afundada na lama
do caminho que levava à fonte dos engaranhos,
nua, quando calcava os arbustos secos
que juncavam o caminho de cabras,
perdia-se dos olhares dos outros,
manejava os seus silêncios, fumava,

uma mulher que ia ao bosque e regressava
a casa, e sempre dizia as mesmas coisas,
as mesmas palavras fragmentadas, cruas,
alguém lhe roubara o nome do porta-moedas,
possivelmente haviam-lhe prometido
o falso manto de nossa senhora das dores,

5

e que posso saber olhando a rua,
as palavras misturam-se nas bocas
e é como se todos guardassem entre
as pedras, no cimento, na terra,
entre as ervas daninhas, nas pontas
dos cigarros esmagados, um discurso
sem préstimo: nada posso saber do país

excepto o que vem nos jornais errados,
nenhuma palavra é consentida
na paisagem, do restaurante popular
onde guardo o que me não cabe
nos bolsos do velho casaco de sombra,
mesmo que deixe escapar um grito,
observo a tesoura abandonada na mesa

e do escritório do receio, que seios
onde apoiar os lábios esquecidos,
que estranhos meios de perder o riso,
que posso saber olhando a rua
onde moro, os meus vizinhos, as luzes
com que se despem silenciosamente,
que devo pensar destas árvores cortadas,

queimadas, ninguém me pode responder,
muito menos as sombras da tua boca,


6

construir parques de estacionamento
subterrâneos é uma prática suicida
como outra qualquer, ah, a pátria,
convenhamos, poderia ser mais brilhante,
como um sol ou o seu espelho,

o velho guardador de automóveis,
provador de todas as aguardentes,
não se compara a estes soluçantes
jovens que coleccionam moedas
para o pó branco ou o chuto de cada dia,

11

estar assim com os olhos nos bolsos
e os dedos metidos nos ouvidos,
mastigando a língua, as palavras,
sonhando com o rosto colado na vidraça,
bebendo o café amargo, tecendo medos,
incertezas, tempo descontado,

estar assim no fio da lâmina é saber
que o teu sorriso é para mim,
que quando os teus cabelos me cobrem
é porque os teus lábios estão próximos
do último esconderijo, entre as pedras,

12

de repente, ao atravessar uma rua,
abro as mãos e vejo toda esta ausência
na sua túnica de espera e silêncios,
telefonemas e lábios que apenas afloram
o segredo da boca, atravessar uma rua
tem destes perigos, pelo que afundo, eco
de mim mesmo, as mãos nos bolsos,
fecho os olhos como quem se entrega a um carro
desgovernado, e avanço, bruto, tentando
respirar o tempo da tua pele, e não respiro,

de repente, ao procurar um telefone
na bolsa onde guardo as minhas vidas,
reparo que estão aí todas as minhas palavras,
o meu espaço está invadido pelas formigas
que me devoram os papéis, os cds, a arte
com que me tento equilibrar longe de ti,

vês como aprendi a roer os dedos, as unhas,
o lábio instante, a língua que procura o céu
da tua boca, para te dizer o que não entendes,
como folha rasgada do corpo que se queima,

13

este sou eu, natural, amador, perseguindo
as sombras das salas do museu dos velhos
rostos: quem pintou todas estas paisagens
com camponeses amarrados ao silêncio,
estas frondosas árvores que apenas existem
nos sonhos do homem que escreveu o livro,

esta sombra compreende a língua, a terrível
língua que despe e despede os teus seios
num recanto de jardim seco, é o remanescente
da tua voz este punhado de palavras que me
enchem a boca de desejo, este sou eu, estes
são os ramos do corpo, e tu és a mesma árvore

dos sonhos: amador de pintura naturalista,
vigia emoldurado, cabeça de velho a assomar
entre os arbustos da paisagem, víbora, frondosa
cabeça desenhada com a caneta da morte, não
és um sonho só: um homem diz eu sou esse
homem, ergo o rosto desse homem e estou cego,

14

estende as mãos, serpente, os dedos de arame
e sedução procuram os teus ombros, a língua
tornou-se insuportável, inchada e temível
como um afogado recolhido ao fim da tarde,
ocre o pôr-do-sol aparece por detrás do arvoredo
(querem fechar o museu, acendem as luzes),
e o amador, com as mãos nos bolsos, recorda
as sábias palavras do seu livro de instruções,


15

a tarde abre a porta com a sua aragem,
os ramos da estranha árvore inclinam-se
sobre o jardim destas paragens: ouve-se
passar um automóvel, cansado, o herói
limpa das armas com gestos lentos,
está descalço e há cansaço no seu rosto,

desgraçado, penso, as sombras perdem-se
e recuperam-se: sentado no átrio do hotel
perco o meu tempo a folhear uma revista
enquanto espero que me apeteça falar,


16

perdemos a vontade de sorrir, o cão
esconde-se debaixo da mesa, a toalha,
com as suas manchas de vinho e de molho,
as mãos amarrotando o guardanapo
de linho, os olhos postos na desgraça,

quantas vezes nos sentamos à mesa
com esta disposição, quantas vezes
esquecemos a amargura de um jantar
com os olhos postos na guerra suja
do iraque, a cores vivas e em directo,

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