<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-24358457</id><updated>2011-04-21T14:42:26.219-07:00</updated><title type='text'>José Viale Moutinho</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://viale.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/24358457/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://viale.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Viale Moutinho</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>18</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-24358457.post-114452627671528774</id><published>2006-04-08T12:48:00.000-07:00</published><updated>2006-04-08T12:57:56.733-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:arial;font-size:130%;"&gt;novo livro QUINTETO CAMILIANO&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:Arial;font-size:130%;"&gt;de José Viale Moutinho&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:Arial;font-size:130%;"&gt;Colecção Boémia do Espírito, 1&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:Arial;font-size:130%;"&gt;Ed. Arca das Letras, Porto, 2006.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:Arial;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;font-size:130%;"&gt;Conforme o título indica, este volume inclui cinco textos camilianos: 1º sobre o romance &lt;em&gt;A Infanta Capelista&lt;/em&gt;, que Camilo mandou destruir antes de o publicar e os raros exemplares existentes constituem as maiores raridades da bibliografia camiliana; 2º uma ronda sobre a literatura macabra nos contos de Camilo; 3º sobre o &lt;em&gt;Curso de Literatura Portuguesa&lt;/em&gt;, livro de Camilo apenas editado duas vezes; 4º notas sobre o panfleto &lt;em&gt;O Vinho do Porto&lt;/em&gt;, incluindo, em nota, a crónica em que Camilo defendia a construção da Linha do Caminho de Ferro do Douro, e uma pequena série de cartas inéditas de Camilo ao seu médico homeopata Monteiro da Silva, em finais de 1889. À venda a partir de 15 de Abril.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/24358457-114452627671528774?l=viale.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://viale.blogspot.com/feeds/114452627671528774/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=24358457&amp;postID=114452627671528774' title='7 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/24358457/posts/default/114452627671528774'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/24358457/posts/default/114452627671528774'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://viale.blogspot.com/2006/04/novo-livro-quinteto-camilianode-jos.html' title=''/><author><name>Viale Moutinho</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-24358457.post-114392292216368490</id><published>2006-04-01T12:20:00.000-08:00</published><updated>2006-04-01T12:22:02.180-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:180%;"&gt;&lt;a href="http://www.furabardos.org"&gt;www.furabardos.org&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:180%;"&gt;um blog a não perder&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:180%;"&gt;todos os meses&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/24358457-114392292216368490?l=viale.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://viale.blogspot.com/feeds/114392292216368490/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=24358457&amp;postID=114392292216368490' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/24358457/posts/default/114392292216368490'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/24358457/posts/default/114392292216368490'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://viale.blogspot.com/2006/04/www.html' title=''/><author><name>Viale Moutinho</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-24358457.post-114384057322515676</id><published>2006-03-31T13:28:00.000-08:00</published><updated>2006-03-31T13:29:33.243-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;strong&gt;Memória do 5 de Outubro&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;         A 5 de Outubro de 1910 foi implantada a República em Portugal. As características desta revolta eram marcadamente de movimento popular, pois os civis, ao aperceberam-se da opção republicana da Marinha e de parte do Exército, prontamente se lançaram à rua dando corpo à ideia das vantagens sociais e políticas para que em Portugal acabasse com a Monarquia. Apercebendo-se da irreversibilidade do movimento revolucionário, o próprio rei D.Manuel II, bem como os seus mais próximos colaboradores, logo abandonaram o país. Aliás, para eles não era nova a acentuada tendência republicana da população esclarecida. E a onda popular era tanto mais acentuada se soubermos que o posto mais alto das forças armadas que alteraram efectivamente o poder político entre nós era o de capitão. Advogados, engenheiros, estudantes, escritores, jornalistas, artistas tinham sido aqueles que haviam preparado, pela propaganda vigorosa esta mudança de regime. E nós, portuenses, não nos podemos esquecer que foi Rodrigues de Freitas, jornalista e economista, nascido e a viver no Porto, o primeiro deputado republicano a sentar-se no parlamento português.&lt;br /&gt;         É curioso que um dos primeiros historiadores a reconhecer o carácter popular legitimador da revolução republicana de 5 de Outubro, foi precisamente o escritor monárquico Joaquim Leitão. Ele escreveu, ainda no calor dos acontecimentos: «Enquanto os regimentos fiéis e as autoridades constituídas perdiam o contacto com o inimigo, a revolução tinha uma legião de correios e vedetas ao seu serviço. Sem contar com os filiados da Carbonária dentro dos Correios, Telefones, Telégrafos e Caminhos de Ferro, policiavam as ruas, ao serviço da sedição automóveis, trens, bicicletas, que o encurralamento da polícia civil trancada naas esquadras, deixava circular livremente pelas ruas, espiando os movimentos das tropas fiéis para darem aviso aos revolucionários. A população de Lisboa auxiliava voluntariamente a revolução!» Não havia armas para armar todos os civis republicanos que queriam combater pelo seu ideal. E a verdade é que mesmo os generais que, dias antes, haviam jurado perante o rei que defenderiam a Coroa, desse lá por onde desse, aos primeiros tiros, encolheram os ombros e não resistiram. Até eles sabiam que a Monarquia não tinha capacidade para fazer evoluir Portugal nos caminhos da Liberdade, da Fraternidade e da Igualdade, considerando a justiça social como um objectivo político de importância nacional. Não demoraram trinta horas seguidas de combate para que a República ganhasse corpo na Terra Portuguesa, sendo hoje das mais antigas repúblicas da Europa.&lt;br /&gt;         Na terra de Rodrigues de Freitas, onde em cada ano se comemora a frustrada revolução republicana de 31 de Janeiro, a implantação da República tem um sabor histórico fundamental. É que, também deveremos lembrar – e comemorar – também foi no Porto que rebentou a primeira revolução contra a Ditadura saída do 28 de maio de 1926, precisamente a 3 de Fevereiro de 1927! E é sobre estas lutas pela Democracia em Portugal que deveremos hoje reflectir.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/24358457-114384057322515676?l=viale.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://viale.blogspot.com/feeds/114384057322515676/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=24358457&amp;postID=114384057322515676' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/24358457/posts/default/114384057322515676'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/24358457/posts/default/114384057322515676'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://viale.blogspot.com/2006/03/memria-do-5-de-outubro-5-de-outubro-de.html' title=''/><author><name>Viale Moutinho</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-24358457.post-114384014857523805</id><published>2006-03-31T13:17:00.000-08:00</published><updated>2006-03-31T13:22:28.596-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;font-size:130%;"&gt;Espelho, espectro, estojo:&lt;br /&gt;sobre a possibilidade de uma anamnese comunitária&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Diana Pimentel&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Universidade da Madeira&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Pavana para Isabella de França&lt;/em&gt;, editado em 1992, é um livro de contos escrito sob os sinais do tempo, seus andamentos, espectros e cinzas. Trata-se de ficção com passado, não apenas no espaço da ficção que conta, mas sobretudo no círculo da história literária, que revisita e actualiza. Este é um conjunto que compreende uma novela histórica, "Pavana para Isabella de França", e cinco contos ("Lucas depois do credo", "Rua da Carreira, ocaso", "O último olhar pelos Vinháticos", "Póvoa" e "Caffe San Marco"), orquestrado a aparo de aço e de que permanecem sinais perenes, a tinta permanente.&lt;br /&gt;Na anamnese da ficção histórica do Romantismo português que neste livro opera, Viale Moutinho revê – em espelhos – e restitui – em espectros –, fragmentos da história cultural da Madeira (e da Póvoa ou de Trieste) dos séculos XIX e XX (hoje, aqui), inscrevendo na sua ficção a memória literária do mestre, sobretudo ao salvar da morte (da amnésia) os restos da História, as suas personagens. Como na novela histórica de Camilo, sobre a qual se esclarece que "o principal ingrediente (…) é a vida de personagens dominados pela fatalidade das circunstâncias"&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn1" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=24358457#_ftn1" name="_ftnref1"&gt;[1]&lt;/a&gt;, também nestas histórias comparecem personagens em paixão, em excessivo e continuado sofrimento.&lt;br /&gt;João Augusto, Adão, Lucas, Adélia, António, José e Giorgio parecem ser, não apenas personagens, mas sobretudo rostos devolvidos em ficções de intensa, contida e melódica linguagem. Estas figuras são-nos devolvidas como se das suas histórias de vida restasse um halo, uma aura, especialmente porque da narrativa emanam (sentem-se, vêem-se, ouvem-se) os restos das personagens: os cadernos, uma pavana, a cadeira, a mesa, os livros incendiados, um retrato nunca olhado, cinzas a sair do coração, pedras afogadas, uma antologia de bolso de poesia a um canto.&lt;br /&gt;Desta ficção pode dizer-se, como da de Camilo, que perdurará "não por virtudes próprias do género, mas pela magia da linguagem em que estão escrit[a]s, pelo poder estético que possuem ali onde se fundem os elementos fictivos com elementos históricos, caldeados nas vivas paixões humanas"&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn2" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=24358457#_ftn2" name="_ftnref2"&gt;[2]&lt;/a&gt;. Parece ser provável que a magia das narrativas camilianas proceda da fusão que os mecanismos ficcionais operam sobre um determinado real histórico. Nestas histórias de Viale Moutinho parece-me ser possível contemplar uma outra forma de magia, uma sobre-exposição ou aura que circunda visivelmente a sua ficção e que se pode observar observada. Tentarei ver como.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A novela histórica "Pavana para Isabella de França" começa sob o escopo do olhar e das operações intelectuais que o transportam à memória: "Seria, imagino, uma secretária de tábuas grossas onde, em desarrumo, havia cadernos, tiras de papel, um grande tinteiro, penas, lápis e tabaco, montes de cartas e de jornais." O narrador desenha assim (na memória e na ficção) o espaço visível onde, confinado, trabalha João Augusto de Ornelas, projecção memorial e biográfica do jornalista e escritor madeirense&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn3" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=24358457#_ftn3" name="_ftnref3"&gt;[3]&lt;/a&gt;. Para além das reais, João Augusto sentia "dores fantasmas" e o sofrimento de que padecia permitia-lhe (assim pensava) uma quase fraternidade com Camilo: "gostaria de o abraçar e chamar-lhe irmão, não necessariamente nas letras, no sofrimento seria bastante". Sob o olhar de Adão Aires, coleccionador do "testemunho do Funchal contemporâneo e dos escritos de João Augusto Ornelas", presentificamos aquele que sentia como o "seu escritor".&lt;br /&gt;De "costas corcovadas", Adão Aires parece ser, não apenas o narrador que nos conduz o olhar pela vida, pelos escritos e pelos escolhos de João Augusto Ornelas, mas sobretudo testemunho vivo da História, pois afirma: "a Madeira histórica acaba comigo", "vem do companheiro de Zarco e acaba em mim". Adão Aires é uma composição ficcional produzida a partir dos restos lendários ou historiográficos da ilha e assume ser resultado, ele próprio, do gesto de ficcionalização da História relativa aos primeiros naturais da Madeira&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn4" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=24358457#_ftn4" name="_ftnref4"&gt;[4]&lt;/a&gt;.&lt;br /&gt;Por isso, Adão Aires parece afigurar-se como um holograma da ficção histórica aqui presente, sobretudo porque esta personagem anacrónica (e, portanto, inverosímil) parece transportar consigo o halo de um programa ficcional, que exemplifica: a sua presença permite inscrever na narrativa (quase realista) desta novela histórica as margens do real lendário (quase ficcional) da ilha de outros ou de todos os tempos.&lt;br /&gt;            Holograma do real lendário, e "tendo diante de si a estampa do retrato de João Augusto Ornelas", Adão Aires especula sobre os modos e os medos ilhéus, observando como "todos trabalhavam na construção de imaginárias paredes, ante as quais a fuga parecia um acto atemorizador". Este processo de revisão e de quase sobre-exposição das figuras de Adão e de João Augusto é possível principalmente porque existem as imaginárias paredes nas quais se projectam as histórias e a memória da Madeira histórica.&lt;br /&gt;            Ricardo, "olhos cor de cinza", natural da ilha há muito ausentado, regressa ao Funchal e à rua em que morou João Augusto Ornelas e na qual permanece Adão Aires. Vem "procurar os lugares das fotografias", uma legenda interior para a memória figurada: "não era a infância que buscava, mas um pouco atrás e mais por dentro, quando ainda não falava e não sabia". Este parece ser o processo que conduz a História à ficção, pois Adão antevê que Ricardo o "viera substituir como último personagem". De facto, sobre as figuras deste e de João Augusto advém a de Ricardo, idealizado por Adão Aires "sentado à secretária de João Augusto Ornelas, olhando para o retrato de Camilo, ou Ricardo sentado à sua própria secretária olhando o retrato de João Augusto Ornelas e, um dia, o retrato do último descendente do primeiro homem nascido na Madeira, Adão Aires."&lt;br /&gt;Parece ser semelhante o efeito de percepção visual (uma alucinação?) que conduz o narrador a um movimento de apropriação da História (pela leitura dos seus documentos) que o faz figurar Ricardo, num desenho, à proa do navio Eclypse, acostado ao cais. A Ricardo (regresso improvável ao passado figurado como um eclipse) caberá a tarefa de, para memória futura, "escrever a história, emoldurar aguarelas sombrias". Ao fundo, inaudível, "bem nas profundas da cabeça do corcunda" cessa a pavana&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn5" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=24358457#_ftn5" name="_ftnref5"&gt;[5]&lt;/a&gt;.&lt;br /&gt;            Submerso na memória, Adão Aires pensa ver "intermináveis corredores, abertos nos rochedos, que emparedam as florestas queimadas, o casario em ruínas, os corpos mergulhados nos tanques de formol". São ruínas reveladas à luz da dança pelos abismos da memória as que Adão, como Isabella, vê: "Ao mesmo tempo a claridade crescente revelava as fendas profundas dos barrancos espalhados por toda a ilha." &lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn6" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=24358457#_ftn6" name="_ftnref6"&gt;[6]&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Lucas depois do credo" é uma história de medo e de segredo, desterro e morte. Nela se conta (se esconde) e se interroga "em que mistério se tortura um homem como eu [Lucas], mergulhado na memória de uns olhos de que se sumira o nome".&lt;br /&gt;A evocação figurada em imagens ruinosas, sem nome (ou legenda), está, como em "Pavana", também aqui presente. A viúva do médico do Porto morto em Vilarinho regressa ao lugar do fatal acontecimento: "viajara até ali para orar e fotografar o sítio em que o marido tombara". Proposição e imagem constituem o memento que recorda e grava a memória dos acontecimentos. Trata-se, com antes, de inscrever o corpo (ou o seu rasto) no espaço, a identidade no lugar: "Lucas o que deveria escrever na pedra, com as unhas, com um prego, com o seu sangue?"&lt;br /&gt;Em "Rua da Carreira, ocaso", Adélia, doente, faz-se fotografar, numa derradeira tentativa de provar os efeitos (imperceptíveis) dos bons ares da ilha. Figura quase transparente ("pálida"), Adélia não vê a fotografia que tirara para enviar numa "carta a acompanhar o retrato em que estiver mais bonita", "enviada pelo moroso correio, com atraso saberiam do que poderia acontecer de um momento para o outro". Trata-se de tentar diferir a morte (ou torná-la invisível aos olhos de Adélia, que não crê na sua proximidade), sobretudo porque as provas da "explosão de magnésio" não tocam as suas mãos, o seu olhar. Trata-se de um percurso inverso, aquele em que tarda a representação (a fotografia) face ao real, a morte. Terá sido enviada, a carta?&lt;br /&gt;Um outro enquadramento é o de "O último olhar pelos Vinháticos". Não se trata agora de uma fotografia, mas de um caixilho, a delimitação de um olhar que parte: António Jorge Pestana aproxima-se da janela, suspenso perante as "portas abertas, a paisagem dos montes e dos arvoredos mergulhados nas nuvens diante dos olhos". Parece ser possível que a percepção visual (e atmosférica) retenha a memória do lugar e se configure como um seu memento. António procura, ante a morte prometida que lhe aquietará o coração, "levar consigo a derradeira lembrança da terra, fosse quanto lhe cabia no olhar em agonias".&lt;br /&gt;António Jorge Pestana prepara-se, ausentado também de sua mulher. Comparece não Gertrude mas o seu fantasma, "sombra" e "imagem" que procura e não encontra na memória: "nem os olhos nem os lábios, silenciosa, oculta". Assim começa António a partir (e demora), os sentidos e as sensações alterados, a percepção confusa das palavras, do seu volume sonoro e táctil: "não conseguiu apanhar-lhe o sentido das palavras, sobrepôs-se o ruído e a deslocação do ar da porta a abrir-se".&lt;br /&gt;O sopro na morte toca-o ("ia desaparecendo a paisagem"), mas não o toma (ainda): ao tentarem baixar-lhe as pálpebras, "resistiu, embora não visse mais do que cinzas saindo-lhe do coração. Não se sentia cadáver". António vê-se a partir (como Adélia pressentiu mas não viu) e será esta, provavelmente, a possível permanência, a que resta do movimento de dissolução do corpo (cinzas) de que fica uma aura, a memória.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em "Póvoa" encontramos José da Mata, pescador primeiro e "mestre de terra" depois, investido na função durante as festas de Nossa Senhora do Mar Alto por seu tio Jerónimo Tato. José perdera um braço no mar e desejava que de si e da sua história fizessem notícia escrita. Neste conto documenta-se que um neto seu, Júlio da Mata, descobrira, na Gazeta da Praia, o relato em letra impressa do caso do decepado braço.&lt;br /&gt;No decurso das gerações a vila da Mata havia recuado perante o mar subido, os barcos transformados em "madeiros empilhados". Júlio regressa à vila submersa em dia raro (um em cada ano) de maré baixa e conta (a voz em primeira pessoa, porque testemunha de tão particular acontecimento) que os da Mata embarcaram pedras a bordo e, "um a um", "abraçados às pedras", se "lançaram no lugar da antiga vila" e se deixaram afogar.&lt;br /&gt;Não agora cinzas mas pedras, a antiga vila em ruínas contém, por fim, submersa e habitada, quem lhe pertence, a sua comunidade. Parece-me ser possível observar neste movimento de imersão uma reciprocidade e partilha indissolúveis entre o lugar, a vila, e os seus habitantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Caffe San Marco" é uma anamnese de outros lugares e das suas palavras, porque por este café em Trieste passam (e deixam vozes) Saba, Voghera, Svevo, Canetti, Joyce, Rilke, Dante e outras sombras exiladas.&lt;br /&gt;Este é um conto triestino, cujas personagens (tão reais quanto ficcionais) são autoras de si mesmas: Ernesto é o "rosto devolvido" de Umberto Saba&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn7" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=24358457#_ftn7" name="_ftnref7"&gt;[7]&lt;/a&gt;, Giorgio Voghera transporta a sombra certa da morte&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn8" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=24358457#_ftn8" name="_ftnref8"&gt;[8]&lt;/a&gt;, reflectida aqui nos "grandes espelhos" "possivelmente extintos" do Caffe San Marco. Svevo&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn9" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=24358457#_ftn9" name="_ftnref9"&gt;[9]&lt;/a&gt; é uma personagem literária de que permanecem restos das histórias a que (e pelas quais) nos conduz, até ficarem limpas, vazias, comuns, as mesas do Caffe San Marco.&lt;br /&gt;Esta é uma peregrinação (não, como em "Póvoa", a uma vila submersa, mas agora a uma comunidade de escrita) a uma mesa de café, num percurso pela cidade em que Rilke ouviu "o cantar dos anjos". Esta parece ser uma espécie de anábase pela qual o narrador, que tira "fotografias junto da cabeça de Joyce", sobe à rocha filmada "onde a lenda coloca Dante a meditar nos seus versos, durante o exílio".