Sunday, March 19, 2006


Crónica Encontros com D. Ramón no Porto
A primeira vez que o vi ouvi-o discursar. Era eu moço e meteu-me muita impressão o verbo sonante de D. Ramón Otero Pedrayo. Sempre tive um certo receio de fazer má figura nas conferências, pois quanto mais ramalhudo é o verbo, mais sono me provoca. E eu sei que quando caio assim a dormir num auditório, tenho a tendência para usar o ombro do parceiro do lado como almofada e fazer soar as trombetas de Jericó em forma de roncos monumentais. Pois bem, confesso, não me encantou ouvi-lo. Perdia-me em tantas referências. Mas aprendi a conhecê-lo, lendo-lhe umas crónicas e uns contos, o seu Guia da Galiza, tal como o poderoso poema, pelo menos épico-gastronómico, sobre o vosso xamón, que é o nosso presunto (lapa de carne, flor do fumeiro, etc.).
Assim, há uns 32 anos, nos inícios de Maio de 1972, na Praça da Batalha, no Porto, vejo D. Ramón sair de um táxi e entrar num daqueles hotéis que ali estão. Eu conhecia o motorista e perguntei-lhe donde o trouxera. Disse-me que da igreja de Santo Ildefonso, justamente do outro lado da praça, uns cem metros difíceis de percorrer para as pernas cansadas do grande patriarca galego, que já andava muito alquebrado. 84 anos, morreria quatro anos mais tarde. Contou-me o taxista que o contratara por uma série de dias, sempre à mesma hora, para o atravessar a praça, a fim de poder assistir à missa da tarde, aguardava-o e regressava com ele ao hotel. «Deve ser uma pessoa muito crente! E muito sábio! Diz-me cada coisa! E entende-se muito bem!» dizia-me o taxista.
Entendi que era a altura de me encontrar efectivamente com ele. E recebeu-me. D. Ramón descansava no Porto de uma ida a Lisboa falar de Santiago de Compostela. Desse encontro, guardo registo das suas palavras: «Dediquei-me quase indistintamente a todos os géneros literários numa altura em que a Galiza o necessitava. A intervenção era importante em qualquer domínio. Não hesitei. Lamento apenas não ter tido espaço suficiente no meu tempo para me dedicar ao romance, género para que me sentia mais inclinado e dotado. Sempre me agradou observar tipos estranhos.
«Claro que na época em que começámos a trabalhar, por volta de 1913, quando se iniciou a ressurreição do galeguismo oitocentista. Nesse tempo tudo fazia falta, como lhe disse. Talvez Os camiños da vida, de 1928, tenha sido a minha obra de ficção mais acabada.» E falava desse livro: «Descrevo aí o caminho da sociedade galega no século passado. Exactamente no ponto em que se começaram a fundir as antigas instituições patriarcais, que não eram mais do que formas de individualismo moderno! Punha face a face a fidalguia camponesa na sua evolução provocada pelas ideias liberais, precisamente quando esses aristocratas iam á cidade e se comportavam já como cidadãos normais sem assumirem atitudes empoadas…»
Falou-me longamente de Santiago e do seu ambiente mitomaníaco (a expressão é dele), dos seus bêbedos filósofos encharcados em vinhos do Ribeiro! Assim acaba por falar-me da sua perspectiva da língua galega: «Espero que o galego assuma uma vez mais a importância da Cultura de que é expressão. No entanto, creio que é uma vantagem para um povo ter duas línguas, tanto mais que uma nãoexclui a outra. Não se pode deixar morrer um idioma por muito humilde que seja. Doutro modo seria como deixar morrer ou matar uma fonte. A grandeza do povo galego reside em muito no ter sabido guardar a língua para tempos propícios…» E falamos em Valle-Inclán. D. Ramón diz-me que ele «não entendeu o camponês como ele merecia. E nisso errou. Valle-Inclán considerava sempre o camponês um bufão, um bandido, uma figura pitoresca e nada mais do que isso. E esta atitude é totalmente desrespeitosa da parte de um galego que nem sequer sabe compensar com a sua admiração um povo cioso do seu património cultural.»
Foi neste encontro de Maio de 1972 que D. Ramón Otero Pedrayo me disse como sonhava o futuro da Galiza: «Gostaria que fosse uma democracia camponesa. Sem grandes cidades nem grandes indústrias. Indústrias, só caseiras.» Mas acabou por reconsiderar o país encantado e pouco prático que imaginava e acrescentou: «Gostaria que o galego não partisse, não emigrasse e ficasse na sua terra. Todavia, a Galiza devia estar tecnicamente melhor equipada para o poder reter com trabalho. Entendo que se deveria fomentar a vida das paróquias. Não por uma questão absolutamente religiosa. Creio que a formação da Galiza em paróquias é mais autêntica que em municípios. As paróquias creio serem derivadas de antigos clãs a que a igreja depois apôs uma cruz e um cemitério! Isto está tão arreigado ao povo galego que nas próprias colónias de emigrantes na América do Sul se constituíam em grupos de dimensão paroquial.»
Mostrando-se avesso á divisão da Galiza nas quatro províncias, justificou-o considerando ser um despropósito este retalhar de regiões naturais. Mas D. Ramón estava ainda emocionado com o que recentemente lhe acontecera e ele achava ser a sua mais grata recordação: «Quando me despedi dos meus alunos da universidade de Santiago de Compostela verifiquei que era amado pela juventude. A nós, os velhos, o que mais nos conserva é a simpatia dos mais novos. Sobretudo quando nos metemos com as nossas lembranças e ouvimos a morte aproximar-se de mansinho, girar em torno de nós a murmurar que faz apenas aquilo que lhe mandam… Bem, agora nem passo pelos cemitérios!»
Muitos anos depois estive em Trasalba, conheci o seu paço e a sua biblioteca, algumas lembranças suas que ali estão. Percorrendo aquelas lombadas, reencontrei-me melhor com a obra de D. Ramón Otero Pedrayo. É só saber olhar…

Publicado no jornal A Nosa Terra, Vigo, 2005.

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