Sunday, March 19, 2006

O primeiro filme português de ficção
O protagonista do primeiro filme português de ficção chamava-se Diogo Alves e terá nascido em 1810 na paróquia de Santa Gertrudes, no bispado de Lugo. Conto que o meu querido amigo Dario Xhoan Cabana se dê ao trabalho de, quando lhe sobrar tempo, tirar esta naturalidade a limpo. O pai era Anselmo Alves e a mãe Rosa Alves. Leite Bastos (1841-1886) escreveu um romance de aventuras intitulado Crimes de Diogo Alves (ed. 1877), integrado na colecção Flores Românticas! Pai da literatura de género em Portugal, Leite Bastos assentou a sua obra no próprio processo de Diogo Alves e na imprensa da época. Esta, em 1836, começou a registar o aparecimento de cadáveres sob as arcadas do aqueduto das Águas Livres, ainda hoje em pé, nas imediações da Ponte 25 de Abril. Em Lisboa, naturalmente. Vejamos esta figura de galego que não se contentou com o futuro de infeliz migrador, traçados pelos seus pais. Mas, antes do mais, uma nota sobre o aqueduto.
A falta de água sempre foi um drama em Lisboa. Agravou-se no séc. XV, pelo que as pessoas tinham de fazer grandes filas de espera junto dos poucos poços e chafarizes da capital. Isto levava a cenas de pancadaria, por vezes até à morte! Dizia-se «que se ia por água e se regressava com sangue»! E a verdade é que o problema da água em Lisboa só poderia ser resolvido com um aqueduto, o qual acabaria por ser construído no reinado D. João V, porém a expensas do próprio povo de Lisboa. Assim, no Arco das Amoreiras foi posta uma inscrição que dizia: "No ano de 1748, reinando o piedoso, feliz e magnânimo Rei João V, o Senado e povo de Lisboa, à custa do mesmo povo e com grande satisfação dele, introduziu na cidade as Águas Livres desejadas por espaço de dois séculos, e isto por meio de aturado trabalho de vinte anos a arrasar e perfurar outeiros na extensão de nove mil passos." Porém, no reinado seguinte, o de D. José I, o primeiro-ministro Marquês de Pombal mandou substituir essa inscrição por esta: "Regulando D. João V, o melhor dos reis, o bem público de Portugal, foram introduzidas na cidade, por aquedutos solidíssimos que hão-de durar eternamente, e que formam um giro de nove mil passos, águas salubérrimas, fazendo-se esta obra com tolerável despesa pública e sincero aplauso de todos." Assim, não se sabia que, efectivamente, fora o povo a pagar! Logo em 1748 as águas já corriam no novo aqueduto, mas só em 1799, 67 anos depois do início da construção, é que a obra se concluiria.
Foi nesta altura que surgiram os famosos aguadeiros, na sua maioria galegos, que transportavam pelas ruas de Lisboa barris de água que vendiam pelas casas. Abasteciam-se nos chafarizes e depois lançavam os seus pregões: "Há água fresquinha! Quem quer, quem quer?"
Ora, conta Leite Bastos, quando o Diogo Alves «esteve em estado de pegar num barril, foi mandado para Lisboa com outros vizinhos. Na véspera confessou-se e despediu-se dos parentes». A mãe disse-lhe:«Vai-te, filho, e pega-te a Nossa Senhora!» E as noticias que chegavam a Santa Gertrudes lá do galeguinho em Lisboa eram as melhores, que trabalhou sempre nas melhores casas fidalgas da capital. Até que nunca mais escreveu a dar noticias. Estava já com as piores companhias e era amante da Parreirinha, uma taberneira facinorosa, que o precipitou no crime. E, um triste dia, Diogo Alves arranjou uma chave do aqueduto e passou a fazer dele o seu campo de caça aos desgraçados que andavam com dinheiro próprio e alheio. Gente assaltada, voava lado alto ao empedrado do caminho. Os jornais diziam que era uma corrente de suicídios. Mas tudo acabou por descobrir-se, entre denúncias e investigações. E Diogo Alves e os seus cúmplices foram condenados. Ele à forca e os outros ao degredo.
Curiosamente, as tristes aventuras de Diogo Alves constituiram o primeiro filme de ficção português, em 1907, realizado por Lino Ferreira, que fixou incompleto… porque os actores embarcaram quase todos para o Brasil quando menos se contava! Voltaria o filme a ser realizado, desta vez por João Tavares, em 1911. Ainda há cópias na Cinemateca Nacional.
Um dia voltaremos a isto.
crónica publicada em A Nosa Terra, Vigo, 2005.

0 Comments:

Post a Comment

<< Home