&lt;br /&gt;Não se trata, como nas histórias anteriores, apenas de imagens estáticas (fotografias), mas do movimento (aéreo, filmado) pelo qual estas personagens ascendem aos "grandes espelhos" do tempo e se tornam anjos (ou mensageiros) dos ínfimos átomos de memória que consigo a História transporta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Portanto, estas são, possivelmente, histórias que nos devolvem (no "grande espelho" da ficção) os espectros de figuras que sobre o nosso tempo deixam uma sombra, num movimento de reciprocidade que nos torna, a nós leitores, membros desta comunidade (histórica, literária ou real): olhamos, como João Augusto, Adão, Lucas, Adélia, António, José e Giorgio olharam, os cadernos, uma pavana, a cadeira, a mesa, os livros queimados, um retrato nunca visto, cinzas a sair do coração, pedras imersas, uma antologia de bolso de poesia a um canto.&lt;br /&gt;Neste livro encontro, não apenas despojos, mas sobre todas uma "promessa de partilha, a partilha de um universo em que haja uma comunidade entre o que olha e o que é olhado"&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn10" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=24358457#_ftn10" name="_ftnref10"&gt;[10]&lt;/a&gt;. E, porque um eclipse é apenas resultado da aparente desaparição de um astro pela interposição de outro entre si e um observador, por fim, entre as sombras, revela-se uma aura, a que estes seres e as suas coisas em si contêm, como um "círculo em que a coisa ou o ser se encontra estreitamente encerrado como num estojo"&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn11" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=24358457#_ftn11" name="_ftnref11"&gt;[11]&lt;/a&gt;.&lt;br /&gt;Neste estojo coube, e com ela estas histórias foram escritas, uma caneta de tinta permanente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Funchal, 2006.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn1" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=24358457#_ftnref1" name="_ftn1"&gt;[1]&lt;/a&gt; Castelo Branco Chaves, &lt;em&gt;O romance histórico no Romantismo Português&lt;/em&gt;, Lisboa, Instituto de Cultura Portuguesa, 1979, p. 51 (sublinhado meu).&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn2" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=24358457#_ftnref2" name="_ftn2"&gt;[2]&lt;/a&gt; Castelo Branco Chaves, &lt;em&gt;O romance histórico no Romantismo Português&lt;/em&gt;, Lisboa, Instituto de Cultura Portuguesa, 1979, p. 55.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn3" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=24358457#_ftnref3" name="_ftn3"&gt;[3]&lt;/a&gt; Autor, por exemplo, de &lt;em&gt;A mão de sangue&lt;/em&gt; (1874), com "Impressões de leitura" de Camilo Castelo Branco, e de &lt;em&gt;O Enjeitado&lt;/em&gt; (1886), com uma carta-prefácio de Manuel Pinheiro Chagas, e redactor principal de &lt;em&gt;O Direito&lt;/em&gt; (a partir de 2 de Novembro de 1859).&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn4" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=24358457#_ftnref4" name="_ftn4"&gt;[4]&lt;/a&gt; Fernando Augusto da Silva e Carlos Azevedo de Menezes afirmam, na entrada relativa a Gonçalo Aires Ferreira do Elucidário Madeirense (edição em Cd-Rom, CHEA, Funchal, s.d.), que "(...) Gonçalo Aires Ferreira foi o mais distinto companheiro do primeiro descobridor. (...) Alguns linhagistas têm posto em relevo a circunstância de ser Gonçalo Aires o mais dedicado companheiro e o mais devotado amigo de João Gonçalves Zarco nos trabalhos da expedição e descoberta e também na primitiva colonização da capitania do Funchal. (…) Gonçalo Aires era filho de Gomes Ferreira e de Isabel Pereira de Lacerda. Veio casado para esta ilha no princípio da colonização e do seu consórcio houve dois filhos gémeos, que foram os primeiros indivíduos que nasceram na Madeira, os quais tiveram por isso os nomes de Adão e Eva." (Sublinhado meu).&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn5" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=24358457#_ftnref5" name="_ftn5"&gt;[5]&lt;/a&gt; A peça para piano &lt;em&gt;Pavane pour une infante defunte&lt;/em&gt; (1899) foi tocada pela primeira vez em 1902 pelo intérprete catalão Ricardo Viñes, aluno e amigo de Ravel. Sobre Pavana, afirmou Ravel: "Ne pas attacher à ce titre plus d'importance qu'il n'en a. Éviter de dramatiser. Ce n'est pas la déploration funèbre d'une infante qui vient de mourir mais bien l'évocation d'une pavane qu'aurait pu danser telle petite princesse, jadis, à la cour d'Espagne." (em Marcel Marnat, &lt;em&gt;Maurice Ravel&lt;/em&gt;. Paris, Fayard, 1986, p. 96-97).&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn6" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=24358457#_ftnref6" name="_ftn6"&gt;[6]&lt;/a&gt; &lt;em&gt;Isabella de França, Jornal de uma visita à Madeira e a Portugal (1853-1854),&lt;/em&gt; tradução de Cabral do Nascimento, introdução de Cabral do Nascimento e Santos Simões, Funchal, Junta Geral do Distrito Autónomo [1970]; Sublinhado meu.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn7" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=24358457#_ftnref7" name="_ftn7"&gt;[7]&lt;/a&gt; &lt;em&gt;Ernesto&lt;/em&gt; é um romance quase autobiográfico deste autor, escrito em 1953 e publicado postumamente, em 1975.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn8" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=24358457#_ftnref8" name="_ftn8"&gt;[8]&lt;/a&gt; &lt;em&gt;Nostra Signora Morte,&lt;/em&gt; de 1983.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn9" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=24358457#_ftnref9" name="_ftn9"&gt;[9]&lt;/a&gt; Pseudónimo de Aron Hector Schmitz, escritor triestino, também conhecido por Ettore Schmitz.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn10" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=24358457#_ftnref10" name="_ftn10"&gt;[10]&lt;/a&gt; Maria João Cantinho, &lt;em&gt;Ensaio sobre o conceito de alegoria na obra de Walter Benjamin&lt;/em&gt;, Coimbra, Angelus Novus, 2002, p. 119.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn11" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=24358457#_ftnref11" name="_ftn11"&gt;[11]&lt;/a&gt; Walter Benjamin, &lt;em&gt;Sur le Haschich, tradução de Maria João Cantinho, apud Ensaio sobre o conceito de alegoria na obra de Walter Benjamin&lt;/em&gt;, Coimbra, Angelus Novus, 2002, p. 119.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/24358457-114384014857523805?l=viale.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://viale.blogspot.com/feeds/114384014857523805/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=24358457&amp;postID=114384014857523805' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/24358457/posts/default/114384014857523805'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/24358457/posts/default/114384014857523805'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://viale.blogspot.com/2006/03/espelho-espectro-estojo-sobre.html' title=''/><author><name>Viale Moutinho</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-24358457.post-114383968990390310</id><published>2006-03-31T13:04:00.000-08:00</published><updated>2006-03-31T13:14:49.923-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;font-size:130%;"&gt;&lt;strong&gt;Chaves para uma porta luminosa&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;- prefácio para a edição italiana do livro «O medo não podia ter tudo»&lt;br /&gt;de Francisco Duarte Mangas e Augusto Baptista&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;José Viale Moutinho&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                       Poesia:&lt;br /&gt;                       perdoa-me por te ter ajudado a compreender&lt;br /&gt;                       que não és apenas feita de palavras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                       Roque Dalton, &lt;em&gt;El Salvador&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conheço muito bem os dois escritores destas quatro histórias. São meus amigos e tão amigos entre si que não me admiraria se no livrinho não tivesse cada um deles assumido as próprias prosas. Porém, a diversidade das experiências decerto determinou o critério de menção mais precisa no respeitante a autorias. Em Francisco Duarte Mangas emerge o adolescente que foi numa aldeia rural da nortenha província portuguesa do Minho, no antes e depois da Revolução dos Cravos, e em Augusto Baptista as circunstâncias de um ex-forçado combatente na Guerra Colonial, primeiro como instruendo, ainda no refeitório do majestoso e militarizado convento de Mafra, onde se cozinha o oficialato miliciano, e, depois, já algures no mato angolano, mas depois de em Portugal ter sido derrubado o fascismo pela aliança do Movimento das Forças Armadas e da emergente vontade popular. Ambos jornalistas, o Francisco Duarte Mangas redactor e o Augusto Baptista repórter-fotográfico, aquele, que iniciou o seu percurso literário com livros de poemas, não tardou a tornar-se num  dos raros bons exemplos de romancistas finisseculares, enquanto Augusto Baptista, para além de um invulgar observador da realidade mais ingente, através das suas lentes, tem preocupações tão diversas que vão do cartoon ao ensaio sobre teatro popular, passando por um sem número de pequenas histórias de mais ou menos nonsense.  Assim, este livro é, antes do mais, uma saudável homenagem à Revolução que, a 25 de Abril de 1974, derrubou a ditadura salazarista-caetanista em Portugal, pondo cobro a 48 anos de dolorosa opressão. E essa homenagem salda-se na afirmativa que é titulo da primeira história e expressão oportuna no comentário do narrador da terceira: o medo não podia ter tudo.&lt;br /&gt;Diria eu que se trata aqui de um livro programático, ilustrativo de uma Revolução capaz de reinventar a Democracia no espaço português, conduzindo, naturalmente, ao fim das instituições fascistas, da Guerra Colonial, e a uma nova Constituição. Esta, recorde-se, ou saiba-se, nos seus dois artigos iniciais, desde a aprovação, em 1976, e até à revisão de 1987, declarava Portugal como «uma República soberana, baseada na dignidade da pessoa humana e na vontade popular e empenhada na sua transformação numa sociedade sem classes»&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn1" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=24358457#_ftn1" name="_ftnref1"&gt;[1]&lt;/a&gt;, já no artigo seguinte, decerto o mais polémico, originalmente estava escrito e aprovado  originalmente: «A República Portuguesa é um Estado democrático , baseado na soberania popular, no respeito e  na garantia dos direitos e liberdades fundamentais no pluralismo de expressão e organização política democráticas, que tem por objectivo assegurar a transição para o socialismo mediante a criação  de condições para o socialismo mediante a criação de condições para o exercício democrático do poder pelas classes trabalhadoras». No entanto, a redacção deste artigo não durou mais de seis anos&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn2" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=24358457#_ftn2" name="_ftnref2"&gt;[2]&lt;/a&gt; Sucessivas revisões por assembleias da República, de maioria liberal e neo-liberal, tornaram-na praticamente light.&lt;br /&gt;            Um par de vozes insubmissas as dos autores deste livro, vozes carregadas de futuro, vozes indagadoras, com registos poéticos muito próprios, mas com referências que fui encarregado de descodificar. E, antes do mais, o enquadramento geral. Seja, responder ao mais distraído dos leitores sobre o que foi aquilo que em Portugal se chama apenas 25 de Abril.&lt;br /&gt;            Na madrugada do dia 25 de Abril de 1974, o Movimento das Forças Armadas toma o poder em Portugal, precipitando a queda do regime saído de um golpe também militar registado a 28 de Maio de 1926, na sequência do qual seria alcandorado a presidir ao Conselho de Ministros, com prerrogativas ditatoriais, um jovem professor da Universidade de Coimbra, António de Oliveira Salazar, que montou todo o aparelho daquilo que chamou Estado Novo. Bastará termos visto uma fotografia sua no seu gabinete de trabalho, e fixado o olhar no único retrato que ele, nos início dos anos 30, tinha na sua secretária, em lugar de destaque. Nem mais nem menos do que Benito Mussolini, o que revelava suficientemente a sua opção de governo. Aliás, isto é corroborado com a criação de instituições como a Mocidade Portuguesa e a Legião Portuguesa, de recorte nazi-fascista. Para além das diversas forças policiais, a urbana Policia de Segurança Pública, a rural Guarda Nacional Republicana, a de investigação criminal, a Polícia Judiciária, logo surgiu a Policia de Vigilância e Defesa do Estado, de cariz político, para a defesa da Ditadura, e ainda a Policia Internacional, reservada ao controlo de fronteiras. Pouco antes do final da II Guerra Mundial, estas duas policias fundiram-se numa só corporação, a tenebrosa PIDE (Policia Internacional e para a Defesa do Estado) que, ao iniciar-se o consulado de Marcelo Caetano, em 1968, mudou a designação para Direcção Geral de Segurança. Igualmente mudou de nome a Comissão de Censura, destinada à Comunicação Social e aos Espectáculos, aparecendo então a Comissão de Exame Prévio…&lt;br /&gt;            Repressão a todos os níveis, partido único, a União Nacional de Salazar transformada, em 1968, em Acção Nacional Popular com Marcelo Caetano, se não contarmos com a grande força de oposição clandestina, o Partido Comunista Português. Em 1961, no Norte de Angola, as forças de libertação colonial iniciam os seus ataques, somando-se rapidamente situações de guerra na Guiné e em Moçambique. A juventude portuguesa é enviada para as colónias e a guerra de guerrilha leva o pânico às famílias portuguesas. A emigração e o exílio acentuam-se, desertifica-se o país num atraso marcado pela palavra de ordem salazarista: «orgulhosamente sós».&lt;br /&gt;            É nos quadros das Forças Armadas que se força um movimento clandestino, que ganha uma invulgar força inteligente e antifascista, com o objectivo inicial de acabar com a guerra, favorecendo a autodeterminação dos povos colonizados – a Guiné já declarar unilateralmente a independência – e o regresso do País Português à Democracia. E a 25 de Abril, quando o Movimento das Forças Armadas tem o seu programa de acção pronto e amadurecido o plano de ataque, o regime é deposto. As populações, convidadas a aguardar em casa o desfecho da alteração do regime, não obedece e invade as ruas, colocando-se ao lados dos militares progressistas. A Revolução ganha uma nova dimensão, a popular e começa então uma vaga de fundo que culmina com a Constituição de 1976, que apontava para o socialismo, para uma sociedade sem classes, como se disse. Bem, e nos parâmetros democráticos, a realidade portuguesa foi mudando, enveredando por caminhos dolorosos, perdendo-se a confiança e as possibilidades iniciais na tal sociedade sem classes, que tivera como mais altos picos os governos provisórios do general Vasco Gonçalves e da Eng.ª Maria de Lurdes Pintasilgo. A esses tempos foi dada a designação de PREC (Processo Revolucionário em Curso).&lt;br /&gt;               Com a contra-revolução do 25 de Novembro de 1975, Portugal não cessou de deslizar para o pântano conservador, enquanto adquiria os seus foros de legalidade democrática de algum modo autofágica. Mesmo o Partido Socialista, com os seus compromissos de barragem à construção de uma sociedade verdadeiramente socialista em Portugal, acabou por manifestar-se maioritariamente social-democrata, deixando sem margem de manobra nesta área o PPD, que se rebaptizaria posteriormente como Partido Social Democrata, mas não ultrapassando a  posição de centro-direita e, mesmo, de direita. Com os sinais da Revolução de Abril ficou o Partido Comunista Português, liderado por Álvaro Cunhal.&lt;br /&gt;            Bem, mas este prefácio não deve ultrapassar a categoria de uma bandeira agitada. Bandeira vermelha, naturalmente. E servir, como disse, de enquadramento a estas quatro belíssimas histórias. Ora, assim, guarde o leitor na sua memória algumas notas mais directamente ligadas às fábulas. No texto que dá o título ao livro, Francisco Duarte Mangas fala da visita de um ministro salazarista a uma aldeia rural. A inaugurar a Casa do Povo, uma instituição de recorte fascista. Ele dá-nos amostras de guerra colonial e de emigração clandestina, de dois homens, um ficcionado, o opositor desencantado, que afoga em vinho a sua revolta, e outro real, membro de uma força revolucionária armada. Há uma chamada ao próprio livro de leitura do Ensino Primário, onde figurava o retrato do último presidente da República antes do 25 de Abril, figura tão pouco considerada que todos o designavam por «cabeça de abóbora»! Mangas fala-nos do antes e do depois do histórias dá-nos como a notícia chegou à sua aldeia, aldeia que, pela menção da existência do pelourinho, vemos que já teve uma outra importância no passado remoto. O rapazinho é aluno da telescola e sente nas palavras da mãe que algo mudou radicalmente à sua volta, fazendo baixar para segundo plano o facto de ter pescado a sua primeira truta, ainda por cima do tamanho da palma da sua mão.&lt;br /&gt;            Já Augusto Baptista nos fala dos seus tempos de cadete em Mafra, onde o meteram para dele o regime fazer um oficial miliciano para a Guerra Colonial. O regime dizia que era uma mera acção de policiamento no Ultramar! E dá noticia da solidariedade humana através de um levantamento de rancho, em que alguns falham mas, num instante, todos regressam ao bom caminho da solidariedade! E a segunda das histórias deste escritor aponta para o pós-25 de Abril com a tropa portuguesa ainda em Angola, mas já em funções de paz, acudindo aos conflitos laborais, ao serviço ideal dos trabalhadores. Baptista tem o sentido do humor e do dramático, ele sabe escarvar nas feridas dos homens, nas chagas dos tempos.&lt;br /&gt;            Um livro dolorosamente apaixonante este pequeno volume que vos deixo. Mas para que não mudem de página com um travo amargo, deixem-me contar-lhes, mesmo em voz baixa, um episódio do tal «cabeça de abóbora». Pois um dia, levado a uma varanda sobre magnífica paisagem, teve esta reacção: «Perante uma vista assim, só posso dizer um adjectivo: gostei.» Por isso a Censura tinha uma determinação singularíssima, a de não se poder transcrever declarações do Senhor Presidente em discurso directo…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            Porto, 24 de Março de 2006.&lt;br /&gt;            &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn1" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=24358457#_ftnref1" name="_ftn1"&gt;[1]&lt;/a&gt; Desde 1997, a redacção deste Artº 1º é: «Portugal é uma República soberana, baseada na dignidade da pessoa humana e na vontade popular  e empenhada na construção de uma sociedade livre, justa e solidária.»&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn2" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=24358457#_ftnref2" name="_ftn2"&gt;[2]&lt;/a&gt; Na revisão de 1989, este Artº 2º passa a ter uma redacção mais suave, despojada da linha marxista inicial, de que transcrevemos apenas a parte alterada: «… democráticas e no respeito e na garantia de efectivação dos direitos e liberdades fundamentais, que tem por objectivo  a realização da democracia económica, social e cultural e o aprofundamento da democracia participativa». No entanto, este artigo volta a ser retocado na revisão de 1997, de que damos notícia: «… popular, no pluralismo de expressão e organização política democráticas e no respeito e na garantia  de efectivação dos direitos e liberdades fundamentais, que tem por objectivo assegurar a realização da democracia económica, social e cultural e o aprofundamento da democracia participativa.» O socialismo foi definitivamente apagado…&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/24358457-114383968990390310?l=viale.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://viale.blogspot.com/feeds/114383968990390310/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=24358457&amp;postID=114383968990390310' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/24358457/posts/default/114383968990390310'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/24358457/posts/default/114383968990390310'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://viale.blogspot.com/2006/03/chaves-para-uma-porta-luminosa-prefcio.html' title=''/><author><name>Viale Moutinho</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-24358457.post-114379580201835894</id><published>2006-03-31T00:55:00.000-08:00</published><updated>2006-03-31T01:03:22.040-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;FRAGMENTOS DA CRITICA SOBRE LIVROS MEUS (1)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Sobre &lt;em&gt;&lt;strong&gt;Natureza morta iluminada&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Imaginação, habilidade expositiva, caracterização rápida de ambientes e personagens ? eis as suas virtudes mais salientes. ? &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Luiz Pacheco (Textos de Guerrilha 2, 1981).&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Uma espécie de novela, entre o fantástico e o possível, em que a linguagem tem a função principal, construída que é com inteligência, aguda percepção de funcionamento da frase, da palavra, que ora se desdobra em clareza, ora se subtrai ao nosso domínio pelas tonalidades densas, esmaecidas ou demasiado fortes para os nossos olhos. JVM se revela um escritor já seguro de sua forma de expressão. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Laís Corrêa de Araújo (Suplemento Literário de Minas Gerais ? Brasil).&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Esplêndida manifestação de juventude e talento é esta curta narrativa de JVM, que põe em causa a personagem literária e sobretudo, através dela, a própria personalidade humana, os seus contornos ilusoriamente nítidos, no tempo e no espaço, a sua fabricada coesão, ou coerência. Novela agressiva e, ao mesmo tempo, subtil, NMI pesquisa, na marinha da existência, a trama da verdade e da ilusão, que a todo o instante se interpõe e se co confundem.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Urbano Tavares Rodrigues (Jornal do Comércio ? Lisboa).