Sunday, March 19, 2006

Curros traduz Zara de Antero
No estudo das relações culturais entre a Galiza e Portugal há ainda muitas lacunas a preencher. Apesar de algumas boas vontades, apesar de algumas teses, somam-se os caminhos a percorrer. Gostaria, por exemplo, de lhes chamar a atenção para o excelente ensaio de Pilar Vazquez Cuesta, publicado na revista Grial nº 46, de Outubro-Dezembro de 1974. Intitula-se Curros, os escritores portugueses e o Ultimatum. Pois neste importante estudo há um anexo com textos de Curros publicados no El País nos anos de 1890 e 1891, sobre figuras republicanas portuguesas – Magalhães Lima, Guerra Junqueiro, Antero de Quental, Eça de Queirós, Teófilo Braga, Xavier de Carvalho, Camilo Castelo Branco, Oliveira Martins, António Feijó, Luís de Magalhães, Manuel Duarte de Almeida e Alves da veiga. Já é interessante o facto de todos eles serem maçons, tal como Curros. Mas vejamos Antero. Num telegrama do discreto poeta e memorialista português Luís de Magalhães ao director daquele jornal madrileno , onde o poeta galego trabalhava, este toma conhecimento que Antero acabava de ser eleito presidente da Liga Patriótica do Norte. E escreve: «O homem a quem a republicana cidade do Porto[1] acaba de conceder nestes momentos de profunda crise para Portugal a honra de dirigir as correntes do sentimento popular, é seguramente um desconhecido para a maioria dos nossos leitores. Não há que estranhá-lo.(…) E, no entanto, Antero de Quental escreveu muito e pensou mais. Dificilmente existirá problema social, moral e metafísico a que não tenha consagrado longas horas de meditação e estudo, que não tenha destruído uma ilusão na sua alma e não tenha deixado um sulco na sua nobre testa.» Nestes termos apresentava o grande poeta, que pouco tempo antes estivera num colóquio no Ateneu de Madrid, foco cultural e socialista da capital do Estado Espanhol.
Pois, dando uma volta pela livralhada, que me enche as estantes e o coração, dei com um livro de Antero, Zara de seu título. Encontrei a 2ª edição, de 1925, mas devo ter a 1ª, de 1894, algures. Trata-se de um poema em duas quadras. Zara era a irmã querida do poeta e erudito Joaquim de Araújo que, amigo de Antero, lhe pedira um poema à sua memória, no que foi correspondido. O ano passado morreu o o último boémio portuense, Basílio de Sousa Dias, sobrinho-neto de Araújo, cuja mãe já conheci com muita idade e se chamava Zara, em homenagem à tia, que falecera na adolescência. Pois este poema de Antero está na tumba dessa menina, no cemitério do Prado do Repouso, no Porto. Um dia destes irei lá tentar localizar a lápide com os versos.
Ora esse livro de Antero é uma obra poliglota e saiu três anos após a morte do seu autor, decerto dos primeiros a corresponder à solicitação de Araújo, que o afanosamente o organizou. Ora, através dele, podemos avaliar o sentido de Curros como tradutor de português, cujo original é: «Feliz de quem passou, por entre a mágoa/ E as paixões da existência tumultuosa,/ Inconsciente como passa a rosa,/ E leve como a sombra sobre a água.// Era-te a vida um sonho: indefinido/ E ténue, mas suave e transparente,/ Acordaste… sorriste… e vagamente/ Continuaste o sonho interrompido.» Datado de 26 de Janeiro de 1880, o poema demorou mais de uma dúzia de anos a ser traduzido em quase meia centena de idiomas - incluindo o galego, o asturiano, o euskera, o catalão, o maiorquino, o calabrês, o romanhol, o valão, o árabe, o mirandês, o russo, o daco-cigano e o hebraico, para não dizer mais!
Eis o texto galego de Curros do poema português de Antero:

Ditoso quen pasou por entr’a magoa
I-as pasions d’a existenza tormentosa,
Deporcatado, como pasa a rosa
E leve como a sombra sobr’agoa.

Era tua vida un sono indefinido
E tenue, pero doce e transparente,
Acordache… sorriche… e vagamente
O sono continuache interrumpido.

[1] E Curros mal imaginava que a 31 de Janeiro do ano seguinte se daria efectivamente no Porto a primeira revolta republicana portuguesa. Aliás, também foi pelo círculo do Porto eleito o primeiro deputado republicano no parlamento monárquico. Tratava-se de Rodrigues de Freitas, economista e jornalista, cuja tumba esta praticamente abandonada no cemitério do Prado do Repouso, no Porto. Esquecimentos da República…
publicado no jornal A Nosa Terra, Vigo, 2005.

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