Monday, March 20, 2006

Conto A VIAGEM DO NOVO GERENTE OU O CASTIGO DO CÉU
de José Viale Moutinho


Então, foi assim:

Dentro de dois dias chegaremos a Vigo, aí começará a minha nova vida. Meu tio Amâncio bem me dizia que guardado está o bocado para quem o há-de comer. Morreu sem me ter mostrado o bocado que eu havia de comer, mas ficou-me a lição. Mas quando o cambista António Romero me admitiu ao seu serviço, fê-lo porque queria alguém com estudos que o ajudasse no armazém. «Olhe que isto, portando-se você bem, tudo isto poderá um dia ser seu.» Um dia. Ora um dia é não saber e eu gosto de saber. E acho que até soube, soube aproveitar, que se por um lado eu vislumbrava a sorte, por outro ela aparecera-me assim. Começo a escrever este meu diário no barco, o Guadalupe, que, depois de Vigo, segue para Buenos Aires!

O pobre diabo, um galego, que empurrava o carro de mão, tinha uma expressão comprometida. Não era só pela chiadeira das rodas, mas pelo fedor que exalava a barrica transportada. Faltava-lhe pouco para chegar à capela de Nossa Senhora do Ó, no Largo do Terreiro, ao fundo da Rua da Fonte Taurina. A mulher que lhe confiara a barrica, recomendara-lhe bico calado e entregara-lhe umas moedas. Era um serviço bem pago, muito bem pago, mas fedorento. Toda a gente implicava à sua passagem. Como se tinham lembrado dele, nem fazia ideia nem lhe interessava. A mulher era já velha e procurara-o na Adega do Porco, às Doze Casas, na tarde do dia anterior. Nunca a vira, nem tencionava voltar a vê-la. Não fizera perguntas. Mas a barrica empestava, como se o conteúdo fosse tripas podres. Ou carne podre. Em Agosto, o Porto aquecia tanto, que o que quer que ali rodasse já não estava em bom estado. Só pelo dinheiro não se arrependia do frete. E lá continuava a descer a Rua das Flores, indo colar-se à parede de S. Francisco, para a última etapa. Suava, merecia beber, aliás beber acompanhado. No botequim da Ribeira. A acentuada descida obrigava-o a suster o andamento, para que a barrica não saltasse do carro. Por fim, chegou à capela.

- Oito horas! – Respondeu um homem de mau modo a alguém que o vira tirar o relógio do bolso e o interrogara.
O fedor entrou-lhe imediatamente pelas narinas, a ele e ao que perguntara as horas. À porta de um dos tascos estava um tipo qualquer com um copo na mão, meio aparvalhado.
- Que cheirete, sr. Bento da Costa! Assim, de repente…
O homem do relógio olhou para a barrica que estava no carro de mão, que o galego encostara à parede da igreja. Quis saber:
- É para atirar ao Douro?
Respondeu-lhe o recém-chegado:
- É para ficar aqui.
- Quem te mandou?
- Uma mulher do Largo da Aguardente. O frete está feito e recebido. Até aqui o carrinho foi pago. Agora vou-me embora.
- E vai ficar isso aí, ainda por cima a cheirar mal?
- Quero lá saber. Já fiz o combinado.
O galego voltou as costas, já decidido a ir beber um copo na Porta dos Carros, e iniciou a subida da rua que acabara de descer. Quem não estivesse para aturar o cheiro, que rodasse a barrica até à beira do rio e a empurrasse. A velha dissera que era para encostar o carro à capela da Nossa Senhora do Ó, e melhor encostado não poderia ter ficado.

O cambista mostrou-me os cantos da casa. Quando lhe disse que era sobrinho de Luís Filgueira, logo me disse que eram amigos desde os bancos da escola do professor Minas. Não tinha mais empregados e parecia que eu lhe entregara uma mão-cheia de cartas de recomendação, e não lhe entregara nenhuma. Deu-me logo uma importante quantia para que fosse a Santo António mandar fazer um fato completo, com colete, camisas, sapatos, tudo, porque o seu gerente tinha de ter uma boa aparência. É este fato que trago posto.

O guarda municipal não estava para maçadas. A barrica, de facto, fedia, mas ele não sabia se aquilo era exactamente coisa para o seu serviço. Não havia nenhum regulamento que se referisse a tipos de mau cheiro, que não fossem dejectos humanos, que a merda não cheirava assim. Isso sabia ele. Alguém enfiara gatos ou cães mortos na barrica, ou que outra coisa poderia ter sido? Havia por ali mais de uma vintena de curiosos. O sr. Bento da Costa pediu ao homem que estava à porta do tasco a beber que fosse buscar um martelo, uma alavanca, qualquer coisa para abrir a barrica. Ele não queria ir, mas alguém lhe meteu na mão um pedaço de ferro e empurrou-o para junto do carro de mão.