&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Um dos aspectos de validade e interesse desta natureza morta está, pois, em plasticizar, no movimento de escassas figuras, a vida exterior com a vida interior de cada uma delas, numa sequência de quadros a que não falta inquietante humanidade. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Guedes de Amorim (O Século Ilustrado).&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Sobre &lt;em&gt;&lt;strong&gt;No País das Lágrimas:&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Um narrador irónico, cru, estuante de fantasia, notável pela economia de processos e capaz de atingir, por vezes, os pontos fulcrais da vida e da sociedade portuguesa. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Urbano Tavares Rodrigues (República, Lisboa) &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Constitui uma das maiores surpresas do ano literário português e passa desde já a ser um dos nossos raros bons exemplos de incursão ao absurdo, valendo-se da prodigiosa capacidade de efabulação.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Fernando Assis Pacheco (República).&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Constitui uma das grandes revelações literárias dos últimos anos, pela frescura e vigor da imaginação, pela celeridade da acção, pela luminosidade e pelos cortes abruptos da escrita, levanta problemas apaixonantes. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Urbano Tavares Rodrigues (O Século).&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Uma visão da condição humana notavelmente lúcida e uma impiedosa maneira de se debruçar sobre as coisas e as gentes, o autor consegue, por vezes, aterrorizar pela verdade e pelo tom irónico com que expõe factos e prevê ou denuncia situações. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Liberto Cruz (Colóquio).&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Narrações breves em que o realismo e a fantasia se entrelaçam num tom ironicamente agressivo. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Félix Cucurull (Enciclopedia Espasa-Calpe).&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Uma experiência de voluntária descoberta de novas formas de expressão literária.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Álvaro Salema (A Capital).&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Contos nada concessivos, duros na sua delicadeza e feros no seu mais que expressar, desenhar e sugerir, bem escritos e coerentes com a trajectória anterior do escritor. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Maria Victoria Reyzabal (Reseña, Madrid).&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Imaginação exuberante, intuição viva de situações que num ou noutro caso adquirem um profundo simbolismo e atingem o nível do mito. JVM, mais uma vez, revela positivas possibilidades para um género ainda pouco abordado entre nós e que é o mais adequado e eficaz para pôr em destaque e em processo um certo número de problemas que o realismo nem sempre consegue dar com a violência requerida. Tais são a ineficiência dos mitos clássicos da nossa época de profundas transformações e criadora de mitos novos, as relações entre o passado e o futuro, o drama da identidade e da comunhão, as metamorfoses revistas, como em Kafka, com povos que se convertem em murganhos, a abstractização do homem, que JVM nos dá sempre tão bem com os seus personagens obsessivamente metidos numa função absurda de que se não libertam, o sangrento resultado da defesa dos bens materiais em contraste com a inocência e humanidade as arte, a alienação do homem no poder ou a identificação do rebelde com o tirano, etc.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Nuno Teixeira Neves (Jornal de Notícias).&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Sobre &lt;strong&gt;&lt;em&gt;Histórias do Tempo da Outra Senhora&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Histórias (histórias?) terríveis, em que a própria prosa é clandestina luta. Ler este livro é uma experiência invulgar, porque o dramático não é artificialmente criado e entregue ao nível do significado, mas está desde logo no significante eruptivo e invasor. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Pedro Tamen (Expresso).&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Criação artística e obra revolucionária, no sentido político e no sentido de invenção formal, de pesquisa onírica e poética, de recuperação do facto metamorfoseado pelo tempo-ilusão. Livro de combate, livro de experimentação da palavra (pesquisa ora paralela ora fundida numa linguagem solta, brusca, carregada de elementos macabros e satíricos.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Urbano Tavares Rodrigues (in Ensaios de Após Abril, 1977).&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Este narrador poeta (que o é no Dom invulgar da síntese e na própria estrutura poemática das unidades narrativas) fornece-nos, precisamente no entrosamento do real comezinho e do real fantástico, um modelo de escrita materialista. Facto curioso, ao mesmo tempo que tenta fazer surgir o novo da oposição, do entrechoque de elementos verbais-culturais díspares e, necessariamente, de certas similitudes realacionais ? porque sempre na escrita há resíduos de leitura que se dilatam -, JVM quer intensamente comunicar e significar, recusa a literatura como só literatura, ou seja como realidade essencial. Assim evita muitos dos clichés da modernidade só de hoje e a História ? a luta de classes ? está bem presente em todos estes textos, que fogem à norma de um contexto literário já especializado. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Urbano Tavares Rodrigues (in Realismo, Arte de Vanguarda e Nova Cultura, 1978, 2? ed.).&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Um jogo de erros, de incongruências que começam a engendrar os ritos pelos quais se serve uma mitologia de terror, quase uma mística de terror. E é este um eixo da literatura de resistência de JVM:0 fixar em texto o real processo de discurso fechado indo até ao requinte de uma linguagem ela própria esfacelada pelos seus lexemas cortados a meio ou pelas suas sintaxes estranguladas. Escrever assim é delegar num texto a explosão de uma denúncia.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Maria da Glória Padrão (prefácio à 2? edição).&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Sobre &lt;strong&gt;&lt;em&gt;Cabeça de Porco:&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;Numa escrita extremamente ágil e cheia de novidades surpreendentes para o leitor, mas sempre eficientes do ponto de vista de expressão, JVM transpõe o real para um quase surreal de amargura e grosseria, para uma nova pauta onde a realidade resulta extremada mas não caricaturada, e muito menos negada. Nisso, mas não só nisso, aqui tem o leitor verdadeira prosa e verdadeira prosa portuguesa. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Pedro Tamen (Expresso)..&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;JVM tem vindo a afirmar-se um dos mais imaginativos e lúcidos contistas portugueses que nos últimos anos se distinguiram. Ironia, efabulação, uma larga e mordente fantasia, a sondagem dos espaços reservados do eu psíquico e social, a viagem, sempre saborosa, pelo super-real, o apego ao concreto multi-significante, o recurso a processos de estilo que tornam a sua escrita ágil e envolvente ? eis algumas das ferramentas das suas histórias. JVM coloca as situações escolhidas ante o confronto com o absurdo e vaza-as pela sátira e pelo ridículo, pela ironia (estuante de bom gosto) e pela lógica implacável duma visão transformadora do homem e da vida. Eis um dos mais vivazes temperamentos novelescos da nossa mais recente literatura. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;José Manuel Mendes (Seara Nova).&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Sobre &lt;em&gt;&lt;strong&gt;Romanceiro da Terra Morta:&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Basta ler este livro de JVM ? e com que prazer o fizemos, e com que segurança o recomendamos ? para que o leitor se dê conta que está na presença de um genuíno novelista, de um grande escritor, daqueles que, no momento actual, honram a pátria das nossas letras. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Miguel Serrano (O Diário, Lisboa).&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O regresso de um grande contista português. Excelente motivo para pensarmos que nem só de vazio se faz literatura.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Francisco José Viegas (Semanário, Lisboa).&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/24358457-114379580201835894?l=viale.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://viale.blogspot.com/feeds/114379580201835894/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=24358457&amp;postID=114379580201835894' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/24358457/posts/default/114379580201835894'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/24358457/posts/default/114379580201835894'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://viale.blogspot.com/2006/03/fragmentos-da-critica-sobre-livros.html' title=''/><author><name>Viale Moutinho</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-24358457.post-114285906263525768</id><published>2006-03-20T04:49:00.000-08:00</published><updated>2006-03-20T04:51:02.653-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Conto &lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;A VIAGEM DO NOVO GERENTE OU O CASTIGO DO CÉU&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;de José Viale Moutinho&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;            Então, foi assim:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            Dentro de dois dias chegaremos a Vigo, aí começará a minha nova vida. Meu tio Amâncio bem me dizia que guardado está o bocado para quem o há-de comer. Morreu sem me ter mostrado o bocado que eu havia de comer, mas ficou-me a lição. Mas quando o cambista António Romero me admitiu ao seu serviço, fê-lo porque queria alguém com estudos que o ajudasse no armazém. «Olhe que isto, portando-se você bem, tudo isto poderá um dia ser seu.» Um dia. Ora um dia é não saber e eu gosto de saber. E acho que até soube, soube aproveitar, que se por um lado eu vislumbrava a sorte, por outro ela aparecera-me assim. Começo a escrever este meu diário no barco, o Guadalupe, que, depois de Vigo, segue para Buenos Aires!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pobre diabo, um galego, que empurrava o carro de mão, tinha uma expressão comprometida. Não era só pela chiadeira das rodas, mas pelo fedor que exalava a barrica transportada. Faltava-lhe pouco para chegar à capela de Nossa Senhora do Ó, no Largo do Terreiro, ao fundo da Rua da Fonte Taurina. A mulher que lhe confiara a barrica, recomendara-lhe bico calado e entregara-lhe umas moedas. Era um serviço bem pago, muito bem pago, mas fedorento. Toda a gente implicava à sua passagem. Como se tinham lembrado dele, nem fazia ideia nem lhe interessava. A mulher era já velha e procurara-o na Adega do Porco, às Doze Casas, na tarde do dia anterior. Nunca a vira, nem tencionava voltar a vê-la. Não fizera perguntas. Mas a barrica empestava, como se o conteúdo fosse tripas podres. Ou carne podre. Em Agosto, o Porto aquecia tanto, que o que quer que ali rodasse já não estava em bom estado. Só pelo dinheiro não se arrependia do frete. E lá continuava a descer a Rua das Flores, indo colar-se à parede de S. Francisco, para a última etapa. Suava, merecia beber, aliás beber acompanhado. No botequim da Ribeira. A acentuada descida obrigava-o a suster o andamento, para que a barrica não saltasse do carro. Por fim, chegou à capela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            - Oito horas! – Respondeu um homem de mau modo a alguém que o vira tirar o relógio do bolso e o interrogara.&lt;br /&gt;            O fedor entrou-lhe imediatamente pelas narinas, a ele e ao que perguntara as horas. À porta de um dos tascos estava um tipo qualquer com um copo na mão, meio aparvalhado.&lt;br /&gt;            - Que cheirete, sr. Bento da Costa! Assim, de repente…&lt;br /&gt;            O homem do relógio olhou para a barrica que estava no carro de mão, que o galego encostara à parede da igreja. Quis saber:&lt;br /&gt;            - É para atirar ao Douro?&lt;br /&gt;            Respondeu-lhe o recém-chegado:          &lt;br /&gt;- É para ficar aqui.&lt;br /&gt;            - Quem te mandou?&lt;br /&gt;            - Uma mulher do Largo da Aguardente. O frete está feito e recebido. Até aqui o carrinho foi pago. Agora vou-me embora.&lt;br /&gt;            - E vai ficar isso aí, ainda por cima a cheirar mal?&lt;br /&gt;            - Quero lá saber. Já fiz o combinado.&lt;br /&gt;            O galego voltou as costas, já decidido a ir beber um copo na Porta dos Carros, e iniciou a subida da rua que acabara de descer. Quem não estivesse para aturar o cheiro, que rodasse a barrica até à beira do rio e a empurrasse. A velha dissera que era para encostar o carro à capela da Nossa Senhora do Ó, e melhor encostado não poderia ter ficado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            O cambista mostrou-me os cantos da casa. Quando lhe disse que era sobrinho de Luís Filgueira, logo me disse que eram amigos desde os bancos da escola do professor Minas. Não tinha mais empregados e parecia que eu lhe entregara uma mão-cheia de cartas de recomendação, e não lhe entregara nenhuma. Deu-me logo uma importante quantia para que fosse a Santo António mandar fazer um fato completo, com colete, camisas, sapatos, tudo, porque o seu gerente tinha de ter uma boa aparência. É este fato que trago posto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;             O guarda municipal não estava para maçadas. A barrica, de facto, fedia, mas ele não sabia se aquilo era exactamente coisa para o seu serviço. Não havia nenhum regulamento que se referisse a tipos de mau cheiro, que não fossem dejectos humanos, que a merda não cheirava assim. Isso sabia ele. Alguém enfiara gatos ou cães mortos na barrica, ou que outra coisa poderia ter sido? Havia por ali mais de uma vintena de curiosos. O sr. Bento da Costa pediu ao homem que estava à porta do tasco a beber que fosse buscar um martelo, uma alavanca, qualquer coisa para abrir a barrica. Ele não queria ir, mas alguém lhe meteu na mão um pedaço de ferro e empurrou-o para junto do carro de mão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            O doutor Sebastião Dinis, Juiz de Fora do Crime, bebia refresco de limão e abanava-se com uma folha de papel grosso, mas de que poderia valer estas armas ante uma vaga de calor na cidade do Porto? O escrivão Matias Saraiva cabeceava de sono. O calor e as noites em claro atacavam-no impiedosamente.&lt;br /&gt;            - Está a ouvir bem o que lhe digo?&lt;br /&gt;            Quando o juiz fazia uma pergunta, o escrivão punha-se de pé, abotoava o casaco e depois acenava que sim com a cabeça.&lt;br /&gt;            - Ora, então, leia, faça o favor, ó Saraiva.&lt;br /&gt;            O escrivão pigarreou e leu:&lt;br /&gt;            - Ano de nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1824, aos 14 de Agosto, nesta Cidade do Porto, e sítio do Largo do Terreiro, aonde veio o Doutor Juiz de Fora do Crime, comigo Escrivão deste juízo, Matias Saraiva; ainda sendo presentes Bento da Costa, comerciante da Praça da Ribeira, e António Estorvo, morador na travessa de S. Nicolau, que assim disseram chamar-se, mandadas comparecer na presença dele, Ministro, por constar que foram as primeiras pessoas que encontraram neste sítio uma barrica, em a qual se achou o cadáver de um homem metido em sal…&lt;br /&gt;            O Juiz de Fora do Crime fez sinal para que a leitura fosse interrompida, mas o Escrivão acenou a dar a entender que não havia mais nada escrito, e acendeu um charuto. A primeira baforada de tabaco pareceu iluminá-lo. Debruçou-se sobre as notas e pensou que o tabaco parecia cortar o cheiro nauseabundo que se lhe entranhara nos pêlos do nariz, quando quisera ver o cadáver. E continuou a ditar, mas a voz saía-lhe mal, umas vezes em falsete, tossia. Não percebia a extraordinária calma do escrivão. Finalmente, pediu-lhe para ler o que escrevera.&lt;br /&gt;            - … e logo ele, Ministro, os ajuramentou, este os é deles, a não ser que Vossa Excelência deseje que escreva as ajuramentou, a elas, às testemunhas. – Mateus Saraiva notou um leve encolher de ombros do magistrado. Ficaria assim mesmo. Prosseguiu. -  … a ambas aos Santos Evangelhos, encarregando-lhes declarassem o modo e forma por que encontraram a dita barrica, e conheceram o que continha; se sabem quem ali a conduziu e a direcção que trazia; e recebido por elas o dito juramento declararam…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            Quando o sr. António Romero se voltou, viu-me a corda nas mãos, e o que o perdeu definitivamente foi não ter percebido logo o que eu ia fazer com ela. E eu ia fazer a minha fortuna, evidentemente, e esta viagem.&lt;br /&gt;            Andou mais de uma semana a dizer que ia montar uma agência da sua casa no Brasil, que viajaria em breve, que eu ficaria a tomar conta das coisas no Porto, que mais isto, que mais aquilo. Escreveu cartas para toda aparte até prometeu um papagaio à vizinha da frente, a quem arrastava a asa. Só tive de estudar as partidas dos barcos, para que tudo coincidisse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            Bento da Costa disse que estava a aguardar que um recoveiro chegasse de um recado a que o mandara ao outro lado do rio, quando ouviu o chiar de um carro, que ele não viu imediatamente, por estar encoberto pela esquina. Porém, não tardou a que surgisse um carrejão com um carro de mão, onde transportava uma barrica. Mal chegou junto da capela, encostou o carro, cuspiu nas mãos e, como logo se espalhasse um fedor muito forte, ele mesmo o interrogara sobre o destino que ia dar àquilo, tendo sabido que fora pago para deixar ali o carro e a barrica, retirando-se. Não se lembrava o comerciante dos traços do rosto do homem, mas galego era de certeza, tanto mais que trajava com as roupas rudes que costumavam usar os filhos de Pontevedra. Nunca o vira nem lhe parecia que o poderia reconhecer.&lt;br /&gt;            O outro arrolado como testemunha, António Estorvo, declarou que o sr. Castro lhe pedira que arranjasse um martelo ou qualquer outra coisa que servisse para abrir a barrica. Alguém lhe meteu um ferro na mão, pois não sabia de nenhuma ferramenta, e ele mesmo fizera saltar a tampa da barrica. O cheiro tornara-se de tal modo intenso que quase desmaiou, uma mulher tivera de pôr-lhe água nas fontes.&lt;br /&gt;            Do guarda municipal não havia notícia. Toda a gente o tinha visto, mas ele desaparecera naquela confusão. Foram umas mulheres, por ordem do sr. Bento da Costa, que haviam ido chamar as autoridades.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            - Ora leia lá isso, ó Saraiva…&lt;br /&gt;            - … as testemunhas estavam persuadidas de que na barrica havia carne em mau estado, presuntos ou chouriços. Porém, destapada a barrica, pois fizeram saltar uma das extremidades, se achou por cima coberto com roupa, e tirando-a se viram os pés de um homem com botas calçadas, e tirando-o para fora, acharam um cadáver metido um sal, o qual estava vestido de pantalonas, colete e casaca, achando-se-lhe umas pequenas chaves…&lt;br /&gt;             - Para que raio quereria o homem essas chaves depois de morto?&lt;br /&gt;            - Sabe-se lá, senhor dr. Juiz! Para abrir as portas do céu, seria?&lt;br /&gt;            -Não blasfeme, Saraiva.&lt;br /&gt;            - …e entre o sal uma faca de ponta. Ignora-se de quem seja o cadáver, por não estar já em estado de se poder conhecer; e da mesma forma se ignora o destino do carrejão, por não se saber donde veio, e disto, por nada mais haver a acrescentar, eu, escrivão, dou fé.&lt;br /&gt;            - Eu confio em si, Saraiva, você é um homem experimentado nestas coisas, por isso poupe-me a leitura mais escabrosa, mas releia isso para si. Como se estivesse a ler para eu corrigir. Eu sei das suas qualidades, Saraiva. Com este calor, não aguentaria o resto. – E o Juiz de Fora do Crime bebeu ruidosamente meio copo de limonada e levou ao nariz o, bainha lenço perfumado,&lt;br /&gt;            Mateus Saraiva prosseguiu a leitura em silêncio, mas movendo os lábios para que o magistrado se apercebesse da sua diligência:&lt;br /&gt;            - E sendo presente o cadáver, lançado sobre um pouco de sal, eu o escrivão não o pude reconhecer por se achar inteiramente desfigurado; e junto dele se acharam uma navalha de ponta, com cabo de osso, bainha de couro, e duas chaves presas a uma argola, que parecem de gaveta, e no cadáver se achou ao pescoço umas contas com uma cruz de latão, e estando o mesmo cadáver vestido com casaca, colete, camisa, pantalonas e botins. – O escrivão franziu as sobrancelhas, estava a repetir as coisas, depois comporia, antes de levar ao juiz para assinar. O truque era ao dar aquilo por concluído, fazer tombar o tinteiro, de modo a ter de reescrever tudo noutro ambiente, com menos tensão. Beberia um chá de tília. E chegara à tal parte que impressionara o juiz ao ditá-la. - … parecendo a casaca de cor preta, o colete de veludilho preto e as calças de ganga amarela, o que bem se não pode afirmar, por se achar a mesma roupa inteiramente danificada pelo sal; e sendo examinados os bolsos da dita roupa, senão achou coisa alguma nos do colete e calças; e no bolso da casaca se lhe achou um lenço e uma caixa de papelão redonda, para tabaco, do tamanho de uma hóstia ordinária; e examinando-se os farrapos que cobriam o cadáver na barrica, nada mais de importante se encontrou. – Reparando que o Juiz de Fora do Crime parecia adormecido, pelo menos tinha as pálpebras baixas, o escrivão saltou a sua leitura silenciosa para o relatório apenso. - … comparecendo ao acto os cirurgiões aprovados e do Partido da Relação, Alberto de Serpa e Gramaxo Antunes, ele, Ministro, devidamente os ajuramentou, encarregando-lhes vissem e examinassem o cadáver, etc. – Matias Saraiva evitou ler, pois mais tarde teria de o fazer ao reescrever aquele assento. O cadáver tinha a cabeça quase separada do corpo, fracturada, que o pobre havia sido acutilado até à morte.