Sunday, March 19, 2006


Conto A ILHA DE SAN SIMÓN


Sediam eu na ermida de San Simón,
e cercaronn-m’as ondas, que grandes son,
en atendend’o meu amigo!


da Cantiga 438 do Cancioneiro da Vaticana
Mendinho

Frei Anacleto de Santa Maria levou a espingarda à cara, olhou o rouxinol que cantava no ramo mais baixo da figueira-brava, a cinco metros do lugar onde se encontrava, apontou e puxou o gatilho. A avezinha desfez-se com a nuvem de chumbo grosso que a atingiu. Então, o bosque ficou silencioso, um silêncio de animais calados pelo medo, mal interrompido pelo repicar longínquo de um sino, o da capela do convento ou da igreja matriz de San Adrián de Cobres? Porém, escutavam-se as ondas, mas que é o marulhar senão um dos rostos do próprio silêncio?
«Que dia é hoje?» interrogou-se o frade, passando a manga do hábito pelo rosto molhado de suor. «Que dia é hoje?» Fez saltar o cartucho vazio e substituiu-o por outro, calando-se o sino embora os bichos do bosque continuassem na expectativa. Pelicanos, flamingos, patos e outros animais de pena cujos nomes ele conhecia em latim, platalea leucorodia, isobrychus minutes, anas platyrhynchas, que mais? A voz mecânica da arma a abrir e a fechar não alcançara o eco. «Que dia é hoje?»
Atento como um lobo, Frei Anacleto de Santa Maria observou os ramos das figueiras bravas e apeteceu-lhe entoar a cantiga do Figueiral-figueiredo, um romance que aprendera com o irmão Pacheco de Santa Iria, que servia na cozinha do convento. «Que dia é hoje? O dia de San Simón?» E desenhou a ilha no chão de terra da pequena clareira, arredando a caruma com a coronha da espingarda. Nunca mais escutaria o canto daquele maldito pássaro enganador, nunca mais deambularia pelos séculos como se se tratasse de um louco sem tempo e, afinal, com o tempo todo do mundo. Depois? Depois escondeu-se entre os arbustos porque o vento lhe trazia o ruído surdo de um barco a remos procedente de Redondela, um barco carregado de gente, alguma dela empunhando espingardas, vociferando, outra cabisbaixa, muda.
«Que dia é hoje?» continuava a interrogar-se o frade, agora colado ao chão, embora não sendo preciso porque decerto – e como se enganava - ninguém poderia ver quem quer que fosse que não respeitasse as regras do tempo, galgando-o em jornadas para a qual ele não necessitaria da espingarda de dois canos carregada com chumbo grosso.