O doutor Sebastião Dinis, Juiz de Fora do Crime, bebia refresco de limão e abanava-se com uma folha de papel grosso, mas de que poderia valer estas armas ante uma vaga de calor na cidade do Porto? O escrivão Matias Saraiva cabeceava de sono. O calor e as noites em claro atacavam-no impiedosamente.
- Está a ouvir bem o que lhe digo?
Quando o juiz fazia uma pergunta, o escrivão punha-se de pé, abotoava o casaco e depois acenava que sim com a cabeça.
- Ora, então, leia, faça o favor, ó Saraiva.
O escrivão pigarreou e leu:
- Ano de nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1824, aos 14 de Agosto, nesta Cidade do Porto, e sítio do Largo do Terreiro, aonde veio o Doutor Juiz de Fora do Crime, comigo Escrivão deste juízo, Matias Saraiva; ainda sendo presentes Bento da Costa, comerciante da Praça da Ribeira, e António Estorvo, morador na travessa de S. Nicolau, que assim disseram chamar-se, mandadas comparecer na presença dele, Ministro, por constar que foram as primeiras pessoas que encontraram neste sítio uma barrica, em a qual se achou o cadáver de um homem metido em sal…
O Juiz de Fora do Crime fez sinal para que a leitura fosse interrompida, mas o Escrivão acenou a dar a entender que não havia mais nada escrito, e acendeu um charuto. A primeira baforada de tabaco pareceu iluminá-lo. Debruçou-se sobre as notas e pensou que o tabaco parecia cortar o cheiro nauseabundo que se lhe entranhara nos pêlos do nariz, quando quisera ver o cadáver. E continuou a ditar, mas a voz saía-lhe mal, umas vezes em falsete, tossia. Não percebia a extraordinária calma do escrivão. Finalmente, pediu-lhe para ler o que escrevera.
- … e logo ele, Ministro, os ajuramentou, este os é deles, a não ser que Vossa Excelência deseje que escreva as ajuramentou, a elas, às testemunhas. – Mateus Saraiva notou um leve encolher de ombros do magistrado. Ficaria assim mesmo. Prosseguiu. - … a ambas aos Santos Evangelhos, encarregando-lhes declarassem o modo e forma por que encontraram a dita barrica, e conheceram o que continha; se sabem quem ali a conduziu e a direcção que trazia; e recebido por elas o dito juramento declararam…

Quando o sr. António Romero se voltou, viu-me a corda nas mãos, e o que o perdeu definitivamente foi não ter percebido logo o que eu ia fazer com ela. E eu ia fazer a minha fortuna, evidentemente, e esta viagem.
Andou mais de uma semana a dizer que ia montar uma agência da sua casa no Brasil, que viajaria em breve, que eu ficaria a tomar conta das coisas no Porto, que mais isto, que mais aquilo. Escreveu cartas para toda aparte até prometeu um papagaio à vizinha da frente, a quem arrastava a asa. Só tive de estudar as partidas dos barcos, para que tudo coincidisse.

Bento da Costa disse que estava a aguardar que um recoveiro chegasse de um recado a que o mandara ao outro lado do rio, quando ouviu o chiar de um carro, que ele não viu imediatamente, por estar encoberto pela esquina. Porém, não tardou a que surgisse um carrejão com um carro de mão, onde transportava uma barrica. Mal chegou junto da capela, encostou o carro, cuspiu nas mãos e, como logo se espalhasse um fedor muito forte, ele mesmo o interrogara sobre o destino que ia dar àquilo, tendo sabido que fora pago para deixar ali o carro e a barrica, retirando-se. Não se lembrava o comerciante dos traços do rosto do homem, mas galego era de certeza, tanto mais que trajava com as roupas rudes que costumavam usar os filhos de Pontevedra. Nunca o vira nem lhe parecia que o poderia reconhecer.
O outro arrolado como testemunha, António Estorvo, declarou que o sr. Castro lhe pedira que arranjasse um martelo ou qualquer outra coisa que servisse para abrir a barrica. Alguém lhe meteu um ferro na mão, pois não sabia de nenhuma ferramenta, e ele mesmo fizera saltar a tampa da barrica. O cheiro tornara-se de tal modo intenso que quase desmaiou, uma mulher tivera de pôr-lhe água nas fontes.
Do guarda municipal não havia notícia. Toda a gente o tinha visto, mas ele desaparecera naquela confusão. Foram umas mulheres, por ordem do sr. Bento da Costa, que haviam ido chamar as autoridades.