&lt;br /&gt;            - Merda, Saraiva! Outra vez! Já anteontem aconteceu isto!&lt;br /&gt;            O tinteiro estava caído e a tinta empapava o papel do assento. Mateus Saraiva apresentava uma expressão compungida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            Pelas suas contas, o gerente do senhor Romero já estaria na Argentina quando conseguissem identificar o patrão, que deixara salgado na barrica. Pagara à velha bruxa do Largo da Aguardente para que se livrasse da barrica. Não resistira a um bom caso de jornais. E quis que o descobrissem a certo prazo. Mas estaria a salvo em Buenos Aires ou na Bolívia. Encarregara um procurador de lhe mandar todos os jornais que falassem na viagem do patrão, no achamento da barrica, das diligências policiais, ficando na expectativa de que o descobrissem, embora demasiado tarde, obviamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;             Em Vigo, nos Peiraos, o gerente do senhor Romero foi seguido por um tripulante do Guadalupe, que se apercebera que ele levava uma grande quantidade de moedas de ouro no alforge de que nunca se separava. Andava derreado o português, derreado com aquele peso. Fora fácil, ao anoitecer, meter-lhe uma sevilhana nas costelas e arrancar-lhe o alforge. Empurrara-o, ainda vivo, para as águas, que se tingiram de sangue, mas acabou por morrer afogado no lixo que batia nas pedras.&lt;br /&gt;            E assim a Divina Providência se encarregou de fazer pagar com língua de palmo ao assassino do senhor Romero, a quem o tio Amâncio observara: Guardado está o bocado para quem o há-de comer. No entanto, o tripulante do Guadalupe em vez de regressar ao navio, seguiu a cavalo para Madrid, onde depressa gastou aquela fortuna que roubara.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gostaram do desfecho? É um pouco moralista, mas eu ainda tenho uma ligação atávica a determinados valores, desculpem. O marinheiro é que se me escapou.&lt;br /&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/24358457-114285906263525768?l=viale.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://viale.blogspot.com/feeds/114285906263525768/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=24358457&amp;postID=114285906263525768' title='1 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/24358457/posts/default/114285906263525768'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/24358457/posts/default/114285906263525768'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://viale.blogspot.com/2006/03/conto-viagem-do-novo-gerente-ou-o.html' title=''/><author><name>Viale Moutinho</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-24358457.post-114285877976445772</id><published>2006-03-20T04:41:00.000-08:00</published><updated>2006-03-20T04:46:19.783-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>12 poemas inéditos do livro&lt;br /&gt;POR UM BOSQUE TÃO SOMBRIO&lt;br /&gt;de José Viale Moutinho&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;em&gt;Por um bosque tão sombrio&lt;/em&gt;&lt;br /&gt; António Ferreira&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            1&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            o homem, olhando por cima do ombro,&lt;br /&gt;            assobiou, mas ninguém lhe respondeu,&lt;br /&gt;            quem seria, quem, só o rosto revelava&lt;br /&gt;            a surpresa muito própria de quem sabe&lt;br /&gt;            o que ali poderia, por fim, acontecer,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            mas não escreveu na parede da casa,&lt;br /&gt;            só ergueu a mão direita ao coração&lt;br /&gt;            e afagou a pele, o mamilo esquerdo,&lt;br /&gt;            mas não era dali, retraía-se,&lt;br /&gt;            perdia o tempo velho das maçãs,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            perseguiam-no, sim: odiava-os,&lt;br /&gt;            procurava a porta da saída de cena,&lt;br /&gt;            entendia que só lhe restava&lt;br /&gt;            a fuga, a fuga insuportável do deserto,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            2&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            nada que eu possa dizer: sabor&lt;br /&gt;            dos sabores, pelos campos tenho&lt;br /&gt;            o outro lado daquela colina,&lt;br /&gt;            a mesma pedra branca acolhedora,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            mas nem por palavras, talvez um grito&lt;br /&gt;            que pareça sem sentido, inerte,&lt;br /&gt;            exangue, desses gritos que morrem&lt;br /&gt;            quando não têm para onde ir,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            oh, nada que eu possa saber, a voz,&lt;br /&gt;            por estranho que pareça, sempre cede&lt;br /&gt;            como as sombras pela manhã,&lt;br /&gt;            basta o sol assomar que corta as veias,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;não, nem por gestos leves, apenas&lt;br /&gt;com os movimentos de um gato muito&lt;br /&gt;serafim, um gato que não reconhece&lt;br /&gt;a mão que o afaga, um gato que arranha,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ninguém, sequer os restos mortais de um anjo&lt;br /&gt;debaixo do tapete de borracha, ninguém&lt;br /&gt;às portas do que resta da noite, apenas&lt;br /&gt;o gato olhando fixamente as nuvens,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;sabes, uma mulher andava pelas ruas&lt;br /&gt;da amargura, rosto esquálido, verde,&lt;br /&gt;tropeçava nas mãos quando as estendia&lt;br /&gt;às portas fechadas, às paredes de pedra&lt;br /&gt;e azulejos, afagava todos os animais&lt;br /&gt;que, perdidos, se acoitavam na casa&lt;br /&gt;abandonada ao fundo da rua,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;uma mulher que poderia estar morta e&lt;br /&gt;morta, perseguida, afundada na lama&lt;br /&gt;do caminho que levava à fonte dos engaranhos,&lt;br /&gt;nua, quando calcava os arbustos secos&lt;br /&gt;que juncavam o caminho de cabras,&lt;br /&gt;perdia-se dos olhares dos outros,&lt;br /&gt;manejava os seus silêncios, fumava,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;uma mulher que ia ao bosque e regressava&lt;br /&gt;a casa, e sempre dizia as mesmas coisas,&lt;br /&gt;as mesmas palavras fragmentadas, cruas,&lt;br /&gt;alguém lhe roubara o nome do porta-moedas,&lt;br /&gt;possivelmente haviam-lhe prometido&lt;br /&gt;o falso manto de nossa senhora das dores,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;5&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e que posso saber olhando a rua,&lt;br /&gt;as palavras misturam-se nas bocas&lt;br /&gt;e é como se todos guardassem entre&lt;br /&gt;as pedras, no cimento, na terra,&lt;br /&gt;entre as ervas daninhas, nas pontas&lt;br /&gt;dos cigarros esmagados, um discurso&lt;br /&gt;sem préstimo: nada posso saber do país&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;excepto o que vem nos jornais errados,&lt;br /&gt;nenhuma palavra é consentida&lt;br /&gt;na paisagem, do restaurante popular&lt;br /&gt;onde guardo o que me não cabe&lt;br /&gt;nos bolsos do velho casaco de sombra,&lt;br /&gt;mesmo que deixe escapar um grito,&lt;br /&gt;observo a tesoura abandonada na mesa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e do escritório do receio, que seios&lt;br /&gt;onde apoiar os lábios esquecidos,&lt;br /&gt;que estranhos meios de perder o riso,&lt;br /&gt;que posso saber olhando a rua&lt;br /&gt;onde moro, os meus vizinhos, as luzes&lt;br /&gt;com que se despem silenciosamente,&lt;br /&gt;que devo pensar destas árvores cortadas,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;queimadas, ninguém me pode responder,&lt;br /&gt;muito menos as sombras da tua boca,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;6&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;construir parques de estacionamento&lt;br /&gt;subterrâneos é uma prática suicida&lt;br /&gt;como outra qualquer, ah, a pátria,&lt;br /&gt;convenhamos, poderia ser mais brilhante,&lt;br /&gt;como um sol ou o seu espelho,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;o velho guardador de automóveis,&lt;br /&gt;provador de todas as aguardentes,&lt;br /&gt;não se compara a estes soluçantes&lt;br /&gt;jovens que coleccionam moedas&lt;br /&gt;para o pó branco ou o chuto de cada dia,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;11&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;estar assim com os olhos nos bolsos&lt;br /&gt;e os dedos metidos nos ouvidos,&lt;br /&gt;mastigando a língua, as palavras,&lt;br /&gt;sonhando com o rosto colado na vidraça,&lt;br /&gt;bebendo o café amargo, tecendo medos,&lt;br /&gt;incertezas, tempo descontado,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;estar assim no fio da lâmina é saber&lt;br /&gt;que o teu sorriso é para mim,&lt;br /&gt;que quando os teus cabelos me cobrem&lt;br /&gt;é porque os teus lábios estão próximos&lt;br /&gt;do último esconderijo, entre as pedras,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;12&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;de repente, ao atravessar uma rua,&lt;br /&gt;abro as mãos e vejo toda esta ausência&lt;br /&gt;na sua túnica de espera e silêncios,&lt;br /&gt;telefonemas e lábios que apenas afloram&lt;br /&gt;o segredo da boca, atravessar uma rua&lt;br /&gt;tem destes perigos, pelo que afundo, eco&lt;br /&gt;de mim mesmo, as mãos nos bolsos,&lt;br /&gt;fecho os olhos como quem se entrega a um carro&lt;br /&gt;desgovernado, e avanço, bruto, tentando&lt;br /&gt;respirar o tempo da tua pele, e não respiro,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;de repente, ao procurar um telefone&lt;br /&gt;na bolsa onde guardo as minhas vidas,&lt;br /&gt;reparo que estão aí todas as minhas palavras,&lt;br /&gt;o meu espaço está invadido pelas formigas&lt;br /&gt;que me devoram os papéis, os cds, a arte&lt;br /&gt;com que me tento equilibrar longe de ti,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;vês como aprendi a roer os dedos, as unhas,&lt;br /&gt;o lábio instante, a língua que procura o céu&lt;br /&gt;da tua boca, para te dizer o que não entendes,&lt;br /&gt;como folha rasgada do corpo que se queima,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;13&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;este sou eu, natural, amador, perseguindo&lt;br /&gt;as sombras das salas do museu dos velhos&lt;br /&gt;rostos: quem pintou todas estas paisagens&lt;br /&gt;com camponeses amarrados ao silêncio,&lt;br /&gt;estas frondosas árvores que apenas existem&lt;br /&gt;nos sonhos do homem que escreveu o livro,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;esta sombra compreende a língua, a terrível&lt;br /&gt;língua que despe e despede os teus seios&lt;br /&gt;num recanto de jardim seco, é o remanescente&lt;br /&gt;da tua voz este punhado de palavras que me&lt;br /&gt;enchem a boca de desejo, este sou eu, estes&lt;br /&gt;são os ramos do corpo, e tu és a mesma árvore&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;dos sonhos: amador de pintura naturalista,&lt;br /&gt;vigia emoldurado, cabeça de velho a assomar &lt;br /&gt;entre os arbustos da paisagem, víbora, frondosa&lt;br /&gt;cabeça desenhada com a caneta da morte, não&lt;br /&gt;és um sonho só: um homem diz eu sou esse&lt;br /&gt;homem, ergo o rosto desse homem e estou cego,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;14&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;estende as mãos, serpente, os dedos de arame&lt;br /&gt;e sedução procuram os teus ombros, a língua&lt;br /&gt;tornou-se insuportável, inchada e temível&lt;br /&gt;como um afogado recolhido ao fim da tarde,&lt;br /&gt;ocre o pôr-do-sol aparece por detrás do arvoredo&lt;br /&gt;(querem fechar o museu, acendem as luzes),&lt;br /&gt;e o amador, com as mãos nos bolsos, recorda&lt;br /&gt;as sábias palavras do seu livro de instruções,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;15&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;a tarde abre a porta com a sua aragem,&lt;br /&gt;os ramos da estranha árvore inclinam-se&lt;br /&gt;sobre o jardim destas paragens: ouve-se&lt;br /&gt;passar um automóvel, cansado, o herói&lt;br /&gt;limpa das armas com gestos lentos,&lt;br /&gt;está descalço e há cansaço no seu rosto,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;desgraçado, penso, as sombras perdem-se&lt;br /&gt;e recuperam-se: sentado no átrio do hotel&lt;br /&gt;perco o meu tempo a folhear uma revista&lt;br /&gt;enquanto espero que me apeteça falar,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;16&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;perdemos a vontade de sorrir, o cão&lt;br /&gt;esconde-se debaixo da mesa, a toalha,&lt;br /&gt;com as suas manchas de vinho e de molho,&lt;br /&gt;as mãos amarrotando o guardanapo&lt;br /&gt;de linho, os olhos postos na desgraça,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;quantas vezes nos sentamos à mesa&lt;br /&gt;com esta disposição, quantas vezes&lt;br /&gt;esquecemos a amargura de um jantar&lt;br /&gt;com os olhos postos na guerra suja&lt;br /&gt;do iraque, a cores vivas e em directo,&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/24358457-114285877976445772?l=viale.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://viale.blogspot.com/feeds/114285877976445772/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=24358457&amp;postID=114285877976445772' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/24358457/posts/default/114285877976445772'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/24358457/posts/default/114285877976445772'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://viale.blogspot.com/2006/03/12-poemas-inditos-do-livro-por-um.html' title=''/><author><name>Viale Moutinho</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-24358457.post-114281977118580451</id><published>2006-03-19T17:51:00.000-08:00</published><updated>2006-03-19T17:56:11.200-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:180%;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;crónica&lt;/span&gt; Incêndio passional da juventude de um Nobel&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não, não me refiro ao Saramago, que é Nobel de Literatura, mas ao cientista Egas Moniz, Prémio Nobel da Medicina no longínquo ano de 1949. É que, o outro dia, apanhei na estante um seu livro de memórias, A Nossa Casa, de 1950, e aí ele refere-se a duas viagens suas a Santiago, na primeira das quais se lhe ateou o que ele designa de incêndio passional da juventude. E aproveito a oportunidade dos 50 anos da sua morte para evocar esta figura invulgar da Cultura Portuguesa em Santiago..&lt;br /&gt;         Conta o prof. Egas Moniz que, em 1897 (o grande fadista coimbrão Hilário morrera no ano anterior), em resposta a uma visita feita pelos tunos compostelanos, os seus camaradas de Coimbra foram a Santiago. «Na passagem em Tui, para a Galiza, escreve o então estudante de Medicina, começaram as manifestações a Santiago que, no céu, se devia sentir atemorizado com tanta evocação do seu nome, em apóstrofes infindáveis.»   Depois: «Cantavam-se canções portuguesas e galegas, muitas vezes concordantes na sua toada folclórica que, naquela noite luarenta, trazia em chamas, arrebatamentos inesperados.» Egas Moniz discursava e os seus colegas cantavam. «E logo me prenderam os olhos negros de uma esbelta rapariga que no seu camarote ostentava no cabelo preto uma rosa vermelha que me serviu para qualquer frase apropriada. Todos se aperceberam da minha predilecção e ela própria não deixou de a sentir.» Entre recitais, o moço acabou por conhecer pessoalmente  a tal jovem, com quem teve aceso carteio. «Foi nessa época que surgiu a guerra de Cuba, em que a heroicidade espanhola foi aniquilada pela força dos estados Unidos. A formosa compostelana prendeu-se por tal forma a essa luta, acendrou-se tanto no seu patriotismo exaltado de espanhola, que foi assunto fundamental das suas cartas. Não escondo que houve da minha parte, dado a entusiasmos, alguns madrigais; mas tudo isso era secundário. Pelo meu lado, também andava interessado nessa guerra, prevendo, como toda a gente, um desastre para a Espanha, mas tomando partido a seu lado.» E observa ainda: «Se a Espanha tivesse conduzido as negociações de forma a dar pacificamente a independência a Cuba, tudo se teria passado de forma bem diferente. Mas o ambiente político dessa época não era de molde a permitir tal solução.» E a troca de cartas acabou por extinguir-se a partir da derrota. «Sem azedumes, naturalmente, nos fomos esquecendo.» E assim acabaria a crónica dessa relação, «incêndio passional da juventude»,como lhe chamou o protagonista.&lt;br /&gt;         Anos mais tarde, Egas Moniz já de prestígio consolidado na Ciência, volta a Santiago, para dar umas lições sobre a sua especialidade, a angiografia cerebral, na faculdade de Medicina. O apresentador, prof. Casimiro Martinez, para se preparar também lera os jornais galegos da época, colheu lá a nota afectiva do seu colega. E meteu-a no discurso! Só passado algum tempo é que se apercebeu que a esposa do cientista estava presente e procurou salvar a gaffe! E observa Egas Moniz: «A linda compostelana casara, era mãe de alguns filhos e um deles era, ao tempo, quartanista de Medicina e assistia à sessão!»&lt;br /&gt;         Republicano, nada dado à igreja, Egas Moniz recorda que, na primeira visita, um colega galego, sabendo a sua maneira de pensar o convidou para uma festa no Instituto Católico Leão XIII, a que ele compareceu e onde discursou. No fim ouviu isto: «Magnífico, comportaste-te como um cardeal de Roma! Parabéns!»&lt;br /&gt;           E fecho com uma anedota, há dias contada pelo jornalista António Valdemar na sua coluna no Diário de Notícias. Pois sendo Egas Moniz um decidido opositor ao salazarismo, quando lhe foi atribuído o Nobel, na oficial Emissora Nacional a notícia foi dada como abertura de um dos blocos informativos. Logo o director, engº Silva Dias, montou processos disciplinares aos dois «culpados» - Jerónimo Bragança, chefe de Redacção, e Pedro Moutinho (não é meu parente), o locutor -, alegando que o cientista, «com Nobel ou sem Nobel, é um filho da puta da oposição»!     &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;publicada no jornal A Nosa Terra, Vigo, 2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/24358457-114281977118580451?l=viale.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://viale.blogspot.com/feeds/114281977118580451/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=24358457&amp;postID=114281977118580451' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/24358457/posts/default/114281977118580451'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/24358457/posts/default/114281977118580451'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://viale.blogspot.com/2006/03/crnica-incndio-passional-da-juventude.html' title=''/><author><name>Viale Moutinho</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-24358457.post-114281745949227324</id><published>2006-03-19T17:16:00.000-08:00</published><updated>2006-03-19T17:17:39.510-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Crónica &lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;strong&gt;Encontros com D. Ramón no Porto&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;A primeira vez que o vi ouvi-o discursar. Era eu moço e meteu-me muita impressão o verbo sonante de D. Ramón Otero Pedrayo. Sempre tive um certo receio de fazer má figura nas conferências, pois quanto mais ramalhudo é o verbo, mais sono me provoca. E eu sei que quando caio assim a dormir num auditório, tenho a tendência para usar o ombro do parceiro do lado como almofada e fazer soar as trombetas de Jericó em forma de roncos monumentais. Pois bem, confesso, não me encantou ouvi-lo. Perdia-me em tantas referências. Mas aprendi a conhecê-lo, lendo-lhe umas crónicas e uns contos, o seu Guia da Galiza, tal como o poderoso poema, pelo menos épico-gastronómico, sobre o vosso xamón, que é o nosso presunto (lapa de carne, flor do fumeiro, etc.).&lt;br /&gt;         Assim, há uns 32 anos, nos inícios de Maio de 1972, na Praça da Batalha, no Porto, vejo D. Ramón sair de um táxi e entrar num daqueles hotéis que ali estão. Eu conhecia o motorista e perguntei-lhe donde o trouxera. Disse-me que da igreja de Santo Ildefonso, justamente do outro lado da praça, uns cem metros difíceis de percorrer para as pernas cansadas do grande patriarca galego, que já andava muito alquebrado. 84 anos, morreria quatro anos mais tarde. Contou-me o taxista que o contratara por uma série de dias, sempre à mesma hora, para o atravessar a praça, a fim de poder assistir à missa da tarde, aguardava-o e regressava com ele ao hotel. «Deve ser uma pessoa muito crente! E muito sábio! Diz-me cada coisa! E entende-se muito bem!» dizia-me o taxista.&lt;br /&gt;         Entendi que era a altura de me encontrar efectivamente com ele. E recebeu-me. D. Ramón descansava no Porto de uma ida a Lisboa falar de Santiago de Compostela. Desse encontro, guardo registo das suas palavras: «Dediquei-me quase indistintamente a todos os géneros literários numa altura em que a Galiza o necessitava. A intervenção era importante em qualquer domínio. Não hesitei. Lamento apenas não ter tido espaço suficiente no meu tempo para me dedicar ao romance, género para que me sentia mais inclinado e dotado. Sempre me agradou observar tipos estranhos.