Na verdade, o que se chama Ilha de San Simón são duas ilhas, a de San Simón propriamente dita e a de San António, ligadas entre si por uma pequena ponte de três arcos. E ainda há mais dois ilhotes, o Lobeira e O Cobreiro, mas esses nunca contam. A de San Simón é a maior das duas ilhas e, semioculta pelo arvoredo, tem uma casa grande, que serviu para posto médico, enfermaria, agora para dependências administrativas, estantes e secretárias, abarrotadas todas de pastas com processos em que se dispõe da vida de centenas de pessoas. «Que pessoas são estas?» O frade circulava pelos corredores sem que ninguém se apercebesse da sua presença. Era gente fardada, disforme, armada, que pigarreava para se dar ares de importância, cuspia nas paredes, fumava e deixava as pontas fumegantes nos buracos das paredes, nos beirais das bacias e das janelas. A cada instante erguiam o braço direito, a mão, amostrando como estava vazia, para diante, exclamando a saudação «Viva Franco! Arriba España!»
Na ilha de San Antonio havia uma ermida, a dos sinos, mas os sinos não se viam, apenas se escutavam, e um cemitério pequeno, de terra sempre revolvida, túmulos muito antigos de frades e de piratas, também duas ou três covas de grande profundidade para onde lançavam corpos, os corpos dos mortos, dos decapitados pelos sarracenos, dos fuzilados pelos franquistas, e cal, cal viva por cima deles, para que nada restasse. Tudo isso aprendeu Frei Anacleto, atónito por ali ter vindo parar nas suas jornadas pelo tempo, a contas com o canto do rouxinol que acabava de abater, com uma raiva que, afinal, tanto tempo guardara no fundo de si. «Que tempo é este?» Viu-se de espada em punho atravessando, num gesto furioso, os corpos de dois soldados do corsário Francis Drake. Cantara então o rouxinol e logo o frade achou-se de mãos ensanguentadas na cerimónia da inauguração do mosteiro franciscano de San Simón, ante o olhar estupefacto de Maximiliano de Áustria, bispo de Santiago. Com que então ali era o tal pedaço de paraíso quer pela santidade do lugar quer pela formosura do sítio, como asseverara D. Fernando de Andrade y Soutomayor, outro arcebispo compostelano? Sem saber se havia de rir se chorar, o frade deixou-se cair de bruços no solo. Mas logo lhe apareceram dois soldados que, em Dezembro de 1938, lhe apontavam as suas armas.
«Quem és tu? Levanta-te!»
Ergueu-se. Olhou os soldados, valeria a pena contar-lhes a verdade? Sentiu seus os dizeres que Mendinho colocara na boca daquela rapariga:
E cercaron-me as ondas, que grandes son,
non ei barqueiro, nem remador:
eu atendend’o meu amigo!
Bem se apercebia, morto o rouxinol:
…cercaron-me as ondas, que grandes son
Arrependeu-se da sua imprudência, sobretudo por se ter livrado da espingarda, teria um cartucho para cada um. Apesar de tudo, aqueles pobres diabos, instigados, poderiam fazer o que os franceses não haviam feito em Redondela: deitaram fogo a Redondela e exercitaram a sua desumanidade nos doentes que ali tinham ficado. Arrastaram pelas ruas algumas daqueles infelizes arrancando-lhes as entranhas, a outros rasgando a boca até às orelhas, violaram as velhas doentes até á morte e profanaram as igrejas devastadas com refinadíssima depravação*. Fazer entender aquela gente que se transformara em Frei Anacleto de Santa Maria depois de chegar á conclusão de que nunca mais poderia voltar a ser quem era? Ora, em meados do século XVIII, quando os ingleses assaltaram a Ilha de San Simón, leu mais tarde: os religiosos tomaram a comunhão, fugiram com os vasos, imagens e coisas sagradas, desamparando o convento; menos um religioso de tanta coragem, que ainda que velho, arriscou a vida no acto de ficar, tendo sido apanhado por um dos hereges, que lhe deu muitas facadas na cabeça e num braço; teria acabado o lobo com aquela triste ovelha se outro de menos crueldade não se apiedasse para lho tirar das garras. Queria o tirano encontrar tesouros num convento de S. Francisco, e como não o achasse, apagava a sua sede com o sangue daquele pobre cordeiro. Ficou finalmente vivo para contar as abominações que vira na casa de Deus tornada cavalariça pelos hereges**. Essa era a sua história, não lhe mencionava o nome, mas reconhecia-se nela. Cantara o rouxinol quando ele se encontrava prostrado e acordara em casa de um cirurgião de Redondela, por certo muitos anos mais tarde, que lhe cosera os ferimentos e o deixara salvo num pequeno barco que o levaria a San Simón. E de novo os trinados da avezinha o colocaram a porta do mosteiro, sendo mal recebido pelo porteiro, que o tomou por impostor. Mas teria de ficar para todo o sempre naquela ilha?
