Sunday, March 19, 2006

Conto para crianças
A MENINA ARRANJADINHA

A Aninhas é uma menina muito desembaraçada, embora, às vezes, tenha os seus momentos de preocupação. Ora, naqueles dias antes do Natal, quando se levantava pela manhã, corria ao calendário da cozinha a ver se já era dia 24.
O primeiro dia de férias que viu foi o dia 20, depois, na manhã seguinte, era o 21.
Na outra manhã depois apanhou um susto porque era outra vez 21, mas a mãe é que se esquecera de arrancar a folhinha. Para aflição e depois alegria da Aninhas, que não sabia o que estava a acontecer com o tempo, a avó Leocádia, quando foi tomar o comprimido do meio-dia, olhou para o calendário, pensou um bocadinho e exclamou:
- Ai, esta minha filha esqueceu-se de tirar a folha de ontem! – E piscando o olho para a neta disse-lhe – Hoje são 22.
E arrancou a folha de 21.
A Aninhas ainda pensou que a avó lhe faria o favor de tirar mais duas folhas, mas viu que aquele dia era mesmo o 22 e não podia ser outro!
O que a Aninhas queria era chegar depressa a 24, pois à meia-noite, nem que estivesse a cair de sono, teria os presentes todos que encomendara. Assim, passava aqueles dias a folhear livros e a ver DVDs quase sem lhes prestar atenção. Na verdade, se depois dela ver um filme de desenhos animados lhe perguntassem pela história, não sabia, não lhe prestara atenção nenhuma. A Abelha Maia, por exemplo, vira esse filme quatro ou cinco vezes, mas não se lembrava de nada.
O Miguel, que é o irmão do meio, queria ver pela oitava vez o DVD Sozinho em casa, com o qual se divertia muito por causa das armadilhas que o rapaz pregava aos ladrões que lhe assaltaram a casa. Queria ver, mas não via, pois a Aninhas, andava sempre com os seus desenhos animados para trás e para a frente, a ver se o tempo passava. E aquilo de fazer zangar o Miguel era também para não dar pelo tempo a passar. Queria era o dia 24 de Dezembro.
Assim, o Miguel, que tem manias de diplomata, começou por pedir-lhe com toda a delicadeza que ela o deixasse mudar de filme, mas a mana mais nova só fazia que não com a cabeça. Depois ele disse que o Sozinho em casa era uma maravilha, que poderiam vê-lo os dois, que o menino que lá aparecia fazia umas armadilhas muito divertidas, que ela iria gostar, mas a Aninhas nem respondia, agora a fazer as vozes dos bonecos.
E o Miguel, sacudiu a sua delicadeza toda, decidindo, por fim, tentar assustá-la:
- Olha que, um dia, vêm cá as bruxas e levam-te! Estás a ser má comigo, Aninhas! Olha que as bruxas vão-te…
Mas, olhinhos a brilhar, sem os tirar das aventuras da Abelha Maia, a Aninhas, sorrindo, disse que não só não tinha medo de bruxas como até sabia uma coisa que não dizia a ninguém.
Muito intrigado, o Miguel quis que ela lhe dissesse:
- O que é que tu sabes e não dizes nada a ninguém?
- Ora essa! Se eu te dissesse aquilo que sei já não era o segredo que é!
- Mas dizes-me só a mim, que sou teu mano, e eu não digo nada a ninguém!
- Não digo.
- Porquê?
- Porque eu não quero é que tu saibas o que eu sei. Na verdade, posso dizer isto a toda a gente desde que ninguém te diga o que é!
O Miguel ficou a olhar para a Aninhas com uma cara de quem não estava a perceber mesmo nada. Passado um momento, calado, saiu do quarto dela e foi à sala, onde a Alexandra, que é a irmã mais velha, estava a ler um livro do Harry Potter.
- Posso interromper a tua leitura por um momento?
A Alexandra, que estava na página 214, a meio de um feitiço, meteu o dedo indicador direito no sítio em que estava a ler e, tirando os óculos, olhou o irmão com ar interrogativo. Claro, se ele já interrompera a sua leitura com aquela pergunta, que falasse, pois a coisa que ela mais queria no mundo era continuar com a leitura daquele livro.
- A Aninhas tem um segredo!
- Ai tem? E o que é?
- Não me disse.
- Então…
. - Então queria pedir-te que fosses lá ver que segredo é.
- Para depois to dizer, adivinhei?
- Claro.
- Quando acabar de ler este livro trato disso.
- Falta-te muito?
- Vou na página 214.
- E quantas te faltam?
