Sunday, March 19, 2006

Luís Padrón, meu guia ourensano
Há quantos anos não nos vemos! Devo a Luís Padrón, lá pela primeira metade dos anos 70 o conhecer os descaminhos que vão de Ourense a Ribadavia. E digo descaminhos e não caminhos porque, na realidade, eram mesmos descaminhos. Assim, conheci a alma galega ourensana antes mesmo de aprofundar qualquer leitura sistemática deste ou daquele escritor, não importa qual. Com o Luís Padrón, que guiava o automóvel mais pequeno que eu vira na vida até aí, conheci os sólidos e os líquidos de uma Galiza profunda e umas quantas figuras singularíssimas. Até da pequena política local. Como daquela noite em que me foi mostrar a igreja do Carballiño, o meu primeiro encontro com a arquitectura de Palácios. Às tantas, lembrou-se que era amigo do alcalde e devíamos ir beber uns copos e comer peixe do rio a determinada taberna. Ora o alcalde, naquela época, tinha sido pai há pouco tempo e a família não gostava que ele saísse à noite. Mas nessa noite saiu.
Padrón, com o ar mais formal do mundo, telefonou-lhe para casa com o recado, creio que foi a sogra a atender, de uma reunião extraordinária no axuntamento, em que se requeria a sua presença tutelar. Boa desculpa! E de casa lá o viram sair directamente para o axuntamento, que ficava do outro lado da praça. Só não o viram sair logo pelas traseiras e entrar no automóvel de Padrón onde, apesar da exiguidade, cabia sempre mais um! E lá fomos. Creio que para Barbantes, onde o tinto era de excepção.
À meia-noite, a empregada que nos atendia não teve dúvidas em comunicar que por ordem do alcalde a taberna teria de encerrar àquela hora, pelo que nos deveríamos retirar. Ora o alcalde resolveu a questão, pois foi numa folha do meu bloco-notas que redigiu ali mesmo um bando especial em que a tal taberna só fecharia à hora em que o nós os três nos retirássemos, mesmo depois da meia-noite...
Seria uma e tal da manhã – já estão a ver que a reunião no axuntamento de Carballiño se prolongou bastante! – bateram à porta. Eram dois guardas civis dispostos a multar a taberna, com licença do senhor alcalde. Este mostrou um rosto comicamente severo por eles desconhecerem o bando especial, que suspendia temporária e localmente o figurava no jornal oficial, e que estava bem á vista, preso debaixo de uma jarra de flores!
Os guardas civis pediram desculpa e tentaram bater em retirada quando o alcalde disse que tal desconhecimento era grave e merecia punição, pelo que os mandou sentar a uma mesa e servir-lhes uma garrafa de vinho e empanada, decisão que eles acataram com ar bastante sério, para não dizer cerimonioso.
Ora, cada vez que este cronista se apresentava em Ourense era acelerada a confecção da edição de La Región, a cargo do Luís Padrón, era acelerada. Que a versão antiga do Bar Orellas estava sempre à nossa espera, com Ribeiro e orelhas de porco e pão, que era um louvar aos deuses Baco e Bácoro! Íamos também ao Ó Vólter, onde o Tucho tinha sempre umas grandes conversas connosco e regia o seu bar como se fosse uma universidade popular em que ele era titular de todas as cadeiras do saber!
Recordo-me que, na altura, havia no Porto uma espécie de moda brincalhona em que se tratava toda a gente por arquitecto! E eu levei aquilo comigo uma vez que fui a Ourense. Pois entrámos, Padrón e eu no Vólter e reparamos que junto do balcão estava o chaval empregado de Tucho e um bando de rapazes da idade dele. E eu saudei, sem pensar no que dizia:
- Adeus, arquitecto!
Admiração de todos os rapazes. Porém, um dos do grupo avançou até a mim e perguntou-me, muito desconfiado:
- É então verdade o que nos disse o Suso? Que em Portugal os chavales dos bares são todos tratados de arquitectos?
Quem iria desembrulhar aquele equívoco que deixava tão importante o chaval do Ó Vólter? Pois eu não. Nem o Padrón! E como nos rimos mais tarde com o velho Tucho, tendo como cenário a alegoria à Porta de Palha do velho Risco!
publicado em A Nosa Terra, Vigo, 2005.

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