Os dois soldados eram loiros, pequenos, gordos, um deles tinha uma cicatriz na testa.
«Um frade, Ramón! Mas é mesmo um frade!»
«E dos antigos, mesmo dos antigos!»
«Como chegou até aqui, irmãozinho?»
Poderia contar-lhes que, uma vez mais, cantara o rouxinol, que o canto do rouxinol o fazia deambular pelos corredores daquela casa imensa onde havia alguém que mandava em todos os relógios e nas folhas dos calendários, alguém que se fazia tratar por deus. Um dos soldados lembrou-se:
«Deus pode aparecer-nos à vista desarmada?»
Um dos soldados encostou a espingarda a uma árvore e desdobrou um lenço enorme, aos quadrados, diante do frade, começando a esfregar a cabeça com aquele tecido grosseiro, onde havia ranho seco.
«Deus pode aparecer-nos à vista desarmada, irmãozinho?»
Frei Anacleto encolheu os ombros e olhou de revés para o arbusto sob o qual ocultara a espingarda com que desfizera o rouxinol. Deu uns passos em direcção aos guardas.
«Agustín! Agustín!» os berros vinham do outro lado do arvoredo. E logo apareceram seis soldados mais, de arma ao tiracolo, surpreendendo-se o grupo com o frade desconhecido. Um dos recém-chegados ajoelhou ante Frei Anacleto e beijou-lhe o hábito. O frade ajudou-o a levantar-se.
«Valha-me Deus, caralho!» os impropérios saíram da boca de um que tinha divisas de cabo. «Como aparece este frade à antiga aqui na ilha? Veio com quem, rapazes?»
«Sempre aqui vivi», disse em voz baixa e firme o frade, sabendo que ninguém o acreditaria. O mosteiro subterrâneo de San Simón não deveria ser conhecido daqueles soldados, nem mesmo dos graduados. Saberiam, quando muito, a localização da capela e do cemitério. Apareciam mais tropa, soldadesca, entre eles um tenente, já entrado em idade.
«E vive aqui sozinho? Há quanto tempo?» Se lhe respondesse com verdade, decerto esvaziariam nele as espingardas, com a raiva que revelavam.
«Vamos levá-lo ao padre Nieto, que ele lá saberá melhor do que nós estas coisas das missas…»
Ao principio de uma alameda abobadada de buxo surgiu um rapaz a correr, a dizer-lhes que se apressassem se queriam chegar a tempo do começo da missa. O frade e o padre Nieto conversariam no final. A missa era campal e todos os presos formados numa clareira ante um altar. A um lado, estavam as Irmãs de Caridade, surpreendendo-se Frei Anacleto em as ver naquilo em que parecia estar transformada a ilha, numa prisão. Em torno de todos, mais soldados e, numa torreta sobranceira, uma metralhadora assente num tripé. Para Frei Anacleto tudo aquilo era demasiado estranho, habituado apenas ás missas diárias no pequeno espaço da ermida de San Simón e, de quando em longe, em Redondela ou em Cobres, na passagem da Primavera ao Verão, as missas campais mas sem soldados por perto.
Em dada altura, do edifício maior saiu uma figura enorme, rosto sanguíneo, paramentos a roxo e dourado, estola apanhada a um lado pela coronha de uma pistola, cujo cano o padre entalara no cinturão. Era o padre Nieto que, avisado da presença do frade, a ele se dirigiu com maus modos:
«Disseram-me que sempre viveste aqui, é verdade?»
«Sim, é verdade.»
«E onde vivias?»
«No mosteiro…»
«E onde raio está o mosteiro?»
«Muito perto daqui. Trata-se de um mosteiro subterrâneo.»
«E é grande a comunidade?»
Frei Anacleto ficou atónito. Não poderia revelar, a menos que quisesse passar por louco, as suas andanças pelo tempo cada vez que cantava o rouxinol. Morto o rouxinol, escondida a arma, o que o poderia arrancar do convívio daquela gente, que parecia odiar quantos se encontravam na clareira, cercados pelos soldados, vigiados pela metralhadora, disponíveis para missa que o padre Nieto iria celebrar. Um oficial interpôs-se entre o frade e o padre, dizendo a este que não podia ter os soldados muito mais tempo ali, que despachasse a missa o mais rapidamente possível. O padre desinteressou-se da localização do mosteiro e dirigiu-se ao altar. Uma banda tocou o Cara el sol e o padre bradou aos prisioneiros:
- Incendiários! Assassinos! Violadores! Ladrões! Preparai-vos para ouvir a palavra do Senhor!
Estarrecido, Frei Anacleto afastou-se do recinto e decidiu aguardar o final da cerimónia junto à praia. Havia uma pequena encosta escondida por alguns pedregulhos. Aí foi dar com dois prisioneiros velhos que assavam uma rata grande como um coelho e se dispunham a devorá-la, perdidos de fome como se encontravam. Viram-no, retraíram-se, por fim convidaram-no, mas o frade regressou à missa campal, onde o padre Nieto já abençoava os presentes com um gesto rápido. E ao desfazer-se a multidão, correu a palavra ter aparecido um homem enforcado num buxo, suspenso pelo próprio cinto, e foram vê-lo.