- Faz as contas, maninho. O Harry Potter e a Ordem da Fénix tem 750 páginas, já li praticamente 214
O Miguel abriu a boca admirado com o tamanho do livro que a irmã Alexandra andava a ler. Ainda quis contar pelos dedos, mas viu que não tinha tantos dedos assim. Nem que fosse uma centopeia que em cada uma das cem patinhas tivesse cinco dedinhos! Mesmo assim, pegou numa esferográfica e fez a conta, chegando à conclusão:
- 536 páginas! Ainda te faltam 536 páginas!
- Olaré!
- E quanto tempo demoras a lê-las? Até antes do jantar?
- São quatro e meia do dia 22 de Dezembro de 2003 – disse a Alexandra, a gozar as palavras que ia dizendo lentamente. – Olha, Miguelinho, passa por cá lá para o dia 29 ou 30 deste mês…
- Então não podes dar-me uma ajudinha, não?
A Alexandra abriu de novo o livro. Antes de mergulhar de novo na leitura, ainda deixou dito:
- Se tivesse sido há três meses, tinhas mais sorte…
- Porquê?
- Andava a ler o Harry Potter e a Pedra Filosofal, que só tinha 256 páginas!
O Miguel zangou-se mesmo:
- Pois, o que tu não queres é que eu veja o Sozinho em casa…
Com a atenção quase toda metida nas páginas do Harry Potter, a irmã mais velha acabou-lhe a frase:
- … pela vigésima vez!
Do quarto da Aninhas chegava a voz dela a imitar a Abelha Maia:
- Zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz!
O Miguel, com o DVD do Sozinho em casa debaixo do braço, voltou a apresentar-se ao pé da irmã mais nova:
- Queres vir para o terraço dar uns chutos na bola?
A Aninhas deixou de prestar atenção ao filme e perguntou:
- Vamos jogar futebol para o terraço?
- Vamos. Mas deixas-me ver o Sozinho em casa…
Bem via como aquilo ajudaria a fazer o dia andar mais depressa. Concordou:
- Está bem, mas vês o teu DVD depois do nosso jogo.
Com um gesto, que parecia mágico, ela retirou a Abelha Maia do leitor de DVDs e correu para a cozinha, a abrir a porta para o terraço, enquanto o Miguel ia ao quarto buscar a bola. A meio do caminho, a Aninhas parou e disse ao Miguel:
- Depois conto-te o segredo…
O irmão – ela bem o vira! – em vez de ir buscar a bola fora meter o Sozinho em casa no leitor. Ao ouvir aquilo, cheio de curiosidade, deixou-o logo e foi atrás da Aninhas. Mas ela dera meia volta e já estava sentada à mesa na cozinha a comer pão com fiambre, diante de um grande copo de leite. A mãe ficou surpreendida com aquele momento de paz e preparou mais pão e mais fiambre para o Miguel, assim como o tal copo grande de leite com umas colheres de chocolate.
- Contas?
- Conto.
- Ora conta.
- E jogas mesmo futebol comigo?
- Jogo.
- E deixas-me ganhar?
- Deixo.
- E eu sou do Benfica e tu és do Porto?
- Sim.
- E ganha o Benfica?
- Ganha.
- E o Porto perde com o Benfica?
O Miguel engoliu em seco e comentou:
- Estás a abusar, não estás? – Ele entendia que sim.
E a Aninhas, enquanto lanchava, muito senhora do seu nariz, contava:
- Sabes? É que não há bruxas más coisa nenhuma. E também não há mostrengos nem dragões!
O Miguel achava que, pelo menos, havia um dragão no mundo, que era o do FC do Porto, mas não disse nada.
- Os grandes é que gostam de nos meter medo! Eu sei muito bem que uma pessoa não pode transformar outra num sapo nem numa lagartixa! Era o que mais faltava, se pudesse! Nem há príncipes encantados, nem nada dessas coisas! Aquelas histórias das rainhas más...
- Pois era… Mas, e o segredo que tu me disseste?
- Ai, queres maior segredo do que este?
A mana mais nova estava com ar de caso. Como é que ela sabia aquilo tudo?
- O outro dia, estava a ajudar a Luciana - que era empregada lá de casa -, a limpar umas caixinhas de metal, daquelas da colecção do pai, e de dentro de uma que eu estava a esfregar saiu uma nuvem de fumo que se transformou num homem muito grande, de barbas e com um barretinho vermelho na cabeça.
- Estás a gozar comigo!