- Ora leia lá isso, ó Saraiva…
- … as testemunhas estavam persuadidas de que na barrica havia carne em mau estado, presuntos ou chouriços. Porém, destapada a barrica, pois fizeram saltar uma das extremidades, se achou por cima coberto com roupa, e tirando-a se viram os pés de um homem com botas calçadas, e tirando-o para fora, acharam um cadáver metido um sal, o qual estava vestido de pantalonas, colete e casaca, achando-se-lhe umas pequenas chaves…
- Para que raio quereria o homem essas chaves depois de morto?
- Sabe-se lá, senhor dr. Juiz! Para abrir as portas do céu, seria?
-Não blasfeme, Saraiva.
- …e entre o sal uma faca de ponta. Ignora-se de quem seja o cadáver, por não estar já em estado de se poder conhecer; e da mesma forma se ignora o destino do carrejão, por não se saber donde veio, e disto, por nada mais haver a acrescentar, eu, escrivão, dou fé.
- Eu confio em si, Saraiva, você é um homem experimentado nestas coisas, por isso poupe-me a leitura mais escabrosa, mas releia isso para si. Como se estivesse a ler para eu corrigir. Eu sei das suas qualidades, Saraiva. Com este calor, não aguentaria o resto. – E o Juiz de Fora do Crime bebeu ruidosamente meio copo de limonada e levou ao nariz o, bainha lenço perfumado,
Mateus Saraiva prosseguiu a leitura em silêncio, mas movendo os lábios para que o magistrado se apercebesse da sua diligência:
- E sendo presente o cadáver, lançado sobre um pouco de sal, eu o escrivão não o pude reconhecer por se achar inteiramente desfigurado; e junto dele se acharam uma navalha de ponta, com cabo de osso, bainha de couro, e duas chaves presas a uma argola, que parecem de gaveta, e no cadáver se achou ao pescoço umas contas com uma cruz de latão, e estando o mesmo cadáver vestido com casaca, colete, camisa, pantalonas e botins. – O escrivão franziu as sobrancelhas, estava a repetir as coisas, depois comporia, antes de levar ao juiz para assinar. O truque era ao dar aquilo por concluído, fazer tombar o tinteiro, de modo a ter de reescrever tudo noutro ambiente, com menos tensão. Beberia um chá de tília. E chegara à tal parte que impressionara o juiz ao ditá-la. - … parecendo a casaca de cor preta, o colete de veludilho preto e as calças de ganga amarela, o que bem se não pode afirmar, por se achar a mesma roupa inteiramente danificada pelo sal; e sendo examinados os bolsos da dita roupa, senão achou coisa alguma nos do colete e calças; e no bolso da casaca se lhe achou um lenço e uma caixa de papelão redonda, para tabaco, do tamanho de uma hóstia ordinária; e examinando-se os farrapos que cobriam o cadáver na barrica, nada mais de importante se encontrou. – Reparando que o Juiz de Fora do Crime parecia adormecido, pelo menos tinha as pálpebras baixas, o escrivão saltou a sua leitura silenciosa para o relatório apenso. - … comparecendo ao acto os cirurgiões aprovados e do Partido da Relação, Alberto de Serpa e Gramaxo Antunes, ele, Ministro, devidamente os ajuramentou, encarregando-lhes vissem e examinassem o cadáver, etc. – Matias Saraiva evitou ler, pois mais tarde teria de o fazer ao reescrever aquele assento. O cadáver tinha a cabeça quase separada do corpo, fracturada, que o pobre havia sido acutilado até à morte.
- Merda, Saraiva! Outra vez! Já anteontem aconteceu isto!
O tinteiro estava caído e a tinta empapava o papel do assento. Mateus Saraiva apresentava uma expressão compungida.

Pelas suas contas, o gerente do senhor Romero já estaria na Argentina quando conseguissem identificar o patrão, que deixara salgado na barrica. Pagara à velha bruxa do Largo da Aguardente para que se livrasse da barrica. Não resistira a um bom caso de jornais. E quis que o descobrissem a certo prazo. Mas estaria a salvo em Buenos Aires ou na Bolívia. Encarregara um procurador de lhe mandar todos os jornais que falassem na viagem do patrão, no achamento da barrica, das diligências policiais, ficando na expectativa de que o descobrissem, embora demasiado tarde, obviamente.

Em Vigo, nos Peiraos, o gerente do senhor Romero foi seguido por um tripulante do Guadalupe, que se apercebera que ele levava uma grande quantidade de moedas de ouro no alforge de que nunca se separava. Andava derreado o português, derreado com aquele peso. Fora fácil, ao anoitecer, meter-lhe uma sevilhana nas costelas e arrancar-lhe o alforge. Empurrara-o, ainda vivo, para as águas, que se tingiram de sangue, mas acabou por morrer afogado no lixo que batia nas pedras.
E assim a Divina Providência se encarregou de fazer pagar com língua de palmo ao assassino do senhor Romero, a quem o tio Amâncio observara: Guardado está o bocado para quem o há-de comer. No entanto, o tripulante do Guadalupe em vez de regressar ao navio, seguiu a cavalo para Madrid, onde depressa gastou aquela fortuna que roubara.

Gostaram do desfecho? É um pouco moralista, mas eu ainda tenho uma ligação atávica a determinados valores, desculpem. O marinheiro é que se me escapou.

1 Comments:

Blogger Palmiralis said...

Olá! Sou uma jornalista galega a trabalhar em Lisboa. Gostava de contactar consigo. Como é que posso fazer? Este é o meu e-mail: palmiralis@mail.telepac.pt

8:21 AM  

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