Friday, March 31, 2006


Memória do 5 de Outubro

A 5 de Outubro de 1910 foi implantada a República em Portugal. As características desta revolta eram marcadamente de movimento popular, pois os civis, ao aperceberam-se da opção republicana da Marinha e de parte do Exército, prontamente se lançaram à rua dando corpo à ideia das vantagens sociais e políticas para que em Portugal acabasse com a Monarquia. Apercebendo-se da irreversibilidade do movimento revolucionário, o próprio rei D.Manuel II, bem como os seus mais próximos colaboradores, logo abandonaram o país. Aliás, para eles não era nova a acentuada tendência republicana da população esclarecida. E a onda popular era tanto mais acentuada se soubermos que o posto mais alto das forças armadas que alteraram efectivamente o poder político entre nós era o de capitão. Advogados, engenheiros, estudantes, escritores, jornalistas, artistas tinham sido aqueles que haviam preparado, pela propaganda vigorosa esta mudança de regime. E nós, portuenses, não nos podemos esquecer que foi Rodrigues de Freitas, jornalista e economista, nascido e a viver no Porto, o primeiro deputado republicano a sentar-se no parlamento português.
É curioso que um dos primeiros historiadores a reconhecer o carácter popular legitimador da revolução republicana de 5 de Outubro, foi precisamente o escritor monárquico Joaquim Leitão. Ele escreveu, ainda no calor dos acontecimentos: «Enquanto os regimentos fiéis e as autoridades constituídas perdiam o contacto com o inimigo, a revolução tinha uma legião de correios e vedetas ao seu serviço. Sem contar com os filiados da Carbonária dentro dos Correios, Telefones, Telégrafos e Caminhos de Ferro, policiavam as ruas, ao serviço da sedição automóveis, trens, bicicletas, que o encurralamento da polícia civil trancada naas esquadras, deixava circular livremente pelas ruas, espiando os movimentos das tropas fiéis para darem aviso aos revolucionários. A população de Lisboa auxiliava voluntariamente a revolução!» Não havia armas para armar todos os civis republicanos que queriam combater pelo seu ideal. E a verdade é que mesmo os generais que, dias antes, haviam jurado perante o rei que defenderiam a Coroa, desse lá por onde desse, aos primeiros tiros, encolheram os ombros e não resistiram. Até eles sabiam que a Monarquia não tinha capacidade para fazer evoluir Portugal nos caminhos da Liberdade, da Fraternidade e da Igualdade, considerando a justiça social como um objectivo político de importância nacional. Não demoraram trinta horas seguidas de combate para que a República ganhasse corpo na Terra Portuguesa, sendo hoje das mais antigas repúblicas da Europa.
Na terra de Rodrigues de Freitas, onde em cada ano se comemora a frustrada revolução republicana de 31 de Janeiro, a implantação da República tem um sabor histórico fundamental. É que, também deveremos lembrar – e comemorar – também foi no Porto que rebentou a primeira revolução contra a Ditadura saída do 28 de maio de 1926, precisamente a 3 de Fevereiro de 1927! E é sobre estas lutas pela Democracia em Portugal que deveremos hoje reflectir.

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