- Era um Génio Mágico…
- Para aí do Benfica, pela cor do barretinho…
- Isso já não sei, Miguel. Ele disse-me que fazia tudo o que eu quisesse e pedi-lhe que me respondesse a umas perguntas. Assim, fiquei a saber que não há bruxas nem nada dessas coisas, nem que houv feiticeiras, essas coisas! É tudo uma mentira pegada para as meninas e os meninos não se portarem mal.
- E que te disse mais o Génio Mágico?
- Que o meu irmão vai ser um grande jogador do…
- …Porto!
- Não, do Benfica!
O Miguel, desconfiado:
- Tens a certeza?
- Tenho. Mas para ti é melhor porque o Benfica é que tem futuro!
- Mas o Porto já é um grande clube!
- Ora! Ou acreditas no Génio Mágico ou não! Já ficas a saber que não há bruxas, que o Benfica vai ser o campeão, e que eu vou saber tudo!
- E como é que vais saber tudo?
- Ele deu-me uma bola de cristal.
O Miguel olhou em volta.
- Não a vejo aqui na cozinha e no teu quarto também não está.
- Pois não, porque é pequenina.
- Como uma noz?
- Como uma avelã.
- Emprestas-ma?
- Para quê?
- Para eu ser o melhor a Português, a Inglês, a Matemática... na bola...
- Não posso. Só dá resultado comigo, Miguel.
- E depois de ter falado contigo, o que é que o Génio Mágico fez?
- Foi para dentro da caixinha.
- O Pai tem cinquenta e sete caixinhas de metal, em qual delas está metido? Como é que sabes qual é?
- Vou passando o pano por todas, com aquele líquido próprio. Não é bem só passar o pano, é esfregar mesmo com força. Na próxima vez que as limpar, decerto o génio volta a sair para falar com quem esfregar a caixinha dele...

No dia seguinte, depois do almoço, quando o pai perguntou à Aninhas se ela fizera o que ele lhe pedira, ela disse que, de certo modo, sim. O Miguel é que estava sem perceber aquela conversa. A Alexandra sorria, como se estivesse a lembrar-se da magia mais mágica do Harry Potter.
O pai abriu o armário da entrada e retirou para um tabuleiro as suas caixinhas de colecção. Estavam lindas, brilhantes, limpas. E logo disse:
- A Aninhas merece bem a caixa de chocolates pelo trabalho que fez! Uma limpeza muito bem feita!
E a Aninhas recebeu a caixa, foi sentar-se num dos sofás e logo dividiu os chocolates com o Miguel, que estava furioso, mas sem dizer palavra.
- Olha, Miguelinho, agora é que te vou dizer o melhor do segredo.
- E qual é? – perguntou o Miguel, que já não estava a gostar da brincadeira.
- Que mereces quase meia caixa de chocolates por teres limpo tão bem as caixinhas da colecção do pai.
- Mas tu ficaste com a maior parte...
- Foi pela lição! Andaste à procura do Génio Mágico…
- Mas ele não apareceu!!!
- Pois não, nem a mim!
- Então…
- Então, sem quereres, fizeste-me um grande favor!
A avó Leocádia, que percebeu tudo o que se passara, soltou uma gargalhada e comentou:
- Ai esta minha neta Aninhas é uma menina muito arranjadinha!
De facto, arranjara com que se entreter aqueles dias! O tempo passara depressa, depressinha. Olhou para o calendário e disse à mãe que aquele dia se estava a acabar, pelo que poderia, desde já, tirar a folha do dia 23. Foi a avó Leocádia que estendeu a mão para o calendário. E naquele momento ouviu-se um barulhinho como se um balão se estivesse a esvaziar.
E eis que no meio da cozinha apareceu mesmo o Génio Mágico que, voltando-se para a Aninhas lhe perguntou:
- O que é que mais queres, menina?
- A meia-noite do dia 24 de Dezembro!
O Génio Mágico deu estalo com os dedos e a mãe da Aninhas levantou-se da cadeira, foi ao calendário e, enquanto arrancava, a folha do dia 24, dizia:
- Podem ir buscar as prendas à lareira, meninos.
Foram todos a correr para a sala. Ao pé da lareira, num monte que nunca mais acabava estavam caixas e mais caixas com lindos papéis e fitas. Prendas para a Aninhas, para os manos, para os pais e para a avó Leocádia. Esta foi a última a aproximar-se porque fora abrir a janela para o Génio Mágico poder sair dali para fora, em direcção ao seu país tão distante. Sentado no seu tapete voador, ele repetia as palavras da avó:
- Ai que menina tão arranjadinha...
conto inédito (2004)

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