Sunday, March 19, 2006

Parnaso luso-galego-brasileiro
Aqui há uns anos, consultando o espólio de Teófilo Braga, na biblioteca municipal de Ponta Delgada, nos Açores, chamou-me a atenção o relacionamento que ele tinha com alguns escritores galegos. Recordo-me de Emília Pardo Bazán, com quem não se conseguia encontrar em Lisboa, pois quando ele a procurava ela não estava no hotel, em que se hospedava, e vive-versa, para desencanto de ambos. Havia uma série de bilhetinhos de D. Emília para Teófilo que o atestavam, assim como alguma correspondência com Filomena Dato e um cartão de visita de Pondal, extremamente formal. Não me recordo de mais nada relevante, ainda que me pareça que Teófilo Braga, que foi o primeiro presidente da República Portuguesa, se tivesse carteado com Curros, embora não tenha encontrado nada que o prove. Que de Curros com portugueses, até agora, encontrei uma carta para o poeta simbolista Eugénio de Castro e uma vintena para Luís de Magalhães, um compagnon de route da geração portuguesa de 70. Ora esta nota de hoje servirá para lhes dar notícia de uma curiosa presença de escritores galegos num livro de Teófilo Braga.
Trata-se do Parnaso Português Moderno, antologia organizada e amplamente prefaciada por Teófilo Braga, publicada em 1877. Os poetas portugueses incluídos são Garrett, Castilho, Herculano, João de Lemos (com o seu inevitável A Lua de Londres), Gomes Leal, Soares de Passos, Júlio Dinis, Bulhão Pato (um caso singularíssimo de poeta cuja fama de um prato de ameijoas, por ele concebido, suplantou o da sua obra poética e memorialística!), João de Deus, Antero, Junqueiro (curiosamente com um poema dedicado a uma locomotiva!), João Penha e mais uns quantos poetas geralmente tidos como menores. Juntou-lhes o antologiador uma mão-cheia de brasileiros, em que se destacam Gonçalves Dias, Casimiro de Abreu, Fagundes Varela, Castro Alves, Bernardo Guimarães e Machado de Assis (estes dois prosadores, isso sim, de mão inteira), bem como Gonçalves Crespo, poeta português nascido no Brasil e reivindicado pela Literatura portuguesa. Uma terceira parte completa o volume, Os Líricos Galegos. E quem são estes?
Pois, Rosalia de Castro, aliás Rosalia de Castro de Murguia,com quatro poemas – Airiños, airiños, airiños, seguido de Cantar Gallego, Cantam os galos pró dia e Un repoludo gaiteiro. De recordar que Rosalia ainda era viva neste ano em que se publicou o Parnaso. Segue-se o ferrolano Alberto Camino (1820-1861), salvo do esquecimento pela tese de doutoramento de Dobarro Paz. Além de um outro, esse esquecido, Ruiz Aguilera, mais cinco poemas de Valentin Lamas Carvajal. E, assim como Teófilo juntou à secção brasileira quase uma dezena de cantos populares, também deu uma razoável amostra de textos folclóricos galegos. Desta retiro duas quadras, publicando-as com a ortografia que apresentam:

Miña nai doume unha tunda
Co aro d’unha peneira,
Miña nai tende vergonza
Da gente que vem da feira.

En bem vin estar ó crego
Tendendo nos cuiriños;
Dixeu entre Dios e min:
Este crego tem miñinos.

Bem, e vou fazendo as contas de há quanto tempo não se reúne assim uma comunidade literária, seja um Parnaso com poetas da velha Galécia e dos seus mais directos herdeiros, os brasileiros!

publicado no jornal A Nosa Terra, Vigo.

0 Comments:

Post a Comment

<< Home