&lt;br /&gt;         «Claro que na época em que começámos a trabalhar, por volta de 1913, quando se iniciou  a ressurreição do galeguismo oitocentista. Nesse tempo tudo fazia falta, como lhe disse. Talvez Os camiños da vida, de 1928, tenha sido a minha obra de ficção mais acabada.» E falava desse livro: «Descrevo aí o caminho da sociedade galega no século passado. Exactamente no ponto em que se começaram a fundir as antigas instituições patriarcais, que não eram mais do que formas de individualismo moderno! Punha face a face a fidalguia camponesa na sua evolução provocada pelas ideias liberais, precisamente quando esses aristocratas iam á cidade e se comportavam já como cidadãos normais sem assumirem atitudes empoadas…»&lt;br /&gt;         Falou-me longamente de Santiago e do seu ambiente mitomaníaco (a expressão é dele), dos seus bêbedos filósofos encharcados em vinhos do Ribeiro! Assim acaba por falar-me  da sua perspectiva da língua galega:  «Espero que o galego assuma uma vez mais a importância da Cultura de que é expressão. No entanto, creio que é uma vantagem para um povo ter duas línguas, tanto mais  que uma nãoexclui a outra. Não se pode deixar morrer um idioma por muito humilde que seja. Doutro modo seria como deixar morrer ou matar uma fonte. A grandeza do povo galego reside em muito no ter sabido guardar a língua para tempos propícios…» E falamos em Valle-Inclán. D. Ramón diz-me que ele «não entendeu o camponês como ele merecia. E nisso errou. Valle-Inclán considerava sempre o camponês um bufão, um bandido, uma figura pitoresca e nada mais do que isso. E esta atitude é totalmente desrespeitosa da parte de um galego que nem sequer sabe compensar com a sua admiração um povo cioso do seu património cultural.»&lt;br /&gt;         Foi neste encontro de Maio de 1972 que D. Ramón Otero Pedrayo me disse como sonhava o futuro da Galiza: «Gostaria que fosse uma democracia camponesa. Sem grandes cidades nem grandes indústrias. Indústrias, só caseiras.» Mas acabou por reconsiderar o país encantado e pouco prático que imaginava e acrescentou: «Gostaria que o galego não partisse, não emigrasse e ficasse na sua terra. Todavia, a Galiza devia estar tecnicamente melhor equipada para o poder reter com trabalho. Entendo que se deveria fomentar a vida das paróquias. Não por uma questão absolutamente religiosa. Creio que a formação da Galiza em paróquias é mais autêntica que em municípios. As paróquias creio serem derivadas de antigos clãs a que a igreja depois apôs uma cruz e um cemitério! Isto está tão arreigado ao povo galego que nas próprias colónias de emigrantes na América do Sul se constituíam em grupos de dimensão paroquial.»&lt;br /&gt;         Mostrando-se avesso á divisão da Galiza nas quatro províncias, justificou-o considerando ser um despropósito este retalhar de regiões naturais. Mas  D. Ramón estava ainda emocionado com o que recentemente lhe acontecera e ele achava ser a sua mais grata recordação: «Quando me despedi dos meus alunos da universidade de Santiago de Compostela verifiquei que era amado pela juventude. A nós, os velhos, o que mais nos conserva é a simpatia dos mais novos. Sobretudo quando nos metemos com as nossas lembranças e ouvimos a morte aproximar-se de mansinho, girar em torno de nós a murmurar que faz apenas aquilo que lhe mandam… Bem, agora nem passo pelos cemitérios!»&lt;br /&gt;         Muitos anos depois estive em Trasalba, conheci o seu paço e a sua biblioteca, algumas lembranças suas que ali estão. Percorrendo aquelas lombadas, reencontrei-me melhor com a obra de D. Ramón Otero Pedrayo. É só saber olhar…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Publicado no jornal A Nosa Terra, Vigo, 2005.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/24358457-114281745949227324?l=viale.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://viale.blogspot.com/feeds/114281745949227324/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=24358457&amp;postID=114281745949227324' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/24358457/posts/default/114281745949227324'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/24358457/posts/default/114281745949227324'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://viale.blogspot.com/2006/03/crnica-encontros-com-d.html' title=''/><author><name>Viale Moutinho</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-24358457.post-114281410343852494</id><published>2006-03-19T16:20:00.000-08:00</published><updated>2006-03-19T16:21:43.470-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal" style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span style="FONT-SIZE: 14pt; FONT-FAMILY: Georgia"&gt;&lt;?xml:namespace prefix = o ns = "urn:schemas-microsoft-com:office:office" /&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span style="FONT-SIZE: 14pt; FONT-FAMILY: Georgia"&gt;Autobiografia &lt;/span&gt;&lt;b style="mso-bidi-font-weight: normal"&gt;&lt;span style="FONT-SIZE: 14pt; TEXT-TRANSFORM: uppercase; FONT-FAMILY: 'Arial Narrow'"&gt;Poderei não ter sido assim&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span style="FONT-SIZE: 14pt; FONT-FAMILY: Georgia"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span style="FONT-SIZE: 14pt; FONT-FAMILY: 'Arial Narrow'"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span style="FONT-SIZE: 14pt; FONT-FAMILY: 'Arial Narrow'"&gt;Eu não fazia parte do elenco da peça, estava sentado na coxia da terceira fila, talvez perdido entre dois &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal"&gt;blues&lt;/i&gt;, mas ergui-me da poltrona e galguei os degraus para o proscénio. Chabela Vargas cantava nas minhas veias? O Manuel Freire era a voz da razão, soava Paul Robson no &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal"&gt;Old Man River&lt;/i&gt;. A sala ainda estava iluminada e situei-me logo ali. Mostrei à vontade ao erguer uma perna e pousar a alpargata sobre a caixa do ponto, impedindo que ele iniciasse a leitura murmurada da comédia, a comédia que se encontrava em cartaz. E declarei aos que procuravam sentar-se nas poltronas correspondentes aos seus bilhetes, o meu nome e acrescentei que chegara, havia muito, de uma ilha perdida no Atlântico, e que eu nascera quando os canhões começavam a calar-se pela segunda vez em todo o mundo. Falei que estava agora a lançar raízes na ilha, a Ilha do Ogre, mas arrepiei caminho. Um gracioso, num dos camarotes, perguntou em falsete se eu queria dizer que nascera na Madeira em meados de 1945. Aplaudiram-no, mas a mim apetecia-me, como sempre, dizer as coisas de modo mais sinuoso, acrescentando ser filho de um homem do Douro, extraordinário efabulador, desinteressado das vinhas e dos olivais da família, dele e de uma inglesa, que levara como dote, uns brincos de sua mãe e memórias de uma riqueza palaciana, carregada de preconceitos, inclusive de classe. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span style="FONT-SIZE: 14pt; FONT-FAMILY: 'Arial Narrow'"&gt;Assim, entre a realidade quotidiana e as memórias ficcionadas, ou apenas inacreditáveis, montes de livros, férias no Douro, onde os personagens eram escritos por mim sobre as histórias de meu pai, e a figura mítica de um avô, que andava pelos campos em misteriosos trabalhos que eu não entendia muito bem. Ah, e as pessoas, já sentadas nas suas poltronas, impacientavam-se porque, segundo diziam, eu estava a impedir o início da representação. Teria sido muito simples se se erguesse o pano, surgisse o primeiro cenário e os actores começassem a função, naqueles jogos de deixas garantidos pelo homenzinho da caixa sobre a qual eu tinha pousado a alpargata. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span style="FONT-SIZE: 14pt; FONT-FAMILY: 'Arial Narrow'"&gt;Na verdade, eu nem precisava de cenários nem de mais actores ou de que quem quer me sussurrasse os passos da minha vida, que eu me dispusera a contar naqueles momentos. Havia um foco que percorria a sala e, de quando em quando, mas cada vez mais insistentemente, se fixava em mim. Eu calculava que uma certa percentagem do sucesso que ali pudesse ter assentaria no facto dos gordos serem considerados pessoas bem dispostas. A plateia, mulheres e homens de rostos atónitos, era constituída por gente que me parecia demasiado magra. Nas histórias de meu pai havia sempre um frade imponente e eu imaginava-o sentado a uma grande mesa, e eles, bocas abertas, olhos bugalhudos, vendo as suas poderosas mãos agitando talhadas de presunto, coxas de capões assados, côdeas de broa, pernis de porco negro, grandes malgas de vinho tinto, um bródio à antiga! E aquele frade era eu, possivelmente o meu fantasma. Essa era a maneira que eu tinha de lhes mostrar bem saber como entrar na dimensão por onde andaria, com as mesmas glórias, vícios, vaidades e saberes de sempre. E se um lugar há dentro da minha cabeça, que, cuido como poiso da memória de toda a família, esse é o Quarto dos Santos da casa dos meus avós. Havia aí um oratório, com a Senhora do Campo, milhares de velas de cera, cujo arder empestava até ao corredor, uns diplomas que davam alguns dos avós como terceiros de ordens e de confrarias, centenas de figuras de santos, anjos e arcanjos, suponho quase todos apócrifos, uma espécie de santíssimo exército a vigiar a fé da minha avó e de todas as velhas murmuradeiras nas rezas e jaculatórias ao quotidiano toque das Trindades. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span style="FONT-SIZE: 14pt; FONT-FAMILY: 'Arial Narrow'"&gt;Eu tinha um fascínio por aquilo tudo e, de noite, vinha do meu quarto, espreitar aquela população prodigiosa, que parecia adquirir vida com o tremular das lamparinas eternamente acesas. Havia ainda o gavetão de uma cómoda onde eram guardadas umas esporas douradas, cuja origem ninguém condescendia em contar-me. Numa caixa de velas, era guardado um enorme revólver de espigão, hoje aqui a defender alguma papelada dos ventos do Porto que me devassam o lugar de trabalho. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span style="FONT-SIZE: 14pt; FONT-FAMILY: 'Arial Narrow'"&gt;Vivi em Espinho, onde se passeavam vários fantasmas, o de Amadeo e o de Laranjeira, de um pintor espanhol que tinha uma orelha de cera e uma escritora de romances cor-de-rosa. Como professor, no Colégio de S. Luís, tive o novelista José Marmelo e Silva, uma lição de intelectual que encolhia os ombros à glória efémera. Em segredo, falava-se muito do assassínio de um médico comunista, Ferreira Soares. E ali havia uma feira enorme e cheia de sugestões, que era a minha perdição às segundas, quando escutava romances de cego, a conversa fiada dos vendedores de banha de cobra com a jibóia ao pescoço, transportada numa mala de cartão, cobra que comia coelhos vivos à nossa vista. Um corcunda vestindo de branco, com um tabuleiro ao pescoço, rondava o colégio, expressão sardónica, a guinchar: «Chupa-chupa, caramelo, estica!» Um perfeito do colégio pedia-nos calendários para os trocar por copos de vinho numa taberna ao fundo da rua. E as incursões ao estranho universo do mosteiro de Grijó, em cuja quinta, parte do cenário de um romance de Júlio Dinis, dizia-se, passei a odiar leite quente quando o parvo do moço da vacaria ordenhou umas sujas tetas lançando-me jactos de leite branco, espesso, gorduroso, directamente para a boca escancarada. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span style="FONT-SIZE: 14pt; FONT-FAMILY: 'Arial Narrow'"&gt;De Espinho, de Almendra, mudei-me para o Porto, o que eu aprendia parecia-me que era o arrastar de uma espada do tamanho da que é atribuída a Afonso Henriques e está no Museu de Soares dos Reis. Ganhei mais o gosto da História e de alguns caminhos da Antropologia. Entrei para o &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal"&gt;Jornal de Noticias&lt;/i&gt;, em cujo suplemento literário já colaborava. Fiz a via-sacra dos hospitais, da morgue, dos acidentes, das lixeiras. A primeira grande entrevista foi com o Eugénio de Andrade. Eu já sabia que não levava a melhor com a puta da Censura, mas procurava iludi-la. Comecei a ir a Lisboa, onde conheci alguém que foi decisivo na minha vida de escritor, o Urbano Tavares Rodrigues. Colaborava no &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal"&gt;República&lt;/i&gt;. Em 1966, mando imprimir um livro de prosa poética, &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal"&gt;O Corredor&lt;/i&gt;, capa do Zé Rodrigues. A exemplo não sei de que poeta francês, queimei a edição toda! Nem um exemplar tenho, só quatro páginas de provas. Dois anos depois saiu &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal"&gt;Natureza Morta Iluminada&lt;/i&gt;, uma narrativa, 32 páginas, ilustrada pelo pintor Fernando de Oliveira, meu compadre. Irritei-me muito com um idiota a quem ofereci o livro e, dez dias depois, me disse que andava a lê-lo! Depois, de 1975 a 2003, estive no &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal"&gt;Diário de Notícias&lt;/i&gt;. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span style="FONT-SIZE: 14pt; FONT-FAMILY: 'Arial Narrow'"&gt;Fraternalmente, conto com o António Rebordão Navarro, o Marco, o Méndez Ferrín, o Francisco Duarte Mangas, o Fernando Lanhas e alguns outros mais. Em relevo tenho dívidas antigas com a Ana Hatherly, mesmo com o Michel Butor, e modernas com o José da Cruz Santos. Poderia contar mais coisas, mesmo sobre amigos deportados em campos de concentração nazis, mas para quê? E aqueles que ficaram pelo caminho?&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span style="FONT-SIZE: 14pt; FONT-FAMILY: 'Arial Narrow'"&gt;Bem, na verdade, há um estranho silêncio no teatro, afinal um dos muitos teatros que arderam sem eu ter dado por ela. Andei pelo mundo, entre bruxas da Chã de Ferreira e meigas galegas, escutei histórias mágicas por toda a parte, até contei caveiras nos &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal"&gt;tzompantlis &lt;/i&gt;e bailei o &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal"&gt;danzón&lt;/i&gt; em Veracruz, escrevi muitos livros, e apetece-me continuar a escrevê-los. Vivi intensamente o 25 de Abril, conheci a Liberdade. E fui vidente em Seide, vi Camilo à janela de sua casa quando lá fui receber o Grande Prémio do Conto por aquele livro &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal"&gt;Cenas da Vida de um Minotauro. &lt;/i&gt;Acenou-me, daí eu ter começado a falar logo com ele, o que levou os presentes – o Zé Manel Mendes, o Navarro, a Cristina Robalo Cordeiro e Aníbal Pinto de Castro – julgaram ser &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal"&gt;boutade&lt;/i&gt; e não era senão uma aparição pagã privada. Por isso, na &lt;b style="mso-bidi-font-weight: normal"&gt;&lt;i style="mso-bidi-font-style: normal"&gt;pedra&lt;/i&gt;&lt;/b&gt; de Seide apareceu o meu nome. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span style="FONT-SIZE: 14pt; FONT-FAMILY: 'Arial Narrow'"&gt;Andei pelo associativismo cultural, mas desencantei-me. Porém, estou encantado noutro nível, pois aos 60 anos, ainda agora cumpridos, continuo apaixonado e não só pela vida. E cá ando, atraído por pelos muitos rostos de um universo plural. A História parece que, cada vez me absorve mais, em termos de testemunho e de base para ficção, da Guerra Civil de Espanha aos campos de concentração. Depois, por um bando de sobrinhos, escrevo para a miudagem. E quando julgava que não tinha mais nada a fazer nessa área, a minha afilhada Francisca contratou-me para a ensinar a ensine a ler e, é claro, a missão está atribuída e não posso esmorecer ante quatro anos e meio de muito querer aprender. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span style="FONT-SIZE: 14pt; FONT-FAMILY: 'Arial Narrow'"&gt;Ah, mas afinal isto não é teatro coisa nenhuma, estou é encafuado no Quarto dos Santos. As lamparinas é que provocam estas visões e a herança das fábulas potencia a memória. E quanto não disse, sem o esconder! De quando em longe, sento-me à mesa com um bom amigo de infância, o Jorge Carvalho, da Quinta do Mocho. Ou com o meu irmão. Mas, nestas ladeiras que calcorreio por receita médica, penso muito nos que vão ficando pelo caminho – o Adriano, a Fernanda e o Fernando, a Maria Virgínia, o António Sampaio, o Egito, o Veiga Leitão, o Eugénio, o Companheiro Vasco, o Manuel Maria, o Uxio, tantos outros. Mas também penso na bela maneira de encarar a vida de uns amigos especiais – Francisco Mangas, que me ensinou a pescar, o Tony, um primo do fundo dos séculos, e o João Cid, pintor, poeta, neto do Manuel ‘intimo do António Nobre. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span style="FONT-SIZE: 14pt; FONT-FAMILY: 'Arial Narrow'"&gt;Ah, mas já não está aí ninguém? Pois, nunca aí esteve ninguém. Também me vou embora, só me resta ser o escritor e o &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal"&gt;bonhomme &lt;/i&gt;que sempre fui.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span style="FONT-SIZE: 14pt; FONT-FAMILY: 'Arial Narrow'"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt; TEXT-INDENT: 35.4pt; TEXT-ALIGN: justify" align="justify"&gt;&lt;span style="FONT-SIZE: 14pt; FONT-FAMILY: 'Arial Narrow'"&gt;Publicado no &lt;b style="mso-bidi-font-weight: normal"&gt;&lt;i style="mso-bidi-font-style: normal"&gt;Jornal de Letras&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;, Lisboa, 2005. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/24358457-114281410343852494?l=viale.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://viale.blogspot.com/feeds/114281410343852494/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=24358457&amp;postID=114281410343852494' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/24358457/posts/default/114281410343852494'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/24358457/posts/default/114281410343852494'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://viale.blogspot.com/2006/03/autobiografia-poderei-no-ter-sido.html' title=''/><author><name>Viale Moutinho</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-24358457.post-114281351005447520</id><published>2006-03-19T16:10:00.000-08:00</published><updated>2006-03-19T16:11:50.080-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Conto para crianças&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;font-size:130%;"&gt;&lt;strong&gt;A MENINA ARRANJADINHA&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;            A Aninhas é uma menina muito desembaraçada, embora, às vezes, tenha os seus momentos de preocupação. Ora, naqueles dias antes do Natal, quando se levantava pela manhã, corria ao calendário da cozinha a ver se já era dia 24.&lt;br /&gt;O primeiro dia de férias que viu foi o dia 20, depois, na manhã seguinte, era o 21.&lt;br /&gt;Na outra manhã depois apanhou um susto porque era outra vez 21, mas a mãe é que se esquecera de arrancar a folhinha. Para aflição e depois alegria da Aninhas, que não sabia o que estava a acontecer com o tempo, a avó Leocádia, quando foi tomar o comprimido do meio-dia, olhou para o calendário, pensou um bocadinho e exclamou:&lt;br /&gt;            - Ai, esta minha filha esqueceu-se de tirar a folha de ontem! – E piscando o olho para a neta disse-lhe – Hoje são 22.&lt;br /&gt;E arrancou a folha de 21.&lt;br /&gt;            A Aninhas ainda pensou que a avó lhe faria o favor de tirar mais duas folhas, mas viu que aquele dia era mesmo o 22 e não podia ser outro!&lt;br /&gt;            O que a Aninhas queria era chegar depressa a 24, pois à meia-noite, nem que estivesse a cair de sono, teria os presentes todos que encomendara. Assim, passava aqueles dias a folhear livros e a ver DVDs quase sem lhes prestar atenção. Na verdade, se depois dela ver um filme de desenhos animados lhe perguntassem pela história, não sabia, não lhe prestara atenção nenhuma. A Abelha Maia, por exemplo, vira esse filme quatro ou cinco vezes, mas não se lembrava de nada.&lt;br /&gt;            O Miguel, que é o irmão do meio, queria ver pela oitava vez o DVD Sozinho em casa, com o qual se divertia muito por causa das armadilhas que o rapaz pregava aos ladrões que lhe assaltaram a casa. Queria ver, mas não via, pois a Aninhas, andava sempre com os seus desenhos animados para trás e para a frente, a ver se o tempo passava. E aquilo de fazer zangar o Miguel era também para não dar pelo tempo a passar. Queria era o dia 24 de Dezembro.&lt;br /&gt;            Assim, o Miguel, que tem manias de diplomata, começou por pedir-lhe com toda a delicadeza que ela o deixasse mudar de filme, mas a mana mais nova só fazia que não com a cabeça. Depois ele disse que o Sozinho em casa era uma maravilha, que poderiam vê-lo os dois, que o menino que lá aparecia fazia umas armadilhas muito divertidas, que ela iria gostar, mas a Aninhas nem respondia, agora a fazer as vozes dos bonecos.&lt;br /&gt;            E o Miguel, sacudiu a sua delicadeza toda, decidindo, por fim, tentar assustá-la:&lt;br /&gt;            - Olha que, um dia, vêm cá as bruxas e levam-te! Estás a ser má comigo, Aninhas! Olha que as bruxas vão-te…&lt;br /&gt;            Mas, olhinhos a brilhar, sem os tirar das aventuras da Abelha Maia, a Aninhas, sorrindo, disse que não só não tinha medo de bruxas como até sabia uma coisa que não dizia a ninguém.&lt;br /&gt;            Muito intrigado, o Miguel quis que ela lhe dissesse:&lt;br /&gt;            - O que é que tu sabes e não dizes nada a ninguém?&lt;br /&gt;            - Ora essa! Se eu te dissesse aquilo que sei já não era o segredo que é!&lt;br /&gt;            - Mas dizes-me só a mim, que sou teu mano, e eu não digo nada a ninguém!&lt;br /&gt;            - Não digo.&lt;br /&gt;            - Porquê?&lt;br /&gt;            - Porque eu não quero é que tu saibas o que eu sei. Na verdade, posso dizer isto a toda a gente desde que ninguém te diga o que é!&lt;br /&gt;            O Miguel ficou a olhar para a Aninhas com uma cara de quem não estava a perceber mesmo nada. Passado um momento, calado, saiu do quarto dela e foi à sala, onde a Alexandra, que é a irmã mais velha, estava a ler um livro do Harry Potter.&lt;br /&gt;            - Posso interromper a tua leitura por um momento?&lt;br /&gt;            A Alexandra, que estava na página 214, a meio de um feitiço, meteu o  dedo indicador direito no sítio em que estava a ler e, tirando os óculos, olhou o irmão com ar interrogativo. Claro, se ele já interrompera a sua leitura com aquela pergunta, que falasse, pois a coisa que ela mais queria no mundo era continuar com a leitura daquele livro.&lt;br /&gt;            - A Aninhas tem um segredo!