Na casa grande, que fora a sede do Lazareto, Frei Anacleto almoçou com o padre Nieto e alguns oficiais. Nunca falaram dos prisioneiros, como se eles não existissem. E estavam numa ilha que era um campo de concentração para presos políticos. Na semana anterior mudara a direcção, pois um dos responsáveis do campo fora fuzilado após sumaríssimo processo. Ele e o médico tinham um jogo com as famílias dos presos. Por uma determinada quantia dispunham-se a libertar os raros que ali estavam para quem chegara mandado de soltura e recebiam quantias para dar saída a outros, muitas vezes quando eles já haviam sido fuzilados dois ou três dias antes. Alguém denunciara a situação e o caso era excessivamente escandaloso para ficar em branco.
Alguns oficiais estavam nervosas, haviam-se lembrado dos galeões espanhóis afundados ali diante da ilha, numa batalha naval terrível com uma armada inglesa. Os tesouros do Novo Mundo estavam no fundo da Ria de Vigo, mas fora da mão dos homens. Alguns alvitravam construir uma grande bolha de ar que se pudesse regular, na profundidade do mergulho, mas seria impossível iluminá-la para que os seus ocupantes inspeccionassem o fundo da ria. Um tenente tinha as Vinte mil léguas submarinas sublinhado na parte mais importante, quando Verne punha o capitão Nemo a dizer que contava com aquelas preciosidades para a sua aventura.
Para o frade, os tesouros de Rande não eram atractivos, no entanto seduzia-o a ideia de viajar até ao dia da batalha naval para ver aonde se haviam afundado os galeões. A partir daí poderia investir na sondagem nos locais certos. Mas nunca chegara a visitar as profundezas. Houve um período em que visitou Santiago como um dignitário da igreja, recuperando os favores da hierarquia religiosa.
Na companhia do soldado Ramón, Frei Anacleto de Santa Maria percorreu San Simón e San Antonio. Não tendo surgido nenhum rouxinol, apelou para qualquer outra ave canora de que se pudesse socorrer em critérios de fuga. Mas parecia não os haver na ilha naquela época. O rouxinol que estourara devia ser uma alma sua perseguidora. Pelo menos nenhum outro aparecia. O soldado Ramón, em dada altura, apareceu-lhe com um morcego que guinchava aflitivamente:
«Servirá?»

E assim, naquele enredo de entardecer, ambos se aproximaram da ponte que levava à ilha de San António. Numa ramagem que se estendia às guardas, subitamente cantou um rouxinol. Foi quanto bastou para que o soldado Ramón ficasse atónito com o desaparecimento do frade. Ainda tentou ver se o encontrava entre as silvas ou na lingueta de areia debaixo da ponte, mas Frei Anacleto de Santa Maria já se encontrava longe daquele Novembro de 1938. Ia sentado num barco, remando quatro homens, havia uns sete embrulhados em cobertores e um deles dizia-lhe:
«Foi muita a sua bondade em acompanhar-nos a San Simón...»
O barco bateu na areia e os remadores saltaram para o puxarem até ao pequeno cais. Um deles entregou um pequeno saco a frade, dizendo-lhe que era tudo quanto dispunham em Redondela para combater a cólera. Desembarcaram os doentes, Frei Anacleto guiou-os para o casarão, mas os seus olhos andavam de ramo em ramo em busca de um rouxinol.
do livro «Já os Galos pretos cantam», de José Viale Moutinho. Prémio de Conto Edmundo Bettencourt. Lisboa, Ed. Caminho, 2004.

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