&lt;br /&gt;            - Ai tem? E o que é?&lt;br /&gt;            - Não me disse.&lt;br /&gt;            - Então…&lt;br /&gt;.           - Então queria pedir-te que fosses lá ver que segredo é.&lt;br /&gt;            - Para depois to dizer, adivinhei?&lt;br /&gt;            - Claro.&lt;br /&gt;            - Quando acabar de ler este livro trato disso.&lt;br /&gt;            - Falta-te muito?&lt;br /&gt;            - Vou na página 214.&lt;br /&gt;            - E quantas te faltam?&lt;br /&gt;            - Faz as contas, maninho. O Harry Potter e a Ordem da Fénix tem 750 páginas, já li praticamente 214&lt;br /&gt;            O Miguel abriu a boca admirado com o tamanho do livro que a irmã Alexandra andava a ler. Ainda quis contar pelos dedos, mas viu que não tinha tantos dedos assim. Nem que fosse uma centopeia que em cada uma das cem patinhas tivesse cinco dedinhos! Mesmo assim, pegou numa esferográfica e fez a conta, chegando à conclusão:&lt;br /&gt;            - 536 páginas! Ainda te faltam 536 páginas!&lt;br /&gt;            - Olaré!&lt;br /&gt;            - E quanto tempo demoras a lê-las? Até antes do jantar?&lt;br /&gt;            - São quatro e meia do dia 22 de Dezembro de 2003 – disse a Alexandra, a gozar as palavras que ia dizendo lentamente. – Olha, Miguelinho, passa por cá lá para o dia 29 ou 30 deste mês…&lt;br /&gt;            - Então não podes dar-me uma ajudinha, não?&lt;br /&gt;            A Alexandra abriu de novo o livro. Antes de mergulhar de novo na leitura, ainda deixou dito:&lt;br /&gt;            - Se tivesse sido há três meses, tinhas mais sorte…&lt;br /&gt;            - Porquê?&lt;br /&gt;            - Andava a ler o Harry Potter e a Pedra Filosofal, que só tinha 256 páginas!&lt;br /&gt;            O Miguel zangou-se mesmo:&lt;br /&gt;            - Pois, o que tu não queres é que eu veja o Sozinho em casa…&lt;br /&gt;            Com a atenção quase toda metida nas páginas do Harry Potter, a irmã mais velha acabou-lhe a frase:&lt;br /&gt;            - … pela vigésima vez!&lt;br /&gt;            Do quarto da Aninhas chegava a voz dela a imitar a Abelha Maia:&lt;br /&gt;            - Zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz!&lt;br /&gt;            O Miguel, com o DVD do Sozinho em casa debaixo do braço, voltou a apresentar-se ao pé da irmã mais nova:&lt;br /&gt;            - Queres vir para o terraço dar uns chutos na bola?&lt;br /&gt;            A Aninhas deixou de prestar atenção ao filme e perguntou:&lt;br /&gt;            - Vamos jogar futebol para o terraço?&lt;br /&gt;            - Vamos. Mas deixas-me ver o Sozinho em casa…&lt;br /&gt;            Bem via como aquilo ajudaria a fazer o dia andar mais depressa. Concordou:&lt;br /&gt;            - Está bem, mas vês o teu DVD depois do nosso jogo.&lt;br /&gt;            Com um gesto, que parecia mágico, ela retirou a Abelha Maia do leitor de DVDs e correu para a cozinha, a abrir a porta para o terraço, enquanto o Miguel ia ao quarto buscar a bola. A meio do caminho, a Aninhas parou e disse ao Miguel:&lt;br /&gt;            - Depois conto-te o segredo…&lt;br /&gt;            O irmão – ela bem o vira! – em vez de ir buscar a bola fora meter o Sozinho em casa no leitor. Ao ouvir aquilo, cheio de curiosidade, deixou-o logo e foi atrás da Aninhas. Mas ela dera meia volta e já estava sentada à mesa na cozinha a comer pão com fiambre, diante de um grande copo de leite. A mãe ficou surpreendida com aquele momento de paz e preparou mais pão e mais fiambre para o Miguel, assim como o tal copo grande de leite com umas colheres de chocolate.&lt;br /&gt;            - Contas?&lt;br /&gt;            - Conto.&lt;br /&gt;            - Ora conta.&lt;br /&gt;            - E jogas mesmo futebol comigo?&lt;br /&gt;            - Jogo.&lt;br /&gt;            - E deixas-me ganhar?&lt;br /&gt;            - Deixo.&lt;br /&gt;            - E eu sou do Benfica e tu és do Porto?&lt;br /&gt;            - Sim.&lt;br /&gt;            - E ganha o Benfica?&lt;br /&gt;            - Ganha.&lt;br /&gt;            - E o Porto perde com o Benfica?&lt;br /&gt;            O Miguel engoliu em seco e comentou:&lt;br /&gt;            - Estás a abusar, não estás? – Ele entendia que sim.&lt;br /&gt;            E a Aninhas, enquanto lanchava, muito senhora do seu nariz, contava:&lt;br /&gt;            - Sabes? É que não há bruxas más coisa nenhuma. E também não há mostrengos nem dragões!&lt;br /&gt;            O Miguel achava que, pelo menos, havia um dragão no mundo, que era o do FC do Porto, mas não disse nada.&lt;br /&gt;            - Os grandes é que gostam de nos meter medo! Eu sei muito bem que uma pessoa não pode transformar outra num sapo nem numa lagartixa! Era o que mais faltava, se pudesse! Nem há príncipes encantados, nem nada dessas coisas! Aquelas histórias das rainhas más...&lt;br /&gt;            - Pois era… Mas, e o segredo que tu me disseste?&lt;br /&gt;            - Ai, queres maior segredo do que este?&lt;br /&gt;            A mana mais nova estava com ar de caso. Como é que ela sabia aquilo tudo?&lt;br /&gt;            - O outro dia, estava a ajudar a Luciana - que era empregada lá de casa -, a limpar umas caixinhas de metal, daquelas da colecção do pai, e de dentro de uma que eu estava a esfregar saiu uma nuvem de fumo que se transformou num homem muito grande, de barbas e com um barretinho vermelho na cabeça.&lt;br /&gt;            - Estás a gozar comigo!&lt;br /&gt;            - Era um Génio Mágico…&lt;br /&gt;            - Para aí do Benfica, pela cor do barretinho…&lt;br /&gt;            - Isso já não sei, Miguel. Ele disse-me que fazia tudo o que eu quisesse e pedi-lhe que me respondesse a umas perguntas. Assim, fiquei a saber que não há bruxas nem nada dessas coisas, nem que houv feiticeiras, essas coisas! É tudo uma mentira pegada para as meninas e os meninos não se portarem mal.&lt;br /&gt;            - E que te disse mais o Génio Mágico?&lt;br /&gt;            - Que o meu irmão vai ser um grande jogador do…&lt;br /&gt;            - …Porto!&lt;br /&gt;            - Não, do Benfica!&lt;br /&gt;            O Miguel, desconfiado:&lt;br /&gt;            - Tens a certeza?&lt;br /&gt;            - Tenho. Mas para ti é melhor porque o Benfica é que tem futuro!&lt;br /&gt;            - Mas o Porto já é um grande clube!&lt;br /&gt;            - Ora! Ou acreditas no Génio Mágico ou não! Já ficas a saber que não há bruxas, que o Benfica vai ser o campeão, e que eu vou saber tudo!&lt;br /&gt;            - E como é que vais saber tudo?&lt;br /&gt;            - Ele deu-me uma bola de cristal.&lt;br /&gt;            O Miguel olhou em volta.&lt;br /&gt;            - Não a vejo aqui na cozinha e no teu quarto também não está.&lt;br /&gt;            - Pois não, porque é pequenina.&lt;br /&gt;            - Como uma noz?&lt;br /&gt;            - Como uma avelã.&lt;br /&gt;            - Emprestas-ma?&lt;br /&gt;            - Para quê?&lt;br /&gt;            - Para eu ser o melhor a Português, a Inglês, a Matemática... na bola...&lt;br /&gt;            - Não posso. Só dá resultado comigo, Miguel.&lt;br /&gt;             - E depois de ter falado contigo, o que é que o Génio Mágico fez?&lt;br /&gt;            - Foi para dentro da caixinha.&lt;br /&gt;            - O Pai tem cinquenta e sete caixinhas de metal, em qual delas está metido? Como é que sabes qual é?&lt;br /&gt;            - Vou passando o pano por todas, com aquele líquido próprio. Não é bem só passar o pano, é esfregar mesmo com força. Na próxima vez que as limpar, decerto o génio volta a sair para falar com quem esfregar a caixinha dele...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            No dia seguinte, depois do almoço, quando o pai perguntou à Aninhas se ela fizera o que ele lhe pedira, ela disse que, de certo modo, sim. O Miguel é que estava sem perceber aquela conversa. A Alexandra sorria, como se estivesse a lembrar-se da magia mais mágica do Harry Potter.&lt;br /&gt;            O pai abriu o armário da entrada e retirou para um tabuleiro as suas caixinhas de colecção. Estavam lindas, brilhantes, limpas. E logo disse:&lt;br /&gt;            - A Aninhas merece bem a caixa de chocolates pelo trabalho que fez! Uma limpeza muito bem feita!&lt;br /&gt;            E a Aninhas recebeu a caixa, foi sentar-se num dos sofás e logo dividiu os chocolates com o Miguel, que estava furioso, mas sem dizer palavra.&lt;br /&gt;            - Olha, Miguelinho, agora é que te vou dizer o melhor do segredo.&lt;br /&gt;            - E qual é? – perguntou o Miguel, que já não estava a gostar da brincadeira.&lt;br /&gt;            - Que mereces quase meia caixa de chocolates por teres limpo tão bem as caixinhas da colecção do pai.&lt;br /&gt;            - Mas tu ficaste com a maior parte...&lt;br /&gt;            - Foi pela lição! Andaste à procura do Génio Mágico…&lt;br /&gt;            - Mas ele não apareceu!!!&lt;br /&gt;            - Pois  não, nem a mim!&lt;br /&gt;            - Então…&lt;br /&gt;            - Então, sem quereres, fizeste-me um grande favor!&lt;br /&gt;            A avó Leocádia, que percebeu tudo o que se passara, soltou uma gargalhada e comentou:&lt;br /&gt;            - Ai esta minha neta Aninhas é uma menina muito arranjadinha!&lt;br /&gt;            De facto, arranjara com que se entreter aqueles dias! O tempo passara depressa, depressinha. Olhou para o calendário e disse à mãe que aquele dia se estava a acabar, pelo que poderia, desde já, tirar a folha do dia 23. Foi a avó Leocádia que estendeu a mão para o calendário. E naquele momento ouviu-se um barulhinho como se um balão se estivesse a esvaziar.&lt;br /&gt;            E eis que no meio da cozinha apareceu mesmo o Génio Mágico que, voltando-se para a Aninhas lhe perguntou:&lt;br /&gt;            - O que é que mais queres, menina?&lt;br /&gt;            - A meia-noite do dia 24 de Dezembro!&lt;br /&gt;            O Génio Mágico deu estalo com os dedos e a mãe da Aninhas levantou-se da cadeira, foi ao calendário e, enquanto arrancava, a folha do dia 24, dizia:&lt;br /&gt;            - Podem ir buscar as prendas à lareira, meninos.&lt;br /&gt;            Foram todos a correr para a sala. Ao pé da lareira, num monte que nunca mais acabava estavam caixas e mais caixas com lindos papéis e fitas. Prendas para a Aninhas, para os manos, para os pais e para a avó Leocádia. Esta foi a última a aproximar-se porque fora abrir a janela para o Génio Mágico poder sair dali para fora, em direcção ao seu país tão distante. Sentado no seu tapete voador, ele repetia as palavras da avó:&lt;br /&gt;            - Ai que menina tão arranjadinha...&lt;br /&gt;            &lt;/div&gt;conto inédito (2004)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/24358457-114281351005447520?l=viale.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://viale.blogspot.com/feeds/114281351005447520/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=24358457&amp;postID=114281351005447520' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/24358457/posts/default/114281351005447520'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/24358457/posts/default/114281351005447520'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://viale.blogspot.com/2006/03/conto-para-crianas-menina-arranjadinha.html' title=''/><author><name>Viale Moutinho</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-24358457.post-114280110492240665</id><published>2006-03-19T12:42:00.000-08:00</published><updated>2006-03-19T12:45:04.926-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;font-size:130%;"&gt;&lt;strong&gt;Curros traduz &lt;em&gt;Zara&lt;/em&gt; de Antero&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;No estudo das relações culturais entre a Galiza e Portugal há ainda muitas lacunas a preencher. Apesar de algumas boas vontades, apesar de algumas teses, somam-se os caminhos a percorrer. Gostaria, por exemplo, de lhes chamar a atenção para o excelente ensaio de Pilar Vazquez Cuesta, publicado na revista Grial nº 46, de Outubro-Dezembro de 1974. Intitula-se Curros, os escritores portugueses e o Ultimatum. Pois neste importante estudo há um anexo com textos de Curros publicados no El País nos anos de 1890 e 1891, sobre figuras republicanas portuguesas – Magalhães Lima, Guerra Junqueiro, Antero de Quental, Eça de Queirós, Teófilo Braga, Xavier de Carvalho, Camilo Castelo Branco, Oliveira Martins, António Feijó, Luís de Magalhães, Manuel Duarte de Almeida e Alves da veiga. Já é interessante o facto de todos eles serem maçons, tal como Curros. Mas vejamos Antero. Num telegrama do discreto poeta e memorialista português Luís de Magalhães ao director daquele jornal madrileno , onde o poeta galego trabalhava,  este toma conhecimento que Antero acabava de ser eleito presidente da Liga Patriótica do Norte. E escreve: «O homem a quem a republicana cidade do Porto&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn1" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=24358457#_ftn1" name="_ftnref1"&gt;[1]&lt;/a&gt; acaba de conceder nestes momentos de profunda crise para Portugal a honra de dirigir as correntes do sentimento popular, é seguramente um desconhecido para a maioria dos nossos leitores. Não há que estranhá-lo.(…) E, no entanto, Antero de Quental escreveu muito e pensou mais. Dificilmente existirá problema social, moral e metafísico a que não tenha consagrado longas horas de meditação e estudo, que não tenha destruído uma ilusão na sua alma e não tenha deixado um sulco na sua nobre testa.» Nestes termos apresentava o grande poeta, que pouco tempo antes estivera num colóquio no Ateneu de Madrid, foco cultural e socialista da capital do Estado Espanhol. &lt;br /&gt;Pois, dando uma volta pela livralhada, que me enche as estantes e o coração, dei com um livro de Antero, Zara de seu título. Encontrei a 2ª edição, de 1925, mas devo ter a 1ª, de 1894, algures. Trata-se de um poema em duas quadras. Zara era a irmã querida do poeta e erudito Joaquim de Araújo que, amigo de Antero, lhe pedira um poema à sua memória, no que foi correspondido. O ano passado morreu o o último boémio portuense, Basílio de Sousa Dias, sobrinho-neto de Araújo, cuja mãe já conheci com muita idade e se chamava Zara, em homenagem à tia, que falecera na adolescência. Pois este poema de Antero está na tumba dessa menina, no cemitério do Prado do Repouso, no Porto. Um dia destes irei lá tentar localizar a lápide com os versos.&lt;br /&gt;Ora esse livro de Antero é uma obra poliglota e saiu três anos após a morte do seu autor, decerto dos primeiros a corresponder à solicitação de Araújo, que o afanosamente o organizou. Ora, através dele, podemos avaliar o sentido de Curros como tradutor de português, cujo original é: «Feliz de quem passou, por entre a mágoa/ E as paixões da existência tumultuosa,/ Inconsciente como passa a rosa,/ E leve como a sombra sobre a água.// Era-te a vida um sonho: indefinido/ E ténue, mas suave e transparente,/ Acordaste… sorriste… e vagamente/ Continuaste o sonho interrompido.» Datado de 26 de Janeiro de 1880, o poema demorou mais de uma dúzia de anos a ser traduzido em quase meia centena de idiomas - incluindo o galego, o asturiano, o euskera, o catalão, o maiorquino, o calabrês, o romanhol, o valão, o árabe, o mirandês, o russo, o daco-cigano e o hebraico, para não dizer mais!&lt;br /&gt;Eis o texto galego de Curros do poema português de Antero:&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt;Ditoso quen pasou por entr’a magoa&lt;br /&gt;I-as pasions d’a existenza tormentosa,&lt;br /&gt;Deporcatado, como pasa a rosa&lt;br /&gt;E leve como a sombra sobr’agoa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era tua vida un sono indefinido&lt;br /&gt;E tenue, pero doce e transparente,&lt;br /&gt;Acordache… sorriche… e vagamente&lt;br /&gt;O sono continuache interrumpido.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn1" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=24358457#_ftnref1" name="_ftn1"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;[1]&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt; E Curros mal imaginava que a 31 de Janeiro do ano seguinte se daria efectivamente no Porto a primeira revolta republicana portuguesa. Aliás, também foi pelo círculo do Porto eleito o primeiro deputado republicano no parlamento monárquico. Tratava-se de Rodrigues de Freitas, economista e jornalista, cuja tumba esta praticamente abandonada no cemitério do Prado do Repouso, no Porto. Esquecimentos da República… &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;publicado no jornal &lt;strong&gt;&lt;em&gt;A Nosa Terra&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;, Vigo, 2005.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/24358457-114280110492240665?l=viale.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://viale.blogspot.com/feeds/114280110492240665/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=24358457&amp;postID=114280110492240665' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/24358457/posts/default/114280110492240665'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/24358457/posts/default/114280110492240665'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://viale.blogspot.com/2006/03/curros-traduz-zara-de-antero-no-estudo.html' title=''/><author><name>Viale Moutinho</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-24358457.post-114280095419019348</id><published>2006-03-19T12:41:00.000-08:00</published><updated>2006-03-19T12:42:34.193-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;font-size:130%;"&gt;&lt;strong&gt;O primeiro filme português de ficção&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;O protagonista do primeiro filme português de ficção chamava-se Diogo Alves e terá nascido em 1810 na paróquia de Santa Gertrudes, no bispado de Lugo. Conto que o meu querido amigo Dario Xhoan Cabana se dê ao trabalho de, quando lhe sobrar tempo, tirar esta naturalidade a limpo. O pai era Anselmo Alves e a mãe Rosa Alves. Leite Bastos (1841-1886) escreveu um romance de aventuras intitulado Crimes de Diogo Alves (ed. 1877), integrado na colecção Flores Românticas! Pai da literatura de género em Portugal, Leite Bastos assentou a sua obra no próprio processo de Diogo Alves e na imprensa da época. Esta, em 1836, começou a registar o aparecimento de cadáveres sob as arcadas do aqueduto das Águas Livres, ainda hoje em pé, nas imediações da Ponte 25 de Abril. Em Lisboa, naturalmente. Vejamos esta figura de galego que não se contentou com o futuro de infeliz migrador, traçados pelos seus pais. Mas, antes do mais, uma nota sobre o aqueduto.&lt;br /&gt;         A falta de água sempre foi um drama em Lisboa. Agravou-se no séc. XV, pelo que as pessoas tinham de fazer grandes filas de espera junto dos poucos poços e chafarizes da capital. Isto levava a cenas de pancadaria, por vezes até à morte! Dizia-se «que se ia por água e se regressava com sangue»! E a verdade é que o problema da água em Lisboa só poderia ser resolvido com um aqueduto, o qual acabaria por ser construído no reinado D. João V, porém a expensas do próprio povo de Lisboa. Assim, no Arco das Amoreiras foi posta uma inscrição que dizia: "No ano de 1748, reinando o piedoso, feliz e magnânimo Rei João V, o Senado e povo de Lisboa, à custa do mesmo povo e com grande satisfação dele, introduziu na cidade as Águas Livres desejadas por espaço de dois séculos, e isto por meio de aturado trabalho de vinte anos a arrasar e perfurar outeiros na extensão de nove mil passos." Porém, no reinado seguinte, o de D. José I, o primeiro-ministro Marquês de Pombal mandou substituir essa inscrição por esta: "Regulando D. João V, o melhor dos reis, o bem público de Portugal, foram introduzidas na cidade, por aquedutos solidíssimos que hão-de durar eternamente, e que formam um giro de nove mil passos, águas salubérrimas, fazendo-se esta obra com tolerável despesa pública e sincero aplauso de todos." Assim, não se sabia que, efectivamente, fora o povo a pagar! Logo em 1748 as águas já corriam no novo aqueduto, mas só em 1799, 67 anos depois do início da construção, é que a obra se concluiria.&lt;br /&gt;        Foi nesta altura que surgiram os famosos aguadeiros, na sua maioria galegos, que transportavam pelas ruas de Lisboa barris de água que vendiam pelas casas. Abasteciam-se nos chafarizes e depois lançavam os seus pregões: "Há água fresquinha! Quem quer, quem quer?"&lt;br /&gt;         Ora, conta Leite Bastos, quando o Diogo Alves «esteve em estado de pegar num barril, foi mandado para Lisboa com outros vizinhos. Na véspera confessou-se e despediu-se dos parentes». A mãe disse-lhe:«Vai-te, filho, e pega-te a Nossa Senhora!» E as noticias que chegavam a Santa Gertrudes lá do galeguinho em Lisboa eram as melhores, que trabalhou sempre nas melhores casas fidalgas da capital. Até que nunca mais escreveu a dar noticias. Estava já com as piores companhias e era amante da Parreirinha, uma taberneira facinorosa, que o precipitou no crime. E, um triste dia, Diogo Alves arranjou uma chave do aqueduto e passou a fazer dele o seu campo de caça aos desgraçados que andavam com dinheiro próprio e alheio. Gente assaltada, voava lado alto ao empedrado do caminho. Os jornais diziam que era uma corrente de suicídios. Mas tudo acabou por descobrir-se, entre denúncias e investigações. E Diogo Alves e os seus cúmplices foram condenados. Ele à forca e os outros ao degredo.&lt;br /&gt;Curiosamente, as tristes aventuras de Diogo Alves constituiram o primeiro filme de ficção português, em 1907, realizado por Lino Ferreira, que fixou incompleto… porque os actores embarcaram quase todos para o Brasil quando menos se contava! Voltaria o filme a ser realizado, desta vez por João Tavares, em 1911. Ainda há cópias na Cinemateca Nacional.&lt;br /&gt;         Um dia voltaremos a isto.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;crónica publicada em A Nosa Terra, Vigo, 2005.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/24358457-114280095419019348?l=viale.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://viale.blogspot.com/feeds/114280095419019348/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=24358457&amp;postID=114280095419019348' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/24358457/posts/default/114280095419019348'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/24358457/posts/default/114280095419019348'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://viale.blogspot.com/2006/03/o-primeiro-filme-portugus-de-fico-o.html' title=''/><author><name>Viale Moutinho</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-24358457.post-114280086469003267</id><published>2006-03-19T12:39:00.000-08:00</published><updated>2006-03-19T12:41:04.693-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;font-size:130%;"&gt;&lt;strong&gt;Luís Padrón, meu guia ourensano&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Há quantos anos não nos vemos! Devo a Luís Padrón, lá pela primeira metade dos anos 70 o conhecer os descaminhos que vão de Ourense a Ribadavia. E digo descaminhos e não caminhos porque, na realidade, eram mesmos descaminhos. Assim, conheci a alma galega ourensana antes mesmo de aprofundar qualquer leitura sistemática deste ou daquele escritor, não importa qual. Com o Luís Padrón, que guiava o automóvel mais pequeno que eu vira na vida até aí, conheci os sólidos e os líquidos de uma Galiza profunda e umas quantas figuras singularíssimas. Até da pequena política local. Como daquela noite em que me foi mostrar a igreja do Carballiño, o meu primeiro encontro com a arquitectura de Palácios. Às tantas, lembrou-se que era amigo do alcalde e devíamos ir beber uns copos e comer peixe do rio a determinada taberna. Ora o alcalde, naquela época, tinha sido pai há pouco tempo e a família não gostava que ele saísse à noite. Mas nessa noite saiu.&lt;br /&gt;            Padrón, com o ar mais formal do mundo, telefonou-lhe para casa com o recado, creio que foi a sogra a atender, de uma reunião extraordinária no axuntamento, em que se requeria a sua presença tutelar. Boa desculpa! E de casa lá o viram sair directamente para o axuntamento, que ficava do outro lado da praça. Só não o viram sair logo pelas traseiras e entrar no automóvel de Padrón onde, apesar da exiguidade, cabia sempre mais um! E lá fomos. Creio que para Barbantes, onde o tinto era de excepção.&lt;br /&gt;            À meia-noite, a empregada que nos atendia não teve dúvidas em comunicar que por ordem do alcalde a taberna teria de encerrar àquela hora, pelo que nos deveríamos retirar. Ora o alcalde resolveu a questão, pois foi numa folha do meu bloco-notas que redigiu ali mesmo um bando especial em que a tal taberna só fecharia à hora em que o nós os três nos retirássemos, mesmo depois da meia-noite...&lt;br /&gt;            Seria uma e tal da manhã – já estão a ver que a reunião no axuntamento de Carballiño se prolongou bastante! – bateram à porta. Eram dois guardas civis dispostos a multar a taberna, com licença do senhor alcalde. Este mostrou um rosto comicamente severo por eles desconhecerem o bando especial, que suspendia temporária e localmente o figurava no jornal oficial, e que estava bem á vista, preso debaixo de uma jarra de flores!&lt;br /&gt;            Os guardas civis pediram desculpa e tentaram bater em retirada quando o alcalde disse que tal desconhecimento era grave e merecia punição, pelo que os mandou sentar a uma mesa e servir-lhes uma garrafa de vinho e empanada, decisão que eles acataram com ar bastante sério, para não dizer cerimonioso.&lt;br /&gt;            Ora, cada vez que este cronista se apresentava em Ourense era acelerada a confecção da edição de La Región, a cargo do Luís Padrón, era acelerada. Que a versão antiga do Bar Orellas estava sempre à nossa espera, com Ribeiro e orelhas de porco e pão, que era um louvar aos deuses Baco e Bácoro! Íamos também ao Ó Vólter, onde o Tucho tinha sempre umas grandes conversas connosco e regia o seu bar como se fosse uma universidade popular em que ele era titular de todas as cadeiras do saber!&lt;br /&gt;            Recordo-me que, na altura, havia no Porto uma espécie de moda brincalhona em que se tratava toda a gente por arquitecto! E eu levei aquilo comigo uma vez que fui a Ourense. Pois entrámos, Padrón e eu no Vólter e reparamos que junto do balcão estava o chaval empregado de Tucho e um bando de rapazes da idade dele. E eu saudei, sem pensar no que dizia:&lt;br /&gt;            - Adeus, arquitecto!&lt;br /&gt;            Admiração de todos os rapazes. Porém, um dos do grupo avançou até a mim e perguntou-me, muito desconfiado:&lt;br /&gt;            - É então verdade o que nos disse o Suso? Que em Portugal os chavales dos bares são todos tratados de arquitectos?&lt;br /&gt;            Quem iria desembrulhar aquele equívoco que deixava tão importante o chaval do Ó Vólter? Pois eu não. Nem o Padrón! E como nos rimos mais tarde com o velho Tucho, tendo como cenário a alegoria à Porta de Palha do velho Risco!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;publicado em &lt;em&gt;A Nosa Terra&lt;/em&gt;, Vigo, 2005.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/24358457-114280086469003267?l=viale.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://viale.blogspot.com/feeds/114280086469003267/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=24358457&amp;postID=114280086469003267' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/24358457/posts/default/114280086469003267'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/24358457/posts/default/114280086469003267'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://viale.blogspot.com/2006/03/lus-padrn-meu-guia-ourensano-h-quantos.html' title=''/><author><name>Viale Moutinho</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-24358457.post-114280074766678564</id><published>2006-03-19T12:35:00.000-08:00</published><updated>2006-03-19T12:39:07.676-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;font-size:130%;"&gt;Parnaso luso-galego-brasileiro&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;Aqui há uns anos, consultando o espólio de Teófilo Braga, na biblioteca municipal de Ponta Delgada, nos Açores, chamou-me a atenção o relacionamento que ele tinha com alguns escritores galegos. Recordo-me de Emília Pardo Bazán, com quem não se conseguia encontrar em Lisboa, pois quando ele a procurava ela não estava no hotel, em que se hospedava, e vive-versa, para desencanto de ambos. Havia uma série de bilhetinhos de D. Emília para Teófilo que o atestavam, assim como alguma correspondência com Filomena Dato e um cartão de visita de Pondal, extremamente formal. Não me recordo de mais nada relevante, ainda que me pareça que Teófilo Braga, que foi o primeiro presidente da República Portuguesa, se tivesse carteado com Curros, embora não tenha encontrado nada que o prove. Que de Curros com portugueses, até agora, encontrei uma carta para o poeta simbolista Eugénio de Castro e uma vintena para Luís de Magalhães, um compagnon de route da geração portuguesa de 70. Ora esta nota de hoje servirá para lhes dar notícia de uma curiosa presença de escritores galegos num livro de Teófilo Braga.&lt;br /&gt;            Trata-se do Parnaso Português Moderno, antologia organizada e amplamente prefaciada por Teófilo Braga, publicada em 1877. Os poetas portugueses incluídos são Garrett, Castilho, Herculano, João de Lemos (com o seu inevitável A Lua de Londres), Gomes Leal, Soares de Passos, Júlio Dinis, Bulhão Pato (um caso singularíssimo de poeta cuja fama de um prato de ameijoas, por ele concebido, suplantou o da sua obra poética e memorialística!), João de Deus, Antero, Junqueiro (curiosamente com um poema dedicado a uma locomotiva!), João Penha e mais uns quantos poetas geralmente tidos como menores. Juntou-lhes o antologiador uma mão-cheia de brasileiros, em que se destacam Gonçalves Dias, Casimiro de Abreu, Fagundes Varela, Castro Alves, Bernardo Guimarães e Machado de Assis (estes dois prosadores, isso sim, de mão inteira), bem como Gonçalves Crespo, poeta português nascido no Brasil e reivindicado pela Literatura portuguesa. Uma terceira parte completa o volume, Os Líricos Galegos. E quem são estes?&lt;br /&gt;            Pois, Rosalia de Castro, aliás Rosalia de Castro de Murguia,com quatro poemas – Airiños, airiños, airiños, seguido de Cantar Gallego, Cantam os galos pró dia e Un repoludo gaiteiro. De recordar que Rosalia ainda era viva neste ano em que se publicou o Parnaso. Segue-se o ferrolano Alberto Camino (1820-1861), salvo do esquecimento pela tese de doutoramento de Dobarro Paz. Além de um outro, esse esquecido, Ruiz Aguilera, mais cinco poemas de Valentin Lamas Carvajal. E, assim como Teófilo  juntou à secção brasileira quase uma dezena de cantos populares, também deu uma razoável amostra de textos folclóricos galegos. Desta retiro duas quadras, publicando-as com a ortografia que apresentam:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                     &lt;em&gt;   Miña nai doume unha tunda&lt;br /&gt;                        Co aro d’unha peneira,&lt;br /&gt;                        Miña nai tende vergonza&lt;br /&gt;                        Da gente que vem da feira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                        En bem vin estar ó crego&lt;br /&gt;                        Tendendo nos cuiriños;&lt;br /&gt;                        Dixeu entre Dios e min:&lt;br /&gt;                        Este crego tem miñinos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;            Bem, e vou fazendo as contas de há quanto tempo não se reúne assim uma comunidade literária, seja um Parnaso com poetas da velha Galécia e dos seus mais directos herdeiros, os brasileiros!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;         publicado no jornal &lt;em&gt;A Nosa Terra&lt;/em&gt;, Vigo.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/24358457-114280074766678564?l=viale.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://viale.blogspot.com/feeds/114280074766678564/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=24358457&amp;postID=114280074766678564' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/24358457/posts/default/114280074766678564'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/24358457/posts/default/114280074766678564'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://viale.blogspot.com/2006/03/parnaso-luso-galego-brasileiro-aqui-h.html' title=''/><author><name>Viale Moutinho</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-24358457.post-114279976434356008</id><published>2006-03-19T12:19:00.000-08:00</published><updated>2006-03-19T12:22:44.360-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Conto &lt;strong&gt;A ILHA DE SAN SIMÓN&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Sediam eu na ermida de San Simón,&lt;br /&gt;e cercaronn-m’as ondas, que  grandes son,&lt;br /&gt;en atendend’o meu amigo!&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;da Cantiga 438 do Cancioneiro da Vaticana&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Mendinho&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Frei Anacleto de Santa Maria levou a espingarda à cara, olhou o rouxinol que cantava no ramo mais baixo da figueira-brava, a cinco metros do lugar onde se encontrava, apontou e puxou o gatilho. A avezinha desfez-se com a nuvem de chumbo grosso que a atingiu. Então, o bosque ficou silencioso, um silêncio de animais calados pelo medo, mal interrompido pelo repicar longínquo de um sino, o da capela do convento ou da igreja matriz de San Adrián de Cobres? Porém, escutavam-se as ondas, mas que é o marulhar senão um dos rostos do próprio silêncio?&lt;br /&gt;«Que dia é hoje?» interrogou-se o frade, passando a manga do hábito pelo rosto molhado de suor. «Que dia é hoje?» Fez saltar o cartucho vazio e substituiu-o por outro, calando-se o sino embora os bichos do bosque continuassem na expectativa. Pelicanos, flamingos, patos e outros animais de pena cujos nomes ele conhecia em latim, platalea leucorodia, isobrychus minutes, anas platyrhynchas, que mais? A voz mecânica da arma a abrir e a fechar não alcançara o eco. «Que dia é hoje?»&lt;br /&gt;Atento como um lobo, Frei Anacleto de Santa Maria observou os ramos das figueiras bravas e apeteceu-lhe entoar a cantiga do Figueiral-figueiredo, um romance que aprendera com o irmão Pacheco de Santa Iria, que servia na cozinha do convento. «Que dia é hoje? O dia de San Simón?» E desenhou a ilha no chão de terra da pequena clareira, arredando a caruma com a coronha da espingarda. Nunca mais escutaria o canto daquele maldito pássaro enganador, nunca mais deambularia pelos séculos como se se tratasse de um louco sem tempo e, afinal, com o tempo todo do mundo. Depois? Depois escondeu-se entre os arbustos porque o vento lhe trazia o ruído surdo de um barco a remos procedente de Redondela, um barco carregado de gente, alguma dela empunhando espingardas, vociferando, outra cabisbaixa, muda.&lt;br /&gt;«Que dia é hoje?» continuava a interrogar-se o frade, agora colado ao chão, embora não sendo preciso porque decerto – e como se enganava - ninguém poderia ver quem quer que fosse que não respeitasse as regras do tempo, galgando-o em jornadas para a qual ele não necessitaria da espingarda de dois canos carregada com chumbo grosso.&lt;br /&gt;        &lt;br /&gt;         Na verdade, o que se chama Ilha de San Simón são duas ilhas, a de San Simón propriamente dita e a de San António, ligadas entre si por uma pequena ponte de três arcos. E ainda há mais dois ilhotes, o Lobeira e O Cobreiro, mas esses nunca contam. A de San Simón é a maior das duas ilhas e, semioculta pelo arvoredo, tem uma casa grande, que serviu para posto médico, enfermaria, agora para dependências administrativas, estantes e secretárias, abarrotadas todas de pastas com processos em que se dispõe da vida de centenas de pessoas. «Que pessoas são estas?» O frade circulava pelos corredores sem que ninguém se apercebesse da sua presença. Era gente fardada, disforme, armada, que pigarreava para se dar ares de importância, cuspia nas paredes, fumava e deixava as pontas fumegantes nos buracos das paredes, nos beirais das bacias e das janelas. A cada instante erguiam o braço direito, a mão, amostrando como estava vazia, para diante, exclamando a saudação «Viva Franco! Arriba España!»&lt;br /&gt;         Na ilha de San Antonio havia uma ermida, a dos sinos, mas os sinos não se viam, apenas se escutavam, e um cemitério pequeno, de terra sempre  revolvida, túmulos muito antigos de frades e de piratas, também duas ou três covas de grande profundidade para onde lançavam corpos, os corpos dos mortos, dos decapitados pelos sarracenos, dos fuzilados pelos franquistas, e cal, cal viva por cima deles, para que nada restasse. Tudo isso aprendeu Frei Anacleto, atónito por ali ter vindo parar nas suas jornadas pelo tempo, a contas com o canto do rouxinol que acabava de abater, com uma raiva que, afinal, tanto tempo guardara no fundo de si. «Que tempo é este?» Viu-se de espada em punho atravessando, num gesto furioso, os corpos de dois soldados do corsário Francis Drake. Cantara então o rouxinol e logo o frade achou-se de mãos ensanguentadas na cerimónia da inauguração do mosteiro franciscano de San Simón, ante o olhar estupefacto de Maximiliano de Áustria, bispo de Santiago. Com que então ali era o tal pedaço de paraíso quer pela santidade do lugar quer pela formosura do sítio, como asseverara D. Fernando de Andrade y Soutomayor, outro arcebispo compostelano? Sem saber se havia de rir se chorar, o frade deixou-se cair de bruços no solo. Mas logo lhe apareceram dois soldados que, em Dezembro de 1938, lhe apontavam as suas armas.&lt;br /&gt;         «Quem és tu? Levanta-te!»&lt;br /&gt;         Ergueu-se. Olhou os soldados, valeria a pena contar-lhes a verdade? Sentiu seus os dizeres que Mendinho colocara na boca daquela rapariga:&lt;br /&gt;E cercaron-me as ondas, que grandes son,&lt;br /&gt;non ei barqueiro, nem remador:&lt;br /&gt;eu atendend’o meu amigo!&lt;br /&gt;Bem se apercebia, morto o rouxinol:&lt;br /&gt;      &lt;em&gt; …cercaron-me as ondas, que grandes son&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Arrependeu-se da sua imprudência, sobretudo por se ter livrado da espingarda, teria um cartucho para cada um. Apesar de tudo, aqueles pobres diabos, instigados, poderiam fazer o que os franceses não haviam feito em Redondela: deitaram fogo a Redondela e exercitaram a sua desumanidade nos doentes que ali tinham ficado. Arrastaram pelas ruas algumas daqueles infelizes arrancando-lhes as entranhas, a outros rasgando a boca até às orelhas, violaram as velhas doentes até á morte e profanaram as igrejas devastadas com refinadíssima depravação&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn1" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=24358457#_ftn1" name="_ftnref1"&gt;*&lt;/a&gt;. Fazer entender aquela gente que se transformara em Frei Anacleto de Santa Maria depois de chegar á conclusão de que nunca mais poderia voltar a ser quem era? Ora, em meados do século XVIII, quando os ingleses assaltaram a Ilha de San Simón, leu mais tarde: os religiosos tomaram a comunhão, fugiram com os vasos, imagens e coisas sagradas, desamparando o convento; menos um religioso de tanta coragem, que ainda que velho, arriscou a vida no acto de ficar, tendo sido apanhado por um dos hereges, que lhe deu muitas facadas na cabeça e num braço; teria acabado o lobo com aquela triste ovelha se outro de menos crueldade não se apiedasse para lho tirar das garras. Queria o tirano encontrar tesouros num convento de S. Francisco, e como não o achasse, apagava a sua sede com o sangue daquele pobre cordeiro. Ficou finalmente vivo para contar as abominações que vira na casa de Deus tornada cavalariça pelos hereges&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn2" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=24358457#_ftn2" name="_ftnref2"&gt;**&lt;/a&gt;. Essa era a sua história, não lhe mencionava o nome, mas reconhecia-se nela. Cantara o rouxinol quando ele se encontrava prostrado e acordara em casa de um cirurgião de Redondela, por certo muitos anos mais tarde, que lhe cosera os ferimentos e o deixara salvo num pequeno barco que o levaria a San Simón. E de novo os trinados da avezinha o colocaram a porta do mosteiro, sendo mal recebido pelo porteiro, que o tomou por impostor. Mas teria de ficar para todo o sempre naquela ilha?&lt;br /&gt;Os dois soldados eram loiros, pequenos, gordos, um deles tinha uma cicatriz na testa.&lt;br /&gt;         «Um frade, Ramón! Mas é mesmo um frade!»&lt;br /&gt;         «E dos antigos, mesmo dos antigos!»&lt;br /&gt;         «Como chegou até aqui, irmãozinho?»&lt;br /&gt;         Poderia contar-lhes que, uma vez mais, cantara o rouxinol, que o canto do rouxinol o fazia deambular pelos corredores daquela casa imensa onde havia alguém que mandava em todos os relógios e nas folhas dos calendários, alguém que se fazia tratar por deus. Um dos soldados lembrou-se:&lt;br /&gt;«Deus pode aparecer-nos à vista desarmada?»&lt;br /&gt;         Um dos soldados encostou a espingarda a uma árvore e desdobrou um lenço enorme, aos quadrados, diante do frade, começando a esfregar a cabeça com aquele tecido grosseiro, onde havia ranho seco.&lt;br /&gt;«Deus pode aparecer-nos à vista desarmada, irmãozinho?»&lt;br /&gt;         Frei Anacleto encolheu os ombros e olhou de revés para o arbusto sob o qual ocultara a espingarda com que desfizera o rouxinol. Deu uns passos em direcção aos guardas.&lt;br /&gt;         «Agustín! Agustín!» os berros vinham do outro lado do arvoredo. E logo apareceram seis soldados mais, de arma ao tiracolo, surpreendendo-se o grupo com o frade desconhecido. Um dos recém-chegados ajoelhou ante Frei Anacleto e beijou-lhe o hábito. O frade ajudou-o a levantar-se.&lt;br /&gt;         «Valha-me Deus, caralho!» os impropérios saíram da boca de um que tinha divisas de cabo. «Como aparece este frade à antiga aqui na ilha? Veio com quem, rapazes?»&lt;br /&gt;         «Sempre aqui vivi», disse em voz baixa e firme o frade, sabendo que ninguém o acreditaria. O mosteiro subterrâneo de San Simón não deveria ser conhecido daqueles soldados, nem mesmo dos graduados. Saberiam, quando muito, a localização da capela e do cemitério. Apareciam mais tropa, soldadesca, entre eles um tenente, já entrado em idade.&lt;br /&gt;         «E vive aqui sozinho? Há quanto tempo?» Se lhe respondesse com verdade, decerto esvaziariam nele as espingardas, com a raiva que revelavam.&lt;br /&gt;«Vamos levá-lo ao padre Nieto, que ele lá saberá melhor do que nós estas coisas das missas…»&lt;br /&gt;         Ao principio de uma alameda abobadada de buxo surgiu um rapaz a correr, a dizer-lhes que se apressassem se queriam chegar a tempo do começo da missa. O frade e o padre Nieto conversariam no final. A missa era campal e todos os presos formados numa clareira ante um altar. A um lado, estavam as Irmãs de Caridade, surpreendendo-se Frei Anacleto em as ver naquilo em que parecia estar transformada a ilha, numa prisão. Em torno de todos, mais soldados e, numa torreta sobranceira, uma metralhadora assente num tripé. Para Frei Anacleto tudo aquilo era demasiado estranho, habituado apenas ás missas diárias no pequeno espaço da ermida de San Simón e, de quando em longe, em Redondela ou em Cobres, na passagem da Primavera ao Verão, as missas campais mas sem soldados por perto.&lt;br /&gt;         Em dada altura, do edifício maior saiu uma figura enorme, rosto sanguíneo, paramentos a roxo e dourado, estola apanhada a um lado pela coronha de uma pistola, cujo cano o padre entalara no cinturão. Era o padre Nieto que, avisado da presença do frade, a ele se dirigiu com maus modos:&lt;br /&gt;         «Disseram-me que sempre viveste aqui, é verdade?»&lt;br /&gt;         «Sim, é verdade.»&lt;br /&gt;         «E onde vivias?»&lt;br /&gt;         «No mosteiro…»&lt;br /&gt;         «E onde raio está o mosteiro?»&lt;br /&gt;         «Muito perto daqui. Trata-se de um mosteiro subterrâneo.»&lt;br /&gt;         «E é grande a comunidade?»&lt;br /&gt;         Frei Anacleto ficou atónito. Não poderia revelar, a menos que quisesse passar por louco, as suas andanças pelo tempo cada vez que cantava o rouxinol. Morto o rouxinol, escondida a arma, o que o poderia arrancar do convívio daquela gente, que parecia odiar quantos se  encontravam na clareira, cercados pelos soldados, vigiados pela metralhadora, disponíveis para missa que o padre Nieto iria celebrar. Um oficial interpôs-se entre o frade e o padre, dizendo a este que não podia ter os soldados muito mais tempo ali, que despachasse a missa o mais rapidamente possível. O padre desinteressou-se da localização do mosteiro e dirigiu-se ao altar. Uma banda tocou o Cara el sol e o padre bradou aos prisioneiros:&lt;br /&gt;         - Incendiários! Assassinos! Violadores! Ladrões! Preparai-vos para ouvir a palavra do Senhor!&lt;br /&gt;         Estarrecido, Frei Anacleto afastou-se do recinto e decidiu aguardar o final da cerimónia junto à praia. Havia uma pequena encosta escondida por alguns pedregulhos. Aí foi dar com dois prisioneiros velhos que assavam uma rata grande como um coelho e se dispunham a devorá-la, perdidos de fome como se encontravam. Viram-no, retraíram-se, por fim convidaram-no, mas o frade regressou à missa campal, onde o padre Nieto já abençoava os presentes com um gesto rápido. E ao desfazer-se a multidão, correu a palavra ter aparecido um homem enforcado num buxo, suspenso pelo próprio cinto, e foram vê-lo.&lt;br /&gt;        &lt;br /&gt;         Na casa grande, que fora a sede do Lazareto, Frei Anacleto almoçou com o padre Nieto e alguns oficiais. Nunca falaram dos prisioneiros, como se eles não existissem. E estavam numa ilha que era um campo de concentração para presos políticos. Na semana anterior mudara a direcção, pois um dos responsáveis do campo fora fuzilado após sumaríssimo processo. Ele e o médico tinham um jogo com as famílias dos presos. Por uma determinada quantia dispunham-se a libertar os raros que ali estavam para quem chegara mandado de soltura e recebiam quantias para dar saída a outros, muitas vezes quando eles já haviam sido fuzilados dois ou três dias antes. Alguém denunciara a situação e o caso era excessivamente escandaloso para ficar em branco.&lt;br /&gt;         Alguns oficiais estavam nervosas, haviam-se lembrado dos galeões espanhóis afundados ali diante da ilha, numa batalha naval terrível com uma armada inglesa. Os tesouros do Novo Mundo estavam no fundo da Ria de Vigo, mas fora da mão dos homens. Alguns alvitravam construir uma grande bolha de ar que se pudesse regular, na profundidade do mergulho, mas seria impossível iluminá-la para que os seus ocupantes inspeccionassem o fundo da ria. Um tenente tinha as Vinte mil léguas submarinas sublinhado na parte mais importante, quando Verne punha o capitão Nemo a dizer que contava com aquelas preciosidades para a sua aventura.&lt;br /&gt;         Para o frade, os tesouros de Rande não eram atractivos, no entanto seduzia-o a ideia de viajar até ao dia da batalha naval para ver aonde se haviam afundado os galeões. A partir daí poderia investir na sondagem nos locais certos. Mas nunca chegara a visitar as profundezas. Houve um período em que visitou Santiago como um dignitário da igreja, recuperando os favores da hierarquia religiosa.&lt;br /&gt;         Na companhia do soldado Ramón, Frei Anacleto de Santa Maria percorreu San Simón e San Antonio. Não tendo surgido nenhum rouxinol, apelou para qualquer outra ave canora de que se pudesse socorrer em critérios de fuga. Mas parecia não os haver na ilha naquela época. O rouxinol que estourara devia ser uma alma sua perseguidora. Pelo menos nenhum outro aparecia. O soldado Ramón, em dada altura, apareceu-lhe com um morcego que guinchava aflitivamente:&lt;br /&gt;         «Servirá?»&lt;br /&gt;        &lt;br /&gt;E assim, naquele enredo de entardecer, ambos se aproximaram da ponte que levava à ilha de San António. Numa ramagem que se estendia às guardas, subitamente cantou um rouxinol. Foi quanto bastou para que o soldado Ramón ficasse atónito com o desaparecimento do frade. Ainda tentou ver se o encontrava entre as silvas ou na lingueta de areia debaixo da ponte, mas Frei Anacleto de Santa Maria já se encontrava longe daquele Novembro de 1938. Ia sentado num barco, remando quatro homens, havia uns sete embrulhados em cobertores e um deles dizia-lhe:&lt;br /&gt;«Foi muita a sua bondade em acompanhar-nos a San Simón...»&lt;br /&gt;O barco bateu na areia e os remadores saltaram para o puxarem até ao pequeno cais. Um deles entregou um pequeno saco a frade, dizendo-lhe que era tudo quanto dispunham em Redondela para combater a cólera. Desembarcaram os doentes, Frei Anacleto guiou-os para o casarão, mas os seus olhos andavam de ramo em ramo em busca de um rouxinol. &lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;do livro «Já os Galos pretos cantam», de José Viale Moutinho. Prémio de Conto Edmundo Bettencourt. Lisboa, Ed. Caminho, 2004.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/24358457-114279976434356008?l=viale.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://viale.blogspot.com/feeds/114279976434356008/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=24358457&amp;postID=114279976434356008' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/24358457/posts/default/114279976434356008'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/24358457/posts/default/114279976434356008'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://viale.blogspot.com/2006/03/conto-ilha-de-san-simn-sediam-eu-na.html' title=''/><author><name>Viale Moutinho</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-24358457.post-114279870070876051</id><published>2006-03-19T12:04:00.000-08:00</published><updated>2006-03-19T12:05:00.723-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>129 LlVROS SOBRE A&lt;br /&gt;GUERRA CIVIL DE ESPANHA&lt;br /&gt;(E DEPOIS)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A bibliografia sobre a Guerra Civil de Espanha ultrapassa, em quantidade, a da II Guerra Mundial. É imensa. Naturalmente, nesta mão-cheia de páginas pretendeu-se apenas fornecer um guião para umas quantas visitas a livrarias e bibliotecas em Portugal e, sobretudo, em Espanha. Eis aqui uma bibliografia já interessante, ainda que não chegue sequer a atingir a categoria de essencial. Todas estas obras saíram até meados de Dezembro de 2005. Por outro lado, em alguns casos, os títulos podem ser inscritos em mais de uma rubrica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1 - História Geral da Guerra Civil&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Rafael ABELLA: La Vida Cotidiana durante la Guerra Civil. 2 tomos. Barcelona, Planeta, 2004.&lt;br /&gt;2. ACADEMIE DES SCIENCES DE L’URSS: La Solidarité des Peuples avec la Republique Espagnole. Moscovo, Progresso, 1974.&lt;br /&gt;3. Anthony BEEVOR: La Guerra Civil Española. Barcelona, Critica, 2005.&lt;br /&gt;4. Fernando DIAZ-PLAJA: La Vida Cotidiana en la España de la Guerra Civil, Madrid, Edaf, 1994.&lt;br /&gt;5. Juan GARCIA DURÁN: La Guerra Civil Española: Fuentes. Barcelona, Critica, 1985.&lt;br /&gt;6. Dolores Ibarruri (coord.): Guerra y Revolución en España. 3 vols. Moscovo, Progreso, 1971.&lt;br /&gt;7. Gabriel JACKSON: A República Española e a Guerra Civil. Lisboa, Publicações Europa-América, 1973.&lt;br /&gt;8. Juan Carlos LAVIANA (coord.): La Guerra Civil de España Mes a Mes. Madrid, Unidad Editorial, 2005. (Em publicação, tendo saído 15 vols. de um conjunto de 30.)&lt;br /&gt;8. Ramón PEREZ-MAURA (coord.): La Guerra Civil en sus Documentos. Barcelona, Belacqua, 2004.&lt;br /&gt;9. Eladi ROMERO: Itinerarios de la Guerra Civil Española: Guia del viajero curioso. Barcelona, Alertes, 2001. 2ª ed.&lt;br /&gt;10. Ramón TAMAMES (coord.): A Guerra Civil de Espanha 50 anos depois. Lisboa, Salamandra, 1986.&lt;br /&gt;11. Hugh THOMAS: A Guerra Civil de Espanha. Lisboa, Ulisseia, sd.&lt;br /&gt;12. Pierre VILAR: La Guerra Civil de España. Barcelona, Critica, 1986.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2 - Dicionário&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Manuel Rubio CABEZA: Diccionario de la Guerra Civil Española. 2 vols. Barcelona, Planeta, 1987.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3 - Portugal e a Guerra Civil de Espanha&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Iva DELGADO: Portugal e a Guerra Civil de Espanha. Lisboa, Publicações Europa-América, 1980.&lt;br /&gt;2. Varela GOMES: Guerra de Espanha, Achegas ao redor da participação portuguesa. Lisboa, Versus, 1988.&lt;br /&gt;3. Manuel FIRMO: Nas trevas da longa noite: Da Guerra de Espanha ao Campo do Tarrafal. Lisboa, Publicações Europa-America, 1978.&lt;br /&gt;4. Manuel LOFF: Salazarismo e Franquismo na época de Hitler (1936 -1942). Porto, Campo das Letras, 1996.&lt;br /&gt;5. João Mário MASCARENHAS (coord.): Guerra Civil de Espanha na memória de Barrancos. Lisboa, Biblioteca-Museu República e Resistência, 2002.&lt;br /&gt;6. César OLIVEIRA: Salazar e a Guerra Civil de Espanha. Lisboa, O Jornal, 1988.&lt;br /&gt;7.  Alberto PENA RODRIGUEZ: El Gran Aliado de Franco. Sada, Ed. do Castro, 1998.&lt;br /&gt;8. Fernando ROSAS (coord.): Portugal e a Guerra Civil de Espanha. Ed. Câmara Municipal de Lisboa, 1996. É uma obra diferente da seguinte:&lt;br /&gt;9. Fernando ROSAS (coord.): Portugal e a Guerra Civil de Espanha. Lisboa, Ed. Colibri, 1998.&lt;br /&gt;10. Hipólito de la TORRE GÓMEZ: A Relação Peninsular na antecâmara da Guerra Civil de Espanha (1931 – 36). Lisboa, Cosmos, 1998.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4 - História Oral e Memórias&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Alfonso BULLÓN DE MENDOZA e outro: Historias Orales de la Guerra Civil. Barcelona, Ariel, 2000.&lt;br /&gt;2. Neus Catalá: De la Resistencia y la Deportación. Barcelona: Adegena, 1984.&lt;br /&gt;3. Ronald FRASER: Recuérdalo tu y recuérdalo a otros. 2 vols. Barcelona, Critica, \979.&lt;br /&gt;4. Mijail Koltsov: Diario de la Guerra de España. Madrid, Akal, 1978.&lt;br /&gt;5. Enrique LISTER: Memorias de un luchador. Madrid, G. del Toro, 1977.&lt;br /&gt;6. Luis Moure Mariño: La Generación del 36. Sada, Ed. do Castro, 1989.&lt;br /&gt;7. Juan MODESTO: Soy del Quinto Regimiento. Paris, Ebro, 1969.&lt;br /&gt;8. José Viale MOUTINHO: Trincheiras. VN de Gaia: Ausência, &lt;br /&gt;9. José Viale MOUTINHO: No pasarán! Cenas e cenários da Guerra Civil de Espanha. Lisboa, Noticias, 1998. 2ª ed.&lt;br /&gt;10. Isabel Rios: Testimonio de la Guerra Civil. Sada, Ed. do Castro, 1986.&lt;br /&gt;11. E. SANTOS: «El Secretario» - Revelaciones sobre la Guerra Civil en Badajoz. Badajoz, Campini, 1984.&lt;br /&gt;12. Antonio SORIANO: Olvidados: Historia Oral del Exilio Republicano en Francia. (1939-1956). Barcelona, Critica, 1989.&lt;br /&gt;13. César VIDAL: Recuerdo Mil Novecientos Treinta y Seis… Madrid, Anaya, 1996.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;5 - Brigadas Internacionais&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Santiago ALVAREZ: Historia Politica y Militar de las Brigadas Internacionales. Madrid, Compañia Literária, 1996.&lt;br /&gt;2. Clarence KAILIN: Recordando a John Cookson. Cuenca, Universidade de Castilla-La&lt;br /&gt;3. Manuel REQUENA GALLEGO (coord.): La Guerra Civil Española y las Brigadas Internacionales.&lt;br /&gt;4. Vincent BROME: A Batalha das Brigadas Internacionais. Lisboa, Livros do Brasil, sd.&lt;br /&gt;Mancha, 2003. Cuenca, Universidad de Castilla-La Mancha, 1998.&lt;br /&gt;5. Meter Wyden: La Guerra Apasionada: Las Brigadas Internacionales en la Guerra Cvil Española. Barcelona, Alcor, 1997.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;6 - Mulheres e Crianças&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Jorge M. REVERTE e outro: Hijos de la Guerra. Madrid, Temas de Hoy, 2001.&lt;br /&gt;2. Mary NASH: Rojas: Las Mujeres en la Guerra Civil, Madrid, Taurus, 1999.&lt;br /&gt;3. Eduardo PONS PRADES: Las Guerras de los Niños Republicanos (1936 – 1995). Madrid, Compañia Literária, 1997.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;7 - Episódios e temas diversos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Michael ALBERT: El Ejército Republicano en la Guerra Civil. Paris, Ruedo Ibérico, 1977.&lt;br /&gt;2. Santiago ALVAREZ: Los Comisarios Politicos en el Ejército Popular de la Republica. Sada, Ed. do Castro, 1989.&lt;br /&gt;3. Maria de Jesus CAVA MESA: Memoria Colectiva del Bombardeo de Gernika. Gernika, Gogoratuz, Bakeaz, 1996.&lt;br /&gt;4. Francisco ESPINOSA MAESTRE: El Fenómeno Revisionista o Los Fantasmas de la Derecha Española. Badajoz, Ed. del Oeste, 2005.&lt;br /&gt;5. Francisco ESPINOSA MAESTRE: La Columna de la Muerte – El avance del ejército franquista de Sevilla a Badajoz. Barcelona, Critica, 2003.&lt;br /&gt;6. Aldo GAROSCI: Los Intelectuales y la Guerra de España. Gijón, Jucar, 1981.&lt;br /&gt;7. Ian GIBSON: Federico Garcia Lorca. 2 vols. Barcelona, Critica, 1998.&lt;br /&gt;8. Joaquin de LA PUENTE: El Guernica – Historia de un Cuadro. Madrid, Silex, 1987-&lt;br /&gt;9. Mário NEVES: A chacina de Badajoz. Lisboa, O Jornal, 1986.&lt;br /&gt;10. Jorge M. Reverte: La Batalla de Madrid. Barcelona, Crítica, 2004. 2ª ed.&lt;br /&gt;11. Jorge M. REVERTE: La Batalla del Ebro. Barcelona, Critica, 2003.&lt;br /&gt;12. Herbert R. SOUTHWORTH: La Destrucción de Guernica. Barcelona, Ariel, 1975.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;8 - Exílio&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Avel-li ARTIS-GENER: La Diáspora Republicana. Barcelona, Euros, 1976.&lt;br /&gt;2. Geneviéve DREYFUS-ARMAND, El Exílio de los Republicanos Españoles en Francia. Barcelona, Critica, 2000.&lt;br /&gt;3. Júlio MARTIN CASAS e outro: El Exílio Español (1936-1978). Barcelona, Planeta, 2002.&lt;br /&gt;4. Antonina RODRIGO: Mujer y Exílio 1939. Madrid, Compañia Literária, 1999.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;9 - Campos de Refugiados Franceses&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Celso AMIEVA: Asturianos en el Destierro Francia. Salinas, Ayalga, 1977.&lt;br /&gt;2. Marie-Claude Rafaneau-boj: Los Campos de Concentración de los Refugiados Españoles en Francia. Barcelona, Ómega, 1995.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;10 - Batalhões de Trabalhadores&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Luís LLARCH: Los Batallones de Trabajadores. Barcelona, Plaza &amp; Janes, 1978.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;11 - Espanhóis na Resistência em França&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Eduardo PONS PRADES: Españoles en los Maquis - Verano 1944. Barcelona, Sagitário, 1976.&lt;br /&gt;2. Secundino SERRANO: La Ùltima Gesta: Los republicanos que vencieron a Hitler. Madrid, Aguilar, 2005.&lt;br /&gt;3. Antonio VILANOVA: Los Olvidados. Paris, Ruedo Ibérico, 1969.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;13 - Espanhóis nos Campo de Concentração Nazis&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Mariano CONSTANTE: Yo fui Ordenanza de los SS. Barcelona, Martinez Roca, 1976.&lt;br /&gt;2. Manuel Izquierdo: Campos de Concentracion. Madrid, Endymion, 1996.&lt;br /&gt;3. José Viale Moutinho: Nas Cinzas do Inferno. VN de Gaia, Ausência, 2004.&lt;br /&gt;4. Eduardo PONS PRADES: Morir por la Libertad. Madrid, Vosa, 1995.&lt;br /&gt;5. Ed. PONS PRADES e outro: Los Cerdos del Comandante. Barcelona, Argos Vergara, 1978.&lt;br /&gt;6. José Luís RODRIGUEZ JIMÉNEZ: Los Esclavos Españoles de Hitler. Barcelona, Planeta, 2001.&lt;br /&gt;7. Monserrat ROIG: Los Catalanes en los Campos de Concentración Nazis. Barcelona, Ed. 62, 1977.&lt;br /&gt;8. David SERRANO: Españoles en los Campos Nazis. Barcelona, Littera, 2004.&lt;br /&gt;9. David WINGEATE PIKE: Españoles en el Holocausto. Madrid, Mondadori, 2003.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;14 – Guerrilheiros e Escondidos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Isidro Cícero: Los que se echaran al monte. Madrid, Ed. Popular, 1977-&lt;br /&gt;2. Francisco MORENO GÓMEZ: La Resistencia Armada contra Franco. Barcelona, Critica, 2001.&lt;br /&gt;3. Eduardo PONS PRADES: Guerrillas Españolas 1936-1060. Barcelona, Planeta, 1977.&lt;br /&gt;4. Secundino SERRANO: Maquis. Madrid, Temas de Hoy, 2001.&lt;br /&gt;5. Jesus TORBADO e outro: Los Topos. Madrid, Aguilar, 1999. 2ª ed.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;15 - Exemplos de comarcalização da Guerra&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. José BorrÁs: Aragón en la Revolución Española. Barclona: César Viguera Editor, 1983.&lt;br /&gt;2. Julián CHAVES PALACIOS: La represión en la Província de Cáceres durante la Guerra Civil. Cáceres, Universidad de Extremadura, 1996.&lt;br /&gt;3. Francisco ESPINOSA MESTRE: La Guerra Civil en Huelva. Huelva, Diputacion de Huelva, 2001. 3ª ed.&lt;br /&gt;4. Carlos FERNÁNDEZ SANTANDER: Alzamiento y Guerra Civil en Galicia (1935-1939). 2 vols. Sada, Ed. do Castro, 2000.&lt;br /&gt;5. Andrés GÓMEZ-FLORES: Ciudad Inventada - Albacete en la Guerra Civil. Albacete, Los Libros del Sur, 2002.&lt;br /&gt;6. António HERNÁNDEZ GARCIA: La represión en la Rioja. 3 tomos. Logroño, Ed. Autor, 1984.&lt;br /&gt;7. Francisco MORENO GÓMEZ: La Guerra Civil en Córdoba. Madrid, Alpuerto, 1985.&lt;br /&gt;8. Rafael Quirosa-Cheyrouze y Muñoz: Almería, 1936-37. Almería, Universidade de Almería, 1996.&lt;br /&gt;9. Carlos Rojas: La Guerra en Catalunya. Barcelona, Plaza &amp; Janés, 1979.&lt;br /&gt;10. Matilde Vázquez e outro: La Guerra Civil en Madrid. Madrid, Tebas, 1978.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;17 – Repressão franquista e vítimas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Julian CASANOVA e outros: Morir, Matar, Sobrevivir – La violencia en la Dictadura de Franco. Barcelona, Critica, 2002.&lt;br /&gt;2. Francisco Espinosa: La Justicia de Queipo. Sevilla, 2000.&lt;br /&gt;3. Enrique GONZALEZ DURO: El Miedo en la Posguerra. Madrid, Oyeron, 2003.&lt;br /&gt;4. Santos JULIA (coord.): Victimas de la Guerra Civil. Madrid, Temas de Hoy, 1999.&lt;br /&gt;5. Isaias LAFUENTE: Tiempos de hambre. Madrid, Temas de Hoy, 1999.&lt;br /&gt;6. José Manuel SABÍN: Prisión y muerte en la España de Postguerra. Madrid, Anaya, 1996.&lt;br /&gt;7. Emilio SILVA e outro: Las Fosas de Franco. Madrid, Temas de Hoy, 2003.&lt;br /&gt;8. Rafael TORRES – Desaparecidos de la Guerra Civil. Madrid, La Esfera de los Libros, 2992.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;18 – Fotografia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. AGENCIA EFE: Imágenes Inéditas de la Guerra Civil (1936-1939). Madrid, Agncia Efe, 2002. 2ª ed.&lt;br /&gt;2. David BALSELLS: La Guerre Civile Espagnole – Dés Photographes pour l’ Histoire. Barcelona, Museu Macional d’Art de Catalunya, 2002.&lt;br /&gt;3. Alex KERSHAW: Sangre y Champán: La vida y la época de Robert Capa. Barcelona, Debate, 2003.&lt;br /&gt;4. Richard Whelan: Robert Capa. 2 vols. Madrid, Aldeasa, 2003.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;19  - Romances, Poemas e contos sobre estas matérias&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Josefina ALDECOA: Historia de una Maestra. Romance. Barcelona, Planeta, 1954.&lt;br /&gt;2. J. AMAT-PINIELLA: K. L. Reich. Romance. Barcelona, El Aleph, 2002.&lt;br /&gt;3. Max AUB: Campo Fechado. Romance. Campo das Letras, 2004.&lt;br /&gt;4. Camilo José CELA: A Família de Pascual Duarte. Romance. Lisboa, Circulo de Leitores, sd.&lt;br /&gt;5. Camilo José Cela: A Colmeia. Romance. Lisboa, Ulisseia, sd.&lt;br /&gt;6. Camilo José CELA: Mazurca para Dois Mortos. Lisboa, Difel, sd.&lt;br /&gt;7. Javier Cercas: Os Soldados de Salamina. Romance. Porto, Asa, 2003.&lt;br /&gt;8. Fernando DIAZ-PLAJA: El Desfile de la Victoria. Bracelona, Argos Vergara, 1977-&lt;br /&gt;9. Bernd DIETZ (coord.): Un Pais donde lucia el sol – Poesia inglesa de la Guerra Civil Española. Madrid, Hipérion, 1981. Bilingue.&lt;br /&gt;10. Álvaro GUERRA: No Jardim das Paixões Eternas. Romance. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2002.&lt;br /&gt;11. Ernest HEMINGWAY: Por quem os sinos dobram. Romance. Lisboa, Livros do Brasil, sd.&lt;br /&gt;12. Miguel HERNANDEZ: Capítulo de poemas de guerra das suas Obras Completas.&lt;br /&gt;13. António MACHADO:  Capítulo de poemas de Guerra das suas Poesias Completas.&lt;br /&gt;14. André MALRAUX: A Esperança. Romance. Lisboa, Livros do Brasil, sd.&lt;br /&gt;15. José Viale Moutinho: Cenas da Vida de um Minotauro. Contos. Âncora,&lt;br /&gt;16. José Viale Moutinho: Já os galos pretos cantam. Contos. Lisboa, Caminho, 2004.&lt;br /&gt;17. José Viale Moutinho: Los Moros. Porto, Campo das Letras, 2000.&lt;br /&gt;18. Joaquim NAMORADO (coord.): A Guerra Civil de Espanha na Poesia Portuguesa. Antologia. Coimbra, Centelha, 1987.&lt;br /&gt;19. Fernando Assis PACHECO: Trabalhos e Paixões de Benito Prada. Romance. Porto, Asa, 1003.&lt;br /&gt;20. António RAMOS-GASCON (coord.): El Romancero del Ejército Popular. Antologia. Madrid, Nuestra Cultura, 1978.&lt;br /&gt;21. Mercê Redoreda: La Plaza del Diamante. Romance. Barcelona, Edhasa, 1982.&lt;br /&gt;22. Manuel RIVAS: O Lápis do Carpinteiro. Romance. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2004.&lt;br /&gt;23. Jorge de SENA: Sinais de Fogo. Romance. Lisboa, Ed. 70, 1985. 3ª ed.&lt;br /&gt;24. José SARAMAGO: O Ano da Morte de Ricardo Reis. Lisboa, Caminho, 1997.&lt;br /&gt;25. Claude SIMON: Palace. Romance. Lisboa, Portugalia, sd.&lt;br /&gt;26. Manuel TIAGO (Álvaro Cunhal): A Casa de Eulália. Romance. Lisboa, Avante, 2000.&lt;br /&gt;27. Gonzalo TORRENTE BALLESTER: Filomeno. Romance. Lisboa, Publicações Europa-América, sd.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dezembro 2005.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/24358457-114279870070876051?l=viale.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://viale.blogspot.com/feeds/114279870070876051/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=24358457&amp;postID=114279870070876051' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/24358457/posts/default/114279870070876051'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/24358457/posts/default/114279870070876051'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://viale.blogspot.com/2006/03/129-llvros-sobre-guerra-civil-de.html' title=''/><author><name>Viale Moutinho</